Vamos entender um pouco como foi a crucificação de Jesus e porque essa prova de amor da parte de Deus foi tão importante para nós. O que aconteceu no Getsêmani? Quais os locais tradicionais do Seu sepultamento? Por que Ele teve que morrer daquela maneira, tão violenta?


Entendendo a crucificação de Jesus




Depois da Última Ceia com Seus discípulos no cenáculo, Jesus foi para o Getsêmani (Mt 26: 36-46; Mc 14: 32-42; Lc 22: 39-46). Ali Ele esteve em agonia por ver tudo o que teria que sofrer pela redenção da humanidade:

“Em seguida, foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar; e, levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai comigo. Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passa de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres. E, voltando para os discípulos, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Tornando a retirar-se, orou de novo, dizendo: Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu beba, faça-se a tua vontade (Lc 22: 43: [Então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava]). E, voltando, achou-os outra vez dormindo; porque os seus olhos estavam pesados. Deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Então, voltou para os discípulos e lhes disse: Ainda dormis e repousais! Eis que é chegada a hora, e o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima” (Mt 26: 36-46).

O Getsêmani é um jardim situado no sopé do Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Mateus e Marcos (Mt 26: 36; Mc 14: 32) dizem que Jesus foi a um ‘lugar’ [chórion – χωρίον – Strong #g5564] chamado Getsêmani; e João (Jo 18: 1) deixa claro que se tratava de um jardim [Strong #g2779 – képos].

• Mt 26: 36: “Em seguida, foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar”.
• Mc 14: 32: “Então, foram a um lugar chamado Getsêmani; ali chegados, disse Jesus a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou orar”.
• Jo 18: 1: “Tendo Jesus dito estas palavras, saiu juntamente com seus discípulos para o outro lado do ribeiro Cedrom, onde havia um jardim; e aí entrou com eles”.

Getsêmani (em grego: Γεθσημανή, transl. Gethsēmani; em hebraico: גת שמנים, transl. Gath Shmanim; do aramaico, Gath Shmānê ou Gath Shemen), significa, literalmente ‘um lagar de azeite’ ou ‘prensa de azeite’ (Gath – גת = prensa, lagar; Azeite = shemen). O jardim foi assim chamado não por causa da quantidade de oliveiras, mas por causa da quantidade das prensas de azeite que ali havia.


O Jardim do Getsêmani
Getsêmani nos dias atuais


As pedras de moinho serviam para esmagar as azeitonas (Zayit = azeitona) recém-colhidas, e depois essa ‘massa’ ou ‘pasta’ era colocada em bolsas semelhantes a pneus de automóvel, empilhadas umas sobre as outras e levadas para outro lugar onde outras pedras com pesos diferentes as prensavam, dessa forma extraindo o azeite. O azeite ‘extra virgem’, como nós conhecemos hoje, era o azeite mais puro que era extraído com a primeira pedra e geralmente dado como primícias para o óleo da unção no Templo, para cerimônias de unção e consagração de reis e sacerdotes e misturado com especiarias aromáticas. A segunda prensa (com uma pedra mais pesada do que a primeira) gerava um azeite de qualidade inferior e que era utilizado pelas pessoas para uso doméstico, geralmente, no preparo de alimentos. O terceiro, extraído na prensa com uma pedra mais pesada do que as anteriores, era um azeite mais denso usado nas lamparinas para iluminação. O que restava das azeitonas espremidas por uma 4ª prensa continha praticamente os caroços e cascas, portanto, um azeite de qualidade bem inferior, para outros usos, como por exemplo, a fabricação de sabão.


Pedra de moinho
A pedra de moinho

As bolsas com as azeitonas As bolsas empilhadas
As bolsas com as azeitonas eram empilhadas antes de irem para as prensas

A lamparina nos tempos de Jesus
A lamparina nos tempos de Jesus

Pedras para prensar azeitonas
As pedras para prensarem as azeitonas


Quando olhamos as imagens do moinho e das pedras de prensagem, nós podemos entender o significado do nome do Jardim (Getsêmani, ‘um lagar de azeite’ ou ‘prensa de azeite’) e da similaridade com o que Jesus passou ali em Sua agonia antes de ser preso. Ele sentiu uma enorme opressão, como uma azeitona que estivesse sendo esmagada por uma enorme pedra.

