O Salmo 23 nos ensina sobre o trabalho de um pastor de ovelhas. Como é o aprisco de ovelhas? Receba a explicação de cada versículo deste maravilhoso salmo de Davi. Ele sabia quem era o seu Pastor.


Salmo 23 – estudo bíblico


“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre” (Sl 23: 1-6 – ARA).

Autoria do salmo e informações

O Salmo 23 é da autoria de Davi. No Antigo Testamento, a palavra ‘pastor’ (Em hebraico: רועה, transliterado: rō·‘eh ou rō·‘î ou ra‘ah – Strong #7462. Em grego: ποιμήν, transliterado: poimēn ou poimén – Strong #g4166; pronuncia-se ‘pimín’) era usada figurativamente para indicar um cargo de liderança, como o rei, o sacerdote ou o profeta (Zc 11: 8). Tanto na época de Davi como nos tempos de Jesus, o cargo de pastor de ovelhas era uma das posições mais humildes e inferiorizadas naquela sociedade. Segundo alguns teólogos, o salmo inteiro reflete a comparação entre o relacionamento de um pastor com suas ovelhas e de Deus para com Seus filhos. Outros fazem uma separação entre os versos, dizendo que nos versículos 1-4 o salmista se refere a Deus como o Pastor pessoal, e nos versículos 5-6 Deus é comparado com um bom anfitrião que recebe um hóspede com honras. De qualquer forma, Deus sempre é bondoso para conosco. Aqui, mais uma vez, Deus mostra que o maior é como quem serve (Lc 22: 26-27; Mc 10: 42-45; Mt 20: 25-28), pois Ele trabalha por nós para que sejamos cuidados de todas as formas e nos ensina também a servir as pessoas que Ele coloca debaixo da nossa responsabilidade. O importante é entender este salmo da perspectiva de um simples pastor de ovelhas, como Davi, ou seja, como a vida se parecia naquela época; assim, poderemos entender melhor o que esse salmo significa para nós hoje.

Embora atualmente em algumas regiões da Terra existam condições diferentes para o pastoreio, com climas um pouco diferentes da Judéia e com diferente condição financeira e tecnológica, o ‘espírito do pastor’ continua o mesmo. Seu cuidado e sua contínua vigilância pelas ovelhas permanecem intactos, levando-os a se preocupar com as necessidades básicas dos animais, afastando delas o temor do perigo, provendo descanso e refrigério para elas depois de uma longa caminhada ou atravessando desfiladeiros estreitos, não importa se por desertos escaldantes ou por lugares frios, antes que a neve comece a cair plena no inverno. A palavra hebraica usada para ovelha(s), na bíblia, é çõ’n ou tson (צאן – Strong #6629, Gn 29: 2). Em grego é probaton (πρόβατον – Strong #g4263), uma palavra usada freqüentemente para o ‘gado miúdo’ (Jo 10: 4).


Pastor de ovelhas

Como é o trabalho de um pastor de ovelhas

Ele tira as ovelhas do aprisco às 4 horas da manhã, leva-as por terrenos muitas vezes difíceis até chegar às pastagens, e enquanto pastam elas estão sempre em movimento, nunca param. Por volta das 10 horas, com o sol já quente, as ovelhas começam a sentir calor e a ficar cansadas e sedentas e o pastor sabe que não podem beber água com o estômago cheio de relva não digerida. Por isso, ele as leva para um canto fresco e sossegado daquelas pastagens verdejantes, e faz com que se deitem ali. Em repouso, sem pastar, a ovelha começa a ruminar. Depois que digeriram o alimento, aí ele as conduz às correntes de água para beberem. As ovelhas têm medo das fortes correntezas porque sabem que a lã não lhes permite nadar, pelo contrário, absorve toda a água e o peso as faria afundar. O pastor não zomba dos temores das ovelhas nem tenta forçá-las a fazerem o que não querem; ele as guia por montanhas e vales à procura das águas tranqüilas para ali saciarem a sede. Além de não saberem nadar, as ovelhas não possuem boa visão. Enxergam no máximo oito a dez metros à sua frente. Por isso o pastor as guia. Às vezes, as trilhas são estreitas e terminam à beira de um precipício, no qual a ovelha desavisada poderia cair e morrer. Às vezes a trilha leva a becos sem saída e, outras vezes, a pastos verdejantes e águas tranqüilas. O pastor vai à frente e não empurra as ovelhas (“depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz” – Jo 10: 4). ‘Vale da sombra da morte’ significa ‘vales onde há constante risco de vida’ e pode se referir aos desfiladeiros profundos ou vales que existem ao longo das montanhas da Judéia, no lado ocidental do Mar Morto. Ou, então, um vale ou ravina em que animais predadores se escondem nas montanhas é um lugar perigoso para as ovelhas. Alguns estudiosos dizem que na Palestina, entre Jerusalém e o Mar Morto existe uma trilha estreita e perigosa que corta as montanhas e por isso é chamada de ‘vale da sombra da morte’. As ovelhas passam em fila pelo caminho perigoso com o pastor cantando ou tocando um instrumento.


Ovelhas seguindo pela trilha


Dessa forma, o pastor leva junto com ele um bastão duro e pesado (‘vara’ ou ‘bordão’), de cerca de sessenta centímetros a um metro de comprimento, cuja função é proteger o rebanho dos ataques dos animais ferozes. Leva também um cajado de quase três metros de comprimento, cuja ponta é recurvada formando um gancho. Sua função é encaixá-lo no peito da ovelha que cai em algum barranco para içá-la para cima, de volta ao caminho certo. Quando as ovelhas pastam, às vezes cortam o focinho em alguma pedra aguda escondida na relva ou se arranham com espinhos. Portanto, no fim do dia, quando chegam ao aprisco, o pastor se põe à entrada e examina cada ovelha e, se houver algum ferimento, aplica óleo balsâmico que ajuda a cicatrizá-lo e evita a infecção. Também as conta novamente. Além disso, carrega um jarro de barro que mantém a água sempre fresca e à noite, depois de vistoriar as ovelhas, ele lhes dá de beber.

O interessante é que a ovelha conhece seu pastor e obedece apenas à sua voz. Ela se torna tão dependente dele que se ele se ausentar por algum motivo, a ovelha sente sua falta, fica deprimida e até se recusa a comer. Por isso, os pastores geralmente não vão sozinhos. Eles levam mais um ou dois pastores junto com eles.

Jesus, o Bom Pastor


Jesus, o Bom Pastor


Jesus se identificou várias vezes com a figura do Bom Pastor (Jo 10: 1-5; 7; 9; Jo 10: 11-16; Jo 10: 27-29; Hb 13: 20; 1 Pe 2: 25; 1 Pe 5: 4), que dá sua vida pelas ovelhas e a quem as ovelhas obedecem porque ouvem Sua voz:

• “Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; mas de modo algum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (Jo 10: 4-5).
• “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor” (Jo 10: 11-16).
• “As minhas ovelhas ouvem minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10: 27-29).

É interessante a profecia de Ezequiel (Ez 34: 11-31) sobre Jesus como o Bom Pastor que virá para apascentar Suas ovelhas. Os versículos 12-16 dizem:
“Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram espalhadas no dia de nuvens e de escuridão. Tirá-las-ei dos povos, e as congregarei dos diversos países, e as introduzirei na sua terra; apascentá-las-ei nos montes de Israel, junto às correntes e em todos os lugares habitados da terra. Apascentá-las-ei de bons pastos, e nos altos montes de Israel será a sua pastagem; deitar-se-ão ali em boa pastagem e terão pastos bons nos montes de Israel. Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o Senhor Deus. A perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma fortalecerei; mas a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com justiça”.

O aprisco

Jesus falava numa linguagem que era compreensível às pessoas daquela época. Ele disse: “Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem sua voz, ele chama pelo nome suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; mas de modo algum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos... Jesus, pois, lhes afirmou de novo: Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas. Eu sou a porta das ovelhas... Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem” (Jo 10: 1-5; 7; 9).

Quando Ele fala sobre a porta do aprisco, na verdade estava falando de uma entrada por onde as ovelhas passavam. O próprio pastor servia de porta. Ali ele se colocava e ali ele contava e recontava as ovelhas antes de sair e antes de dormir. As ovelhas sentem muito a falta do pastor e se ele se ausenta, ainda que por pouco tempo, elas começam a balir, o que atrai a presença de predadores, como lobos, principalmente na época de seca, pois sem chuva não há colheita, e sem colheita vem a fome. Sem outro tipo de alimento, os lobos vêm para perto dos apriscos para devorar as ovelhas que estão desprotegidas. Por isso, no tempo do NT, o pastor colocava galhos com espinhos sobre a cerca do aprisco para impedir animais devoradores saltassem sobre ela e pegassem alguma ovelha; ou, então, colocava galhos secos de árvores do lado de fora da cerca e ateava fogo neles para que a fumaça espantassem animais predadores. No caso de necessidade ou quando essas duas estratégias não funcionassem, o próprio pastor se deitava à entrada do aprisco para defender suas ovelhas e impedir que alguém passasse; ele servia de porta. Foi por isso que Jesus disse que Ele era a porta das ovelhas e se alguém entrasse por Ele, entraria e sairia e acharia pastagem.


Aprisco de ovelhas


Algumas vezes, o aprisco era construído com pedras e ficavam na frente da casa do pastor, como a figura que se vê acima, mas para os pastores de vida nômade, que movem os rebanhos por longos trajetos e não trazem suas ovelhas de volta para o aprisco num mesmo dia, os apriscos podem ser em rochas, que são frias e refrescantes durante o verão e quentes e aconchegantes durante o inverno.

Na Palestina, na época do nascimento de Jesus, os rebanhos normalmente saíam para os campos em Março e se recolhiam nos princípios de Novembro. O mês judaico de Kislev (Quisleu), correspondente aproximadamente à segunda metade de Novembro e primeira metade de Dezembro era um mês frio e chuvoso. O mês seguinte é Tebete, em que ocorrem as temperaturas mais baixas do ano, com nevadas ocasionais nos planaltos, impossibilitando alguém de ficar de pé do lado de fora de uma casa devido ao frio. Por isso, o que está escrito em Lc 2: 8 (“Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite”) nos faz pensar que os pastores que visitaram Jesus viviam ao ar livre e mantinham vigias sobre os rebanhos à noite, perto do local onde Jesus nasceu. Como estes fatos seriam impossíveis para um período de inverno rigoroso, é provável que Jesus não pudesse ter nascido no dia em que o Natal é celebrado, no inverno (por volta de Dezembro), e sim na primavera ou no verão (de Março-Abril a Agosto-Setembro).

Explicação do salmo versículo por versículo

Versículo 1: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”. Em hebraico, a frase ‘nada me faltará’ pode ser mais bem traduzida como: ‘de nada terei falta’, ou seja, ‘não sentirei falta de qualquer coisa indispensável; o que eu tiver será suficiente’.

Davi inicia o salmo com uma certeza muito grande de ser uma ovelha nas mãos de Deus; por isso, ele afirma: O Senhor é o meu pastor. Suas ovelhas confiavam nele integralmente, como ele confiava em Deus como seu Pastor. Davi corajosamente protegeu as suas ovelhas contra um leão e um urso (1 Sm 17: 34-36).

E se lermos os próximos versículos, nós podemos perceber que a frase ‘nada me faltará’ ou ‘de nada terei falta’ não se trata apenas de alimento, mas de repouso (‘Ele me faz repousar em pastos verdejantes’), de águas calmas perto de onde possamos nos deitar e ‘digerir’ e entender as experiências (‘Leva-me para junto das águas de descanso’), de refrigério (‘refrigera-me a alma’), de orientação para caminhar pelo caminho correto (‘Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome’), de proteção e segurança quando tudo parece incerto (‘Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo’), de correção e consolo (‘o teu bordão e o teu cajado me consolam’), de honra, bons tratos e cura de feridas (‘Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda’) e, finalmente, de bênçãos e proximidade com o Pastor (‘Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre’).

Se pensarmos nas condições áridas da terra da Judéia, onde Davi provavelmente pastoreava suas ovelhas (bem diferente das regiões úmidas e frutíferas da Galiléia), nós podemos entender que o alimento não era tão abundante assim. O alimento da ovelha era provido dia a dia, para onde o pastor a levasse. Assim como a ovelha instintivamente confia no pastor quanto às necessidades do dia seguinte, nós também caminhamos com o Senhor, seguros de que a cada dia Ele vai providenciar o que precisamos.

A geografia de Israel é muito diversificada, com condições desérticas no sul e montanhas cobertas de neve no norte. A região norte desde a fronteira do Líbano até mais ou menos a região de Gaza (planície central costeira) é uma região com numerosos vales pequenos e férteis, incluindo as montanhas e colinas da Alta e da Baixa Galiléia e as colinas samaritanas. Um pouco para dentro, nas Colinas da Judéia, ao sul de Jerusalém, e até o limite inferior da faixa de Gaza, onde se encontra a cidade bíblica de Berseba (conhecida como a ‘capital do Neguebe’), a vegetação é tipo savana, ou seja, vegetação baixa, como gramíneas e arbustos pequenos, e com certo número de pequenas árvores espalhadas. Dali para baixo, começa a região desértica do Neguebe (ou Negev), com pouca precipitação de chuva anual e caracterizada pelo solo impermeável, permitindo a penetração mínima da água. A leste do planalto central fica o vale da fenda do Jordão, basicamente uma região desértica com alguns oásis, com exceção da região norte de Israel, ao sul do Mar da Galiléia, onde alguma vegetação pode ser vista.


Geografia de Israel

Abaixo: algumas imagens do deserto da Judéia

deserto da Judéia

Deserto da Judéia

Deserto da Judéia

Deserto da Judéia
Provavelmente uma região de oásis ao fundo

Deserto da Judéia

En Gedi
Parque Nacional de En-Gedi (fundado em 1972), uma das mais importantes reservas naturais de Israel.


Versículo 2: “Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso [NVI: a águas tranqüilas]”. No hebraico original ‘pastos verdejantes’ pode ser traduzido como ‘pastos de capim macio’, não mais se referindo a alimentos, mas locais de descanso refrescante. As ovelhas nunca se deitam, até que estejam satisfeitas. Como expliquei anteriormente em relação ao comportamento das ovelhas, por volta das 10 horas, com o sol já quente, elas começam a sentir calor e a ficar cansadas e sedentas e o pastor sabe que não podem beber água com o estômago cheio de relva não digerida. Por isso, ele as leva para um canto fresco e sossegado daquelas pastagens verdejantes, e faz com que se deitem ali. Em repouso, sem pastar, a ovelha começa a ruminar.


Uma ovelha ruminando


A palavra hebraica para deserto (ou ermo – Nm 1: 1) é midhbãr, indicando pastagens cheias de grama (Sl 65: 12 – ‘pastagens do deserto’; Jl 2: 22 – ‘pastos dos desertos’) que podiam sustentar gado ovino (Êx 3: 1), mas que algumas vezes eram queimadas pelas secas de verão (Jr 23: 10; Jl 1: 19-20), e também denotava lugares desolados de rocha e areia (Dt 32: 10; Jó 38: 26). Em grego, no NT, a palavra usada é: érēmos – Strong #g2048 (Mt 14: 15: ‘deserto’), mas aquela terra não deixava de ter ‘muita relva’ (como está escrito em Jo 6: 10). Em outras palavras: apesar do tipo de vegetação para nós ocidentais não falar a favor de um campo totalmente verde, havia um tipo de grama mais macia, onde as ovelhas podiam se deitar para repousar e ruminar o alimento, e até onde o povo podia se sentar para ouvir as palavras de Jesus. Alguns pesquisadores dizem que havia grandes pastagens relvosas nas cercanias de muitas cidades no Israel antigo. A importância de gramíneas em uma aldeia de pastores é de suma importância. A falta dela traz seca, sofrimento e fome.

Depois que digeriram o alimento, aí ele as conduz às correntes de água para beberem. As ovelhas têm medo das fortes correntezas porque sabem que a lã não lhes permite nadar, pelo contrário, absorve toda a água e o peso as faria afundar. O pastor não zomba dos temores das ovelhas nem tenta forçá-las a fazerem o que não querem; ele as guia por montanhas e vales à procura das águas tranqüilas para ali saciarem a sede. Além de não saberem nadar, as ovelhas não possuem boa visão. Enxergam no máximo oito a dez metros à sua frente. Por isso o pastor as guia. É importante notar o uso do verbo ‘levar’ ou ‘guiar’, nos dando a entender realmente que o pastor não empurra ou impele suas ovelhas, ele sempre as guia. Ele vai a alguma distância à frente delas e elas o seguem e, como dissemos anteriormente, ele vai cantando ou tocando um instrumento, como a flauta, por exemplo. Davi usava uma harpa.
Continua a idéia de provisão para as necessidades do rebanho. Enