Estudo sobre a visão de Ezequiel capítulo 1 e a descrição dos anjos: querubins com faces de animais e as quatro rodas. Eles mostram atributos de  Deus, Seu caráter, e revelam as características que Ele sempre esperou do Seu povo.


A visão de Ezequiel cap. 1




Os animais vistos por Ezequiel são semelhantes aos animais descritos no livro de Apocalipse 4, quando João descreve os seres viventes, i.e., os querubins que estão à volta do trono. Eles mostram atributos de Deus, Seu caráter, e revelam as características que Ele sempre esperou do Seu povo. Em outro texto, eu escrevo sobre os quatro acampamentos de Israel no deserto na época de Moisés, e que guarda uma semelhança com esses quatro seres angelicais.

Ezequiel 1
1 Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que, estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus.
2 No quinto dia do referido mês, no quinto ano de cativeiro do rei Joaquim,
3 veio expressamente a palavra do Senhor a Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote, na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar, e ali esteve sobre ele a mão do Senhor.
4 Olhei, eis que um vento tempestuoso vinha do Norte, e uma grande nuvem com fogo a revolver-se, e resplendor ao redor dela, e no meio disto, uma coisa como metal brilhante, que saía do meio do fogo.
5 Do meio dessa nuvem saía a semelhança de quatro seres viventes [Ez 10: 12; 15; 20 deixa claro que eram querubins], cuja aparência era esta: tinham a semelhança de homem.
6 Cada um tinha quatro rostos, como também quatro asas [Ez 10: 14; 21. cf. Ap 4: 8 – seis asas].
7 As suas pernas eram direitas [NVI: retas], a planta de cujos pés era como a de um bezerro e luzia como o brilho de bronze polido.
8 Debaixo das asas tinham mãos de homem, aos quatro lados; assim todos os quatro tinham rostos e asas.
9 Estas se uniam uma à outra; não se viravam quando iam; cada qual andava para a frente.
10 A forma de seus rostos era como a de homem; à direita, os quatro tinham rosto de leão; à esquerda, rosto de boi; e também rosto de águia, todos os quatro [cf. Ap 4: 6-7].
11 Assim eram os seus rostos. Suas asas se abriam em cima; cada ser tinha duas asas, unidas cada uma à do outro; outras duas cobriam o corpo deles.


Os querubins com 4 asas as quatro faces dos querubins


12 Cada qual andava para a sua frente; para onde o espírito havia de ir, iam; não se viravam quando iam.
13 O aspecto dos seres viventes era como carvão em brasa, à semelhança de tochas; o fogo corria resplendente por entre os seres, e dele saíam relâmpagos,
14 os seres viventes ziguezagueavam à semelhança de relâmpagos.
15 Vi os seres viventes; e eis que havia uma roda na terra, ao lado de cada um deles.
16 O aspecto das rodas e a sua estrutura eram brilhantes como o berilo; tinham as quatro a mesma aparência, cujo aspecto e estrutura eram como se estivera uma roda dentro da outra.
17 Andando elas, podiam ir em quatro direções; e não se viravam quando iam.
18 Os seus aros eram altos, e metiam medo; e, nas quatro rodas, as mesmas eram cheias de olhos ao redor [cf. Ap 4: 6; 8].


As rodas com olhos


19 Andando os seres viventes, andavam as rodas ao lado deles; elevando-se eles, também elas se elevavam.
20 Para onde o espírito queria ir, iam, pois o espírito os impelia; e as rodas se elevavam juntamente com eles, porque nelas havia o espírito dos seres viventes.
21 Andando eles, andavam elas e, parando eles, paravam elas, e, elevando-se eles da terra, elevavam-se também as rodas juntamente com eles; porque o espírito dos seres viventes estava nas rodas.
22 Sobre a cabeça dos seres viventes havia algo semelhante ao firmamento, como cristal brilhante que metia medo, estendido por sobre a sua cabeça.
23 Por debaixo do firmamento, estavam estendidas as suas asas, a de um em direção à de outro; cada um tinha outras duas asas com que cobria o corpo de um e de outro lado.
24 Andando eles, ouvi o tatalar das suas asas, como o rugido de muitas águas, como a voz do Onipotente; ouvi o estrondo tumultuoso, como o tropel de um exército. Parando eles, abaixavam as asas.
25 Veio uma voz de cima do firmamento que estava sobre a sua cabeça. Parando eles, abaixavam as asas.


o trono acima do firmamento

Fonte de todas as imagens animadas acima: vídeo do YouTube – Ezekiel Chapter 1; post. jwsharetube


Um ponto curioso é a forma com que o mundo espiritual se apresenta para cada um dos profetas, o que nos faz pensar que a personalidade deles, assim como seu conteúdo mental e emocional também eram fatores capazes de interferir na aparência das visões. Foi o que Paulo escreveu em 1 Co 14: 32: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas”. Por exemplo, Jesus pode ser visto por alguém como um cordeiro, um leão, um homem manso e dócil ou um guerreiro. Isso não só depende do que o Senhor quer dar como revelação naquele momento, como também uma forma de respeitar o jeito de ser de cada um, seu crescimento espiritual e sua capacidade emocional de suportar certas imagens ou determinada unção.

João (Ap 4: 6-7) descreve os mesmos seres viventes que Ezequiel (Ez 1: 1-14; Ez 10: 14-15). Os seres viventes têm a aparência de leão, novilho, homem e águia e são símbolos dos querubins que cercam o trono de Deus. A diferença é que João diz que cada um deles tem rostos diferentes, ao passo que Ezequiel vê as quatro faces nos quatro querubins (Ez 1: 6,10; Ez 10: 14).

João e Isaías dizem que esses seres têm seis asas e Isaías os chama de ‘serafins’ (Is 6: 2: “Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava”). Ezequiel disse que tinham quatro asas (Ez 1: 6; Ez 10: 14; 21).

Segundo o profeta Isaías na sua visão do trono de Deus descrita em Is 6: 1-13, os serafins estavam diante do trono e tinham uma forma humana (“rosto”, “pés”), ainda que se dispusessem de seis asas, e repetiam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; a terra inteira está cheia de sua glória”. Era tão forte esta ação de adoração que abalava o lugar.

Serafins e Querubins

Por isso, os serafins e os querubins constituem uma ordem de seres angélicos (ver o texto sobre anjos) responsáveis por certas funções de vigilância e adoração. Os serafins eram agentes de purificação pelo fogo, segundo os estudiosos hebraicos que procuram ligar o nome serafim à raiz: sãraph = queimar, consumir com fogo. Eles lideram a adoração no céu e protegem a santidade de Deus.

Semelhantemente, os querubins, em hebraico (kerühbïm, plural de ‘querube’ = celestial) também são seres celestiais e no livro de Gênesis está escrito que tinham a incumbência de guardar o caminho para a árvore da vida [símbolo de Jesus] no jardim do Éden (Gn 3: 24), assim como foram colocados sobre a arca da Aliança (Êx 25: 18-22 e Hb 9: 5) para proteger os objetos sagrados guardados nela (1 Sm 4: 4; 2 Sm 6: 2; 2 Rs 19: 15; Sl 80: 1; Sl 99: 1). No Sl 80: 1, a bíblia diz: “Dá ouvidos, ó pastor de Israel, tu que conduzes a José como um rebanho; tu que estás entronizado acima dos querubins, mostra o teu esplendor” e no Sl 99: 1 está escrito: “Reina o Senhor; tremam os povos. Ele está entronizado acima dos querubins; abale-se a terra”.

Em outras palavras, os querubins são guardiões do Trono de Deus. Isso também indica que os querubins pertencem a uma classe de anjos com grande força de conhecimento, sabedoria e iluminação divina e que refletem a beleza do Criador. Por isso, se diz que são conhecedores dos mistérios divinos (“cheios de olhos”). Talvez, por esse motivo, Ezequiel os descreve no meio de tanto fogo (= poder e santidade de Deus). O fato de olharem nas quatro direções ao mesmo tempo significa onisciência, percepção completa.

Para entender a visão de Ezequiel precisamos, antes de tudo, entender o contexto do autor. Ezequiel era um sacerdote que viveu no tempo em que os judeus foram exilados na Babilônia. Sendo sacerdote, a sua preocupação principal era com o templo, com a presença de Deus e com a observância da Lei. Portanto, o conteúdo da sua mente estava voltado para as imagens espirituais relacionadas com as coisas sagradas guardadas no templo. Também estava dando uma palavra de incentivo [ao mesmo tempo de advertência de Deus] para o povo da Antiga Aliança, agora em cativeiro.

A visão de Ezequiel

O profeta começa falando sobre um vento tempestuoso que vinha do Norte e uma grande nuvem com fogo, do meio da qual saía a semelhança de quatro seres viventes. O vento tempestuoso, a nuvem e o fogo eram figuras conhecidas dos israelitas desde o tempo de Moisés, pois geralmente YHWH se manifestava na forma de eventos da natureza, como foi com a nuvem que os cobria de dia e a coluna de fogo que os protegia de noite. O importante é que o vento descrito simbolizava a presença do Espírito Santo que emanava do trono, do Norte (pois o Norte na bíblia se refere ao trono de Deus, o que norteia nossa vida), com poder e santidade (fogo). No Pentecostes, Sua presença foi descrita como um vento impetuoso (At 2: 2).


Faces dos Querubins


Ele também diz que os anjos tinham aparência humana, pois menciona mãos e rosto de homem, entretanto, seus rostos não eram apenas de homem; se pareciam, de um lado com um leão, de outro com águia e de outro com boi. O resplendor deles foi descrito como o brilho de bronze polido ou como carvão em brasa, à semelhança de tochas; o fogo corria resplendente por entre eles e do meio do fogo saíam relâmpagos, algo muito parecido com a manifestação divina no monte Sinai. Isso significava um Deus de poder, um Deus temível e temido, que tinha a capacidade de purificar as almas dos homens como o fogo depura o ouro e que era digno de respeito. Antes de estudarmos um pouco o significado dos animais, há ainda uma informação importante sobre os querubins. O nome querubim (celestial, kerühbïm, plural de ‘querube’, em hebraico, como vimos anteriormente) indica uma classe de anjos com grande força de conhecimento, sabedoria e iluminação divina e que refletem a beleza do Criador. Por isso, se diz que são conhecedores dos mistérios divinos (“cheios de olhos”, como diz o profeta). O fato de olharem nas quatro direções ao mesmo tempo significa onisciência, percepção completa.

A palavra querubim, em assírio, é kirubu, expressão que designa um touro alado (símbolo de Adade ou Hadade, ‘o Trovejador’, divindade assíria equivalente a Baal, o deus das tempestades) ou um leão alado (símbolo da deusa Istar) que não só serviam como adorno nas paredes e portas dos templos, mas eram achados aos pares (leões e touros alados), servindo também como guardas postos na entrada dos templos mesopotâmicos. Por estar em cativeiro na Babilônia, terra Mesopotâmica, Ezequiel também pode ter visto os querubins dessa forma devido à influência da cultura local. Por outro lado, como sacerdote, a instrução levítica no seu interior lhe permitia um conhecimento maior e mais voltado à raiz do seu próprio povo do que à idolatria.

O palácio de Senaqueribe, por exemplo, tinha de cada lado das portas principais figuras gigantescas de pedras com cerca de 30 toneladas de peso e em pares, os leões alados ou touros alados com cabeça de homem, que não só serviam como adorno nas paredes, mas também como sentinelas. Em alguns escritos, esse leão representa uma deidade feminina (“lamassu”). Um nome menos usado é “shedu” (Sumério: dalad; Acadiano, šēdu) que se refere à contraparte masculina de um lamassu. Grandes figuras de lamassu de até quase seis metros de altura podem ser vistas na escultura assíria. Artisticamente, lamassus foram retratados como híbridos, com corpos de touros alados ou leões e cabeças de machos humanos, como símbolo do poder. Eram inicialmente espíritos protetores domésticos do povo comum da Assíria e Babilônia, tornando-se mais tarde como protetores dos reis; por isso foram colocados como sentinelas nas entradas dos palácios.

As seguintes imagens de touros e leões alados foram encontrados na entrada dos palácios dos reis da Assíria.


lamassu, um touro alado

Um touro alado assírio – wikipedia.org

Um lamassu (touro alado) em Ninrode

Imagem acima: Um touro alado no palácio noroeste de Assurbanipal em Ninrode (Ninrude; antiga Calá), um dos principais dos quatro montículos arqueológicos da cidade de Nínive – wikipedia.org.

Olhando todos esses animais, nós podemos entender porque Ezequiel (cativo na Babilônia) descreveu os querubins com características semelhantes a touro e leão (cf. Ez 41: 19). Quando olhamos o templo de Salomão, notamos querubins com formas semelhantes à de um leão (pelo menos o corpo). Coincidência ou não, podemos pelo menos imaginar que desde os tempos antigos, esses animais tinham um simbolismo importante para a humanidade.


Parede do Lugar Santo Santo dos Santos do Templo

Parede do Lugar Santo e o Santo dos Santos do Templo de Salomão

A aparência dos querubins e seu simbolismo

Um dos lados do rosto dos querubins era a face de homem, simbolizando a inteligência, bem como o livre-arbítrio dado por Deus ao ser humano; de outro lado do rosto aparecia a imagem de leão, simbolizando realeza, autoridade, força, liderança, poder espiritual. O boi simbolizava a força física, o suprimento, a provisão, a riqueza e a abundância, além de ser um animal usado na adoração a Deus.

É interessante lembrar que quando Moisés se demorou no Sinai, o povo pediu a Arão que lhe construísse a imagem de um deus que eles pudessem ver; ele, então, fez um bezerro de ouro (Êx 32: 1-10 e 18-24). Aqui, vamos fazer uma parada para um comentário. O povo que saiu do Egito não conhecia ainda o “Deus do Sinai”, nem tinha Suas leis; estavam mais familiarizados com os deuses egípcios. Por isso, podemos pensar que o bezerro de ouro feito por Arão estava relacionado com a idolatria egípcia. Cativos há quatrocentos e trinta anos, mal se lembravam da herança deixada pelos patriarcas, a não ser da terra prometida por Deus a eles. Assim, há duas possibilidades quanto ao bezerro de ouro: a) O deus Ápis (Hapi-anku), personificação da terra e reencarnação de Osíris. Era o touro de Mênfis e estava associado com o deus Ptah, o deus construtor da referida cidade; simbolizava a força do rei (Faraó). b) a deusa Hator, deusa das mulheres, dos céus, do amor, da alegria, do vinho, da dança, da fertilidade e da necrópolis de Tebas, pois acolhia os mortos e velava os túmulos. Como uma deusa do céu, ela era a mãe ou consorte do deus do céu Hórus e do deus do sol Rá, ambos ligados à realeza, e portanto, ela era a mãe simbólica de seus representantes terrestres, os faraós. Era representada como uma vaca com o disco solar entre os chifres ou como uma mulher com cabeça ou com orelhas de vaca, ou ainda como uma mulher de pele amarela e que carrega na cabeça um par de chifres de vaca, entre os quais se encontra um disco vermelho rodeado por uma cobra. Ela segura um bastão bifurcado em uma mão e um sinal de Ankh na outra. O Ankh (pronuncia-se ‘Anak’ em egípcio, e ‘anrr’ nas línguas semitas como hebraico e árabe), representando a vértebra torácica de um touro, vista em corte transversal, era para os egípcios o símbolo da vida, também como símbolo da vida eterna, a vida após a morte. Apesar de sua origem egípcia, ao longo da história o Ankh foi adotado por diversas culturas. Por exemplo, foi mantido mesmo após a cristianização do povo egípcio a partir do século III, quando os cristãos convertidos passaram a ser chamados cópticos. Copta significa ‘egípcio’ e se refere aos egípcios cujos ancestrais abraçaram o cristianismo já no século I. Por sua semelhança com a cruz dos cristãos, o Ankh manteve-se como um dos principais símbolos cópticos, sendo chamado de Cruz Cóptica ou ‘crux ansata’, onde a parte superior foi adaptada para uma forma circular ao invés da forma oval original do antigo Egito (um sincretismo pagão com a cruz de Cristo).

Pela reação dos israelitas descrita na bíblia, é mais provável que estivessem adorando Hator ou os dois (ver Êx 32: 4, onde está escrito: “teus deuses”: “Este [Arão], recebendo-as das suas mãos, trabalhou o ouro com buril e fez dele um bezerro fundido. Então, disseram: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito”). “Teus deuses”, no hebraico, “elohim” (Strong #430), plural de Eloá, pode significar “deuses” (no sentido comum) ou ser um nome usado para o Deus Supremo.


Deusa egípcia Hator Deusa egípcia Hator

Deusa egípcia Hator

Ápis, o touro de Mênfis O bezerro de ouro dos Israelitas


O último animal visto por Ezequiel era a águia, simbolizando a majestade, a capacidade de ver longe, de ter movimentos livres para dominar o espaço, de alcançar grandes alturas, portanto, de chegar às alturas espirituais (espiritualidade). Outra característica interessante na águia é que ela experimenta um processo de renovação física após atingir quarenta anos de idade, muito semelhante ao trabalhar de renovação do Espírito Santo em nós. É a ave que possui maior longevidade, chegando a viver setenta anos. Entretanto, por volta dos quarenta anos, se quiser continuar a viver, precisa passar por um processo de renovação. Ela começa a sentir que suas penas estão ficando velhas, que seu bico já não está tão afiado e forte quanto antes, que suas garras já estão enfraquecendo e, então, decide tomar uma atitude drástica. Esse processo tem início com a interrupção das suas atividades rotineiras como seus vôos, sua caça e suas aventuras. Então, voa alto até os penhascos. Ali, sozinha e isolada, ela começa, por si mesma, o trabalho de renovação, traumático, e que exige muita coragem, mas que, por fim, vai lhe dar de volta a força e a grandeza que pareciam estar perdidas. A águia começa a arrancar com o bico as suas penas, uma por uma, até que esteja inteiramente depenada e desfigurada. Depois disso, percebendo seu bico fraco, impotente e cheio de crostas, ela o esfrega fortemente na rocha deixando-o “em carne viva”. Por último, são as garras; ela faz o mesmo processo que fez com o bico, batendo suas unhas com violência sobre a rocha várias vezes até que aquela camada envelhecida e calosa seja arrancada e fique, igualmente, em “carne viva”. Todavia, após esse processo de autoflagelação começam a nascer penas novas, bonitas e brilhantes; cresce um bico novo; as garras começam a brotar com todo vigor e ela fica completamente renovada e revitalizada. Ela ganha uma nova aparência e desce das alturas para dar continuidade à sua existência.

Ezequiel também diz que as pernas dos querubins eram direitas (NVI: retas), a planta de cujos pés era como a de um bezerro. Isso significa o andar correto (direito), de autoridade, poder e privilégio que lhes foi dado por estarem em obediência e serviço ao Criador e terem por objetivo proteger a santidade e a glória de Deus através da sua adoração constante a Ele. A planta dos pés era como de um bezerro, simbolizando, não apenas a adoração, pois o bezerro era um animal “puro” (limpo) por ser usado nos sacrifícios ao Senhor, e por ter as unhas fendidas e os cascos divididos em dois (Lv 11: 2-3). Isso significava não entrar em contato direto com as coisas terrenas.

Carros e rodas sobre as quais os anjos se moviam

Depois que Ezequiel descreveu os rostos dos querubins, ele descreveu carros e rodas, sobre as quais os anjos se moviam. Além de tudo o que já dissemos sobre eles, os querubins constituíam um tipo de carruagem divina, como é descrito no livro de Salmos e 2 Samuel:
• Sl 18: 10: “E montou num querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento”.
• 2 Sm 22: 11: “E subiu sobre um querubim, e voou; e foi visto sobre as asas do vento”.

Na visão de Ezequiel esses animais eram atrelados a um carro e se movimentavam com grande rapidez (“os seres viventes ziguezagueavam à semelhança de relâmpagos”). Considerando esses elementos, pode-se concluir que se trata da visão do carro de Deus, símbolo da Sua autoridade espiritual agindo em nosso favor, como o que Eliseu viu no momento que Elias foi arrebatado (“O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando as suas vestes, rasgou-as em duas partes” – 2 Rs 2: 12) ou o que o moço de Eliseu viu quando este orou pedindo ao Senhor que abrisse seus olhos para ver a proteção dos anjos de Deus ao seu redor durante a guerra contra os siros (2 Rs 6: 17: “Orou Eliseu e disse: Senhor, peço-te que lhe abras os olhos para que veja. O Senhor abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu”).

A expressão “carros de fogo” simboliza, com certeza, a autoridade e o poder de Deus, Sua presença majestosa se manifestando em toda a glória a favor dos Seus filhos. A mensagem que a visão de Ezequiel quis transmitir com os carros (carruagens) foi destinada, sobretudo, aos judeus levados ao exílio, ou seja, a presença de Deus os acompanhava ali. Os judeus acreditavam que o Senhor só estava presente no templo, através da arca da Aliança, porém o profeta lhes trouxe a revelação de que Deus se movimentava espiritualmente, aonde Seu povo fosse, como foi no passado, no deserto. Ezequiel também diz: “ouvi o estrondo tumultuoso, como o tropel de um exército. Parando eles, abaixavam as asas”, o que vem corroborar a idéia que o Senhor se faz acompanhar de um exército de seres angélicos, como Seus guerreiros e mensageiros.

A visão da glória divina

26 Por cima do firmamento que estava sobre a sua cabeça, havia algo semelhante a um trono, como uma safira; sobre esta espécie de trono, estava sentada uma figura semelhante a um homem.
27 Vi-a como um metal brilhante, como fogo, ao redor dela, desde os lombos e daí para cima; e desde os seus lombos e daí para baixo, vi-a como fogo e um resplendor ao redor dela.
28 Como o aspecto do arco que aparece na nuvem em dia de chuva, assim era o resplendor em redor. Esta era a aparência da glória do Senhor; vendo isto, caí com o rosto em terra e ouvi a voz de quem falava.

Ezequiel também teve a visão da glória de Deus e do Seu trono como uma safira, cuja cor é azul (Ez 1: 26-28). Outro comentário interessante sobre a cor azul como correspondente ao trono de Deus está em Êx 24: 9-10 quando Moisés, Arão, seus filhos e os anciãos subiram ao Sinai por ordem de Deus para confirmar Sua aliança com Seu povo. O texto diz: “E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia uma como pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade”. Safira é azul.

Algumas pedras têm variadas traduções por falta de maior conhecimento do assunto na Antiguidade e porque os nomes mudaram no decorrer das eras da humanidade; assim, muitos nomes usados em hebraico e grego podem trazer certa confusão. Na verdade, a safira descrita na bíblia refere-se ao lápis-lazúli, também de cor azul [Fonte: J. D. Douglas  – O Novo Dicionário da Bíblia – edições vida nova, 2ª edição 1995].

Conclusão

Em relação à visão que Ezequiel teve dos querubins podemos dizer:
1) Querubins, em hebraico kerühbïm, plural de ‘querube’ = celestial, são seres celestiais e no livro de Gênesis está escrito que tinham a incumbência de guardar o caminho para a árvore da vida no jardim do Éden, assim como foram colocados sobre a arca da Aliança para proteger os objetos sagrados guardados nela, o que se resume numa função de vigilância e adoração. Também indica uma classe de anjos com grande força de conhecimento, sabedoria e iluminação divina e que refletem a beleza do Criador. Por isso, se diz que são conhecedores dos mistérios divinos (“cheios de olhos”).
2) Os querubins tinham quatro faces: de homem, de leão, de boi e de águia, refletindo os atributos e o caráter de Deus.
3) Carros e rodas – carro de Deus – Sua autoridade espiritual e poder agindo em nosso favor – a presença de Deus nos acompanha aonde formos.
4) Deus mostrou Seu poder e majestade ao profeta para que ele pudesse entender melhor o seu chamado como atalaia no meio do seu povo, um povo descrente que tinha sido levado ao cativeiro por causa da sua rebeldia e idolatria e que precisava conhecer o seu Deus e voltar a adorá-lo em santidade.

Este texto se encontra no livro:


livro evangélico: Curiosidades e revelações

Curiosidades e revelações (PDF)

Curiosities and Revelations (PDF)


Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti

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