Ele estava sentindo uma dor emocional aguda que causava profuso suor (Lc 22: 44: [E estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra]), à medida que Ele olhava com apreensão e quase terror para Seu sacrifício vindouro; o ‘cálice amargo’.

O cálice não simbolizava a dor física ou mental, e sim a agonia espiritual de levar os pecados do mundo e suportar o juízo divino que esses pecados mereciam. O cálice continha a ira de Deus (Is 51: 17; Is 51: 22-23; Is 63: 3; Jr 25: 15-16; Ap 19: 15), e causava uma completa desorientação física (‘o cálice de atordoamento’ – Is 51: 22-23) e mental (confusão) como a embriaguez. Ele se afastou horrorizado da experiência de alienação de Seu Pai que o juízo sobre o pecado traria sobre Ele. O propósito do amor de Deus era salvar os pecadores e salvá-los justamente. O cálice também simbolizava nossos pedidos diante do sofrimento que Satanás imporia a todos os homens. Jesus viu ali o sofrimento de toda a humanidade e os planos terríveis de Satanás contra nós.

De Sua agonia de pavor, enquanto meditava sobre as implicações de Sua morte, Jesus emergiu daquela intercessão com confiança serena e absoluta, equilíbrio emocional e muita unção, pois os que se aproximaram caíram diante Dele (Jo 18: 6: “Quando, pois Jesus lhes disse: Sou eu, recuaram e caíram por terra”).

Através do suor de sangue, o Senhor aqui quebrou a nossa maldição de abandono, rejeição e solidão. Não temos mais que suar de medo frente ao inimigo e suas ameaças. Não temos mais que nos sentir sozinhos e abandonados diante de certas circunstâncias; Ele já sofreu por nós. Não temos mais que nos sentir abandonados pelos amigos, pois Ele já passou por isso em nosso lugar e nos diz que Ele é o nosso melhor e mais confiável amigo. Ele não nos deixa nem nos abandona e está conosco em todos os momentos difíceis. Por isso, em todas as nossas ‘aflições no Getsêmani’ podemos ter certeza de tê-lo ao nosso lado.

O plano divino e o plano humano

Jesus sabia que a cruz era o centro da Sua missão (Mt 26: 24; Lc 12: 50; Lc 18: 31-33). Nós podemos ver no AT algumas referências proféticas ao sacrifício da cruz: Sl 22: 1; Sl 22: 7-8; Sl 22: 11-21; Sl 69: 18-21; Sl 129: 3; Is 50: 6-7; Is 52: 13-15; Is 53: 2-12; Jr 31: 34.

Ele, de livre vontade, abraçou o propósito do Pai com o fim de salvar os pecadores:
Jo 6: 38-39: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia”.

Jesus, na verdade, foi morto obedecendo a um plano humano e a um plano divino conjuntamente.

No plano humano, a cruz foi o resultado da hostilidade dos líderes nacionais judaicos, pois Jesus era uma ameaça à sua posição e autoridade e, por isso, o invejavam. Para os romanos, Ele era um revolucionário, alguém que perturbou o ‘status quo’, por isso, com sua mediocridade, o mataram. Pilatos percebeu que, por inveja, os judeus entregaram Jesus a ele (Mt 27: 18; Mc 15: 10) e ele, por sua vez, o entregou à morte, mesmo sabendo ser Ele inocente, por ambição de manter sua posição e por covardia, pensando em César (Mt 27: 24-25; Mc 15: 15; Lc 23: 1-7; Lc 23: 20-25; Jo 19: 6-16). Judas o entregou por ganância; talvez, porque cresse na promessa do Messias e esperasse que Jesus se manifestasse como tal diante das autoridades romanas e judaicas para livrar Seu povo da opressão.

O profeta Zacarias profetizou o sofrimento de Jesus e que Ele seria traído (Zc 11: 12-14; Zc 12: 10; Zc 13: 6-7; Mt 26: 14-16; Lc 22: 3-6).

O Salmo 69 fala sobre o sofrimento do Messias; por isso, podemos ver que Ele sentiu os pecados, o ultraje e as nossas atitudes erradas, e foi isso que o levou à morte. Ele sentiu e ainda sente tristeza quando o expomos ao desprezo, nos desviando dele; quando não nos entregamos completamente a Ele; quando optamos por um compromisso morno; quando nós o negamos em nosso coração; quando somos gananciosos, invejosos, ambiciosos e irreverentes, e muito mais.

No plano divino, o Pai o entregou por amor a nós:
• Is 53: 10: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos”.
• Jo 3: 16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

Por que foi necessário um sacrifício tão cruel, daquela forma?

— Porque a nossa reconciliação com Deus era uma compra, e o preço era alto e tinha que ser pago integralmente. Esse castigo, pago por Jesus em nosso lugar (1 Co 15: 3) nos trouxe a paz, ou seja, a justiça divina foi feita ali na cruz, por isso nós podemos estar em paz com Deus ao aceitarmos esse sacrifício. Seu sangue nos justificou e ainda nos justifica de toda acusação; pelos Seus ferimentos nós fomos sarados, fomos salvos dos nossos pecados.

A crucificação

Aqui eu coloco alguns detalhes importantes da crucificação de Jesus para que possamos entender a profundidade do Seu sacrifício e conquista, bem como o Seu amor por nós.

A palavra crucificação vem do latim cruci figo (do verbo ‘figere’ – fixar, prender), que quer dizer: cravo numa cruz. No Novo Testamento é sempre empregado o verbo stauroõ, cravar, que deriva do substantivo stauros, estaca. A cruz era a prática mais cruel de morte infligida pelos romanos. Era de origem fenícia e cartaginesa (relativo a Cartago, na África), mas também há evidência de emprego na Pérsia, nos séculos sexto e quinto AC. Os gregos e romanos adotaram a crucificação dos fenícios e era um tipo de punição reservada aos escravos, provincianos e aos tipos mais baixos de criminosos; os cidadãos estavam isentos. Foi finalmente abolida do império romano por Constantino em 315 DC.

Três espécies de cruzes são conhecidas dos escritores antigos: a cruz decussata ou cruz de Santo André (X), a cruz comissa ou cruz de Santo Antônio (T) e a cruz imissa ou cruz latina (). A cruz grega, em que a travessa fica mais ou menos no meio do poste vertical e que tem a mesma dimensão que este (+), é de origem posterior. A cruz de Jesus foi provavelmente a cruz imissa, que a tradição transformou em símbolo cristão.

Em Is 50: 6-7; Is 52: 14; Is 53: 2-3 nós vemos uma descrição de como ficou desfigurado o rosto de Jesus pelos golpes dados pelos soldados. Neste capítulo 53, profeta descreve com precisão o sofrimento de Jesus na cruz. Cuspiram Nele, arrancaram-Lhe a barba e o torturaram com socos, golpes e blasfêmias enquanto estava no Sinédrio:
• Mt 26: 67-68: “Então, uns cuspiram-lhe no rosto e davam murros, e outros o esbofeteavam, dizendo: Profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu!”
• Mc 14: 65: “Puseram-se alguns a cuspir nele, a cobrir-lhe o rosto, a dar-lhe murros e a dizer-lhe: Profetiza! E os guardas o tomaram a bofetadas”.
• Lc 22: 63-65: “Os que detinham Jesus zombavam dele, davam-lhe pancadas e, vendando-lhe os olhos, diziam: Profetiza-nos: quem é que te bateu? E muitas outras coisas diziam contra ele, blasfemando”.

O rosto é uma parte muito vascularizada do corpo e sangra muito quando traumatizada. Os soldados que bateram Nele faziam parte de um grupo de elite (As Coortes) da guarda romana mandada para a Judéia e todas as províncias romanas da Ásia Menor (trezentos a seiscentos soldados, mais raramente atingindo mil), portanto, eram os mais fortes, musculosos, violentos e preparados para grandes lutas. Seus socos e golpes provavelmente vieram sobre Jesus com muita força provocando hematomas e conseqüentemente desfigurando-Lhe completamente o rosto. O cordeiro pascal (para os judeus) não poderia ter nenhum osso quebrado (Êx 12: 46; Nm 9: 12; Sl 34: 20; Jo 19: 36), como Jesus não teve nenhum dos Seus ossos quebrados.

Depois de pronunciada a sentença, era costume que a vítima fosse chicoteada com o flagellum, um chicote de línguas de couro com pequenos pedaços de metal ou osso. Isso ocorreu após Pilatos ter interrogado Jesus e liberado a sentença da crucificação:
• Mt 27: 26: “Então Pilatos lhes soltou Barrabás; e, após haver açoitado a Jesus, entregou-o para ser crucificado”.


Flagellum


Pela violência com que eram aplicados os golpes, pois o metal e os ossos do chicote arrancavam pedaços de pele e músculos, era improvável que a vítima suportasse e sobrevivesse a esse tipo de flagelo, mas Jesus sobreviveu. No Sl 129: 3 podemos ver uma referência de como ficaram as costas de Jesus pelos os golpes, como uma terra cheia de sulcos após passar o arado, ou seja, as feridas profundas dos golpes Lhe tiraram pedaços de carne e pele: “Sobre o meu dorso lavraram os aradores; nele abriram longos sulcos”. É bom lembrar que as mesmas costas que sofreram e sangraram com os açoites foram novamente traumatizadas quando os soldados arrancaram as roupas de Jesus para colocá-lo na cruz e quando suas costas entraram em contato com a madeira áspera. Quando o sangue das feridas anteriores coagulava, outro suplício o fazia sangrar novamente.

Depois dos açoites, Jesus foi novamente entregue aos soldados que o vestiram de púrpura, como era conhecida a lã tingida. Eles cravaram sobre Sua cabeça uma coroa de espinhos e novamente traumatizaram Seu couro cabeludo com golpes; mais sangue foi vertido:
• Mt 27: 27-31 (Mc 15: 16-20): “Logo a seguir, os soldados do governador, levando Jesus para o pretório, reuniram em torno dele toda a coorte. Despojando-o das vestes, cobriram-no com um manto escarlate; tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lhe na cabeça e, na mão direita, um caniço; e, ajoelhando-se diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos judeus! E, cuspindo nele, tomaram o caniço e davam-lhe com ele na cabeça. Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto e o vestiram com as suas próprias vestes. Em seguida, o levaram para ser crucificado”.


A coroa de espinhos


A crucificação era realizada fora da cidade (Dt 16: 3-8 cf. Hb 13: 10-13) e as vítimas carregavam sua cruz, provavelmente apenas o patibullum (a trave horizontal), também chamado de antenna com o título pendurado no pescoço ou levado na frente por um arauto. O patibullum poderia pesar de 30 a 60 quilos.


Patibullum, a trave horizontal


Não há referência como foi levado o título de Jesus; só sabemos que Pilatos o escreveu e o pregou na cruz (Jo 19: 17-19: “Tomaram eles, pois a Jesus; e ele próprio, carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, Gólgota em hebraico, onde o crucificaram e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio. Pilatos escreveu também um título e o colocou no cimo da cruz; o que estava escrito era: JESUS NAZARENO, REI DOS JUDEUS”). Na Judéia, antes das execuções, vinho misturado com mirra era dado aos condenados pelas mulheres judias obedientes à Palavra, afim de aliviar a dor dos crucificados, mas Jesus recusou:
• Pv 31: 6-7: “Dai bebida forte aos que perecem e vinho, aos amargurados de espírito; para que bebam, e se esqueçam da sua pobreza, e de suas fadigas não se lembrem mais”.
• Lc 23: 27: “Seguia-o numerosa multidão de povo, e também mulheres que batiam no peito e o lamentavam”.
• Mt 27: 34: “deram-lhe a beber vinho com fel, mas ele, provando-o, não o quis beber”.
• Mc 15: 23: “Deram-le a beber vinho com mirra; ele, porém, não tomou”.

Parece mais provável que as mãos eram cravadas à antenna (ou patibullum), primeiro a da direita e, então, a da esquerda, com os cravos agudos de 11 a 18 cm (cravi trabales) estando a vítima deitada, e depois o patibullum era levantado e pregado à trave vertical (stauros). Não havia descanso para os pés, mas um pegma (em grego), cornu ou sedile (em latim), era colocado no punho para impedir que as mãos fossem rasgadas e o corpo caísse. Era um pedaço de madeira colocado entre a mão e o prego cravado no punho. Os braços da pessoa não eram amarrados com cordas à trave horizontal, apenas os pregos sustentavam o corpo. Os braços podiam ficar mais ou menos estendidos. Se ficassem mais estendidos, a morte era mais rápida; se ficassem mais dobrados, a morte geralmente era mais lenta. A pessoa tinha que fazer um movimento para cima de tempos em tempos para poder respirar, pois o peso do corpo puxando-a para baixo dificultava a respiração, e a morte ocorria por asfixia. Também a perda de sangue era um fator a ser levado em conta porque a cada movimento que o condenado fazia para erguer o corpo a fim de poder respirar, suas costas já feridas pelo chicote se arranhavam no contato com a madeira áspera.

Havia outra possibilidade, além dessa de içar o patibullum e depois encaixá-lo à trave vertical. Às vezes a pessoa era pregada na posição deitada tanto na trave horizontal como na vertical e depois todo o conjunto de madeira era levantado. Nem sempre o condenado era pregado numa cruz de madeira serrada e montada para este fim. Como os romanos executavam muitas pessoas dessa forma e não havia tanta madeira disponível na Judéia para se fazer isso, na maioria das vezes os condenados à morte de cruz eram pregados em árvores e, dependendo das circunstâncias, várias pessoas poderiam ser pregadas numa mesma árvore, se seus ramos fossem propícios para isso.


Colocação dos pregos nas mãos


Os pés do condenado não eram pregados um sobre o outro, mas os pregos eram cravados nas laterais dos pés, próximo aos calcanhares, e da mesma forma que nas mãos, um pedaço de madeira era usado para ajudar na fixação ao poste vertical. Isso pode ser confirmado pelos achados arqueológicos de ossos de um jovem crucificado no primeiro século da era cristã, em cujo ossuário se encontrou os ossos do seu pé com um prego atravessando-o lateralmente e alguns fragmentos de madeira presos a ele.


Colocação dos pregos nos pés

Pregos colocados nos pés

Os pés presos na cruz

Pés – achado arqueológico


Outro detalhe sobre a crucificação é que a cruz não era muito alta e nem era comum se crucificar os criminosos em colinas, mas a cruz era geralmente de pouca altura, e colocada em lugares visíveis aos transeuntes. Por isso, os quatro evangelhos sinóticos não falam que o Calvário ou Gólgota estava situado numa colina; eles apenas dizem que Jesus foi crucificado num lugar chamado Gólgota, que em hebraico significa ‘Lugar da Caveira’:
• Mt 27: 33-34: “E, chegando a um lugar chamado Gólgota, que significa Lugar da Caveira, deram-lhe a beber vinho com fel; mas ele, provando-o, não o quis beber”.
• Mc 15: 22: “E levaram Jesus para o Gólgota, que quer dizer Lugar da Caveira”.
• Lc 23: 33: “Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, bem como aos malfeitores, um à direita, outro à esquerda”.
• Jo 19: 17-18: “Tomaram eles, pois a Jesus; e ele próprio, carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, Gólgota em hebraico, onde o crucificaram e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio”.


Mapa de Jerusalém nos tempos de Jesus


Não se conhece o sítio exato do Calvário ou Gólgota (Γολγοθα, em grego. Em hebraico: gulgōlet – גולגולת). Todos os marcos foram destruídos no cerco de Jerusalém, sendo incerta a identificação. O lugar da execução era fora dos muros da cidade (Dt 16: 3-8 cf. Hb 13: 10-13), mas perto dela (Jo 19: 20) e de uma estrada de muito tráfego, acessível às pessoas (Mt 27: 39; Mc 15: 29). As opiniões se dividem hoje entre o local tradicional da Igreja do Santo Sepulcro, ou o Calvário de Gordon, exatamente ao norte da Porta de Damasco. Calvário (latim) ou Gólgota (aramaico) significa “Lugar da Caveira”. O lugar foi assim chamado ou por causa da configuração do terreno, que tinha a aparência de uma caveira. Charles George Gordon (1833–1885) foi um oficial da marinha real inglesa e administrador do exército britânico, que visitou a Palestina e fez pesquisas sobre o possível local da crucificação de Jesus. Ele endossou a visão de um teólogo alemão e estudioso bíblico de chamado Otto Thenius, que em 1842 publicou uma proposta de que a colina rochosa ao norte do portão de Damasco era o Gólgota bíblico, embaixo de um penhasco que contém dois grandes buracos afundados, e que Gordon considerava como os olhos de um crânio. Perto, há uma antiga tumba talhada em pedra conhecida hoje como ‘a tumba do jardim’ ou ‘Calvário de Gordon’, que Gordon propôs como a tumba de Jesus, mas depois descoberto pelos arqueólogos como sendo do século VII AC, junto com várias outras tumbas antigas, e abandonadas no século I EC.


Igreja do Santo Sepulcro

A tumba do Jardim


Uma esponja num galho de hissopo com vinagre Lhe foi oferecida:
Jo 19: 29: “Estava ali um vaso cheio de vinagre. Embeberam de vinagre uma esponja e, fixando-a num caniço de hissopo, lha chegaram à boca”.
O hissopo é símbolo de purificação, por isso Davi disse no Sl 51: 7: “Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo que a neve”.

Em referência ao poder purificador do hissopo, nós vimos que, nos momentos finais da vida de Jesus, quando estava na cruz, num grau extremo de desidratação, Ele disse: “Tenho sede!” Então, alguém molhou uma esponja no vinagre, fixando-a num ramo de hissopo e Lha deu para beber. Foi, na verdade, um ato de misericórdia, pois o corpo de Jesus, em face da desidratação e do vinagre, morreria. Ao receber a esponja no galho de hissopo e beber dela, Jesus expirou, significando que a purificação da humanidade estava consumada. O Seu sacrifício tinha chegado ao fim e a lepra (pecado) do mundo estava limpa. O texto diz: “Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado, para se cumprir a Escritura disse: Tenho sede! Estava ali um vaso cheio de vinagre. Embeberam de vinagre uma esponja e, fixando-a num caniço de hissopo, lha chegaram à boca. Quando, pois Jesus, tomou o vinagre, disse: Está consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (Jo 19: 28-30).

Voltando à cruz, por esse método a morte era usualmente bastante prolongada, raramente ocorrendo antes de 36hs, e em certas ocasiões levava até nove dias, por isso o centurião e quatro guardas foram postos de guarda para impedir a retirada de Jesus da cruz (Jo 19: 23). Mas Jesus ficou na cruz por seis horas, tanto é que Pilatos estranhou que já tivesse morrido (Mc 15: 44). Foi crucificado à hora 3ª (9hs: Mc 15: 25) e morreu à hora 9ª (15hs: Mc 15: 34; 37). Foi retirado da cruz ao cair da tarde, antes das 18hs para não profanar o shabbat (Mc 15: 42-46). Outro motivo pelo qual Jesus foi retirado da cruz pode ser encontrado em Dt 21: 22-23: “Se alguém houver pecado, passível da pena de morte, e tiver sido morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro durante a noite, mas, certamente, o enterrarás no mesmo dia; porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus; assim, não contaminarás a terra que o Senhor, teu Deus, te dá em herança” (cf. Js 10: 27). O homem que fosse executado por pena de morte era maldito de Deus e deveria ser enterrado no mesmo dia (cf. Gl 3: 13).

A dor era obviamente intensa, visto que o corpo inteiro ficava sujeito a tensões, enquanto que as mãos e pés, que são massas de nervos e tendões, perdiam pouco sangue. Entretanto, a presença dos pregos próximos aos nervos dos punhos e dos pés provocavam intensas dores nevrálgicas. Depois de algum tempo, o sangue era desviado para as artérias da cabeça e do estômago e ficavam dilatadas, causando dores abdominais e uma dor de cabeça lancinante; eventualmente, a febre e o tétano se manifestavam. Quando, por qualquer razão, era proposto livrar a vítima de seus intensos sofrimentos antes do fim, como que para compensá-la com o sofrimento abreviado, as pernas eram quebradas com golpes de cacete ou martelo (crurifragium ou skelocopia), e o golpe de misericórdia era dado com uma espada ou lança, usualmente no lado da vítima (perforatio subalas). Com o ato de quebrar as pernas, a pessoa não poderia fazer o movimento de elevação do corpo para respirar e morria por asfixia. Como foi visto anteriormente, o cordeiro pascal não poderia ter nenhum osso quebrado (Êx 12: 46; Nm 9: 12; Sl 34: 20; Jo 19: 36), como Jesus não teve nenhum dos Seus ossos quebrados.

Outro fator que ocorria na cruz, como foi dito acima, era a desidratação (Jo 19: 28). Devemos pensar que Jesus estava realmente desidratado pela quantidade de sangue que perdera e por estar sem se alimentar e sem beber água desde a noite anterior na ceia. Por isso, existia vinagre ao lado da cruz: para acelerar a morte do crucificado (Jo 19: 29; Sl 69: 21). No Sl 22: 15 podemos ver uma referência ao grau extremo de desidratação provocada pelos flagelos: “Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte”.

Jesus tinha consciência de que passaria por todo esse sofrimento, mas que não seria em vão, pois, através dele, Sua obra de redenção seria completa (Is 53: 11: “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si”).

Só após o sofrimento físico da crucificação, o sofrimento emocional das zombarias dos que ali estavam e o sofrimento espiritual da separação do Pai pela treva dos pecados da humanidade, que Ele carregou sobre si, é que o Senhor pôde dizer: “Está consumado!” (Jo 19: 30), ou seja, “foi e será para sempre consumado (‘tetelestai’ – τετελεσται em grego = ‘está consumado’, ‘totalmente pago’; no caso de pagamento de dívidas, por exemplo, significa: liquidado)”. Ele realizou na cruz o que veio realizar no mundo.


Cruz

Como era o sepultamento naquela época?

No NT, o cadáver era lavado e, a seguir, ungido (Mc 16: 1; Jo 19: 39; Lc 23: 56), envolto em faixas de linho impregnadas com especiarias (Mc 14: 8; Jo 19: 40). Finalmente, os membros eram amarrados e o rosto coberto com um lenço (Jo 11: 44; Jo 20: 7). Explicando mais detalhadamente, o corpo era colocado sobre uma laje, lavado minuciosamente pelas mulheres com água, azeite e perfumes, incluindo cabelos e unhas, bem escovadas. Depois começava o processo de bandagem, ou seja, um conjunto de faixas envolvendo o corpo do pescoço para baixo, os membros separadamente, e outro grupo de faixas na cabeça, sobre a qual se colocava um lenço (Jo 11: 44; Jo 20: 7). Esse processo demorava de 7 a 8 horas e não era feito à noite. O corpo, assim preparado era colocado numa das câmaras. Depois de um ano ou mais, os ossos eram colocados em ossuários e depositados nos vãos da rocha. Os sepulcros eram pequenos, e não cabiam muitas pessoas lá dentro para o processo de colocar as faixas. Também era escuro, por isso havia um lugar na rocha onde se colocava uma lamparina. No caso de Jesus, esse trabalho foi interrompido por causa do Shabbat. Por isso, os evangelistas descrevem apenas que Jesus foi envolto com um lençol de linho, mas não enfaixado (Jo 19: 40; Jo 20: 4-8; Lc 23: 53; Mc 15: 46; Mt 27: 57-60).


O túmulo nos tempos de Jesus

As câmaras onde o morto era depositado


É interessante notar o que a bíblia relata sobre os lençóis que envolveram Jesus e como eles foram encontrados por Pedro e João na manhã de Domingo, após Sua ressurreição. Em Jo 20: 4-8 está escrito: “Ambos correram juntos, mas o outro discípulo correu ainda mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro; e, abaixando-se, viu os lençóis de linho; todavia, não entrou. Então, Simão Pedro, seguindo-o, chegou e entrou no sepulcro. Ele também viu os lençóis, e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os lençóis, mas deixado num lugar à parte [NVI: ... bem como o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus. Ele estava dobrado (Strong #1794, entulissó, ἐντυλίσσω) à parte, separado das faixas de linho]. Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu”.

Isso significa que houve algo sobrenatural ali. O fato de o lenço que envolvera o rosto estar separado dos lençóis ou do pano limpo de linho que José de Arimatéia envolveu o corpo de Jesus (Mt 27: 57-60) significa que ninguém tinha entrado ali rapidamente para roubar o corpo do Mestre, antes que os soldados romanos notassem. Houve um ato cuidadoso e deliberado de dobrar ou enrolar o lenço que cobria a cabeça e deixá-lo num lugar à parte. ‘Dobrado’ (Strong #1794, entulissó, ἐντυλίσσω) significa, em grego: embrulhar, enrolar, envelopar. Entulissó se origina de ‘en’ e ‘tulisso’ (torcer; provavelmente semelhante a ‘heilisso’): entrelaçar (enrolar), ou seja, enrolar, encerrar, acabar; embrulhar (juntos). E os lençóis não estavam colocados de qualquer jeito, como que desenrolado às pressas, mas como se o Senhor estivesse passado por entre eles; elas estavam do jeito que tinham envolvido Jesus. Mesmo porque Mateus escreve: “E eis que houve um grande terremoto; porque um anjo do Senhor desceu do céu, chegou-se, removeu a pedra e assentou-se sobre ela. O seu aspecto era como um relâmpago, e a sua veste, alva como a neve. E os guardas tremeram espavoridos e ficaram como se estivessem mortos... E, indo elas [as mulheres que viram Jesus ressuscitado], eis que alguns da guarda foram à cidade e contaram aos principais sacerdotes tudo o que sucedera. Reunindo-se eles em conselho com os anciãos, deram grande soma de dinheiro aos soldados, recomendando-lhes que dissessem: Vieram de noite os discípulos dele e o roubaram enquanto dormíamos. Caso isto chegue ao conhecimento do governador, nós o persuadiremos e vos poremos em segurança. Eles, recebendo o dinheiro, fizeram como estavam instruídos. Esta versão divulgou-se entre os judeus até ao dia de hoje”. Se os guardas que presenciaram isso foram instruídos a mentir é porque houve um evento espiritual muito impactante para eles e que muitos incrédulos quiseram abafar.


Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti

Este texto se encontra no livro:


livro evangélico: Cruz, sacrifício único ou diário?

Cruz, sacrifício único ou diário?

Cross, single or daily sacrifice?

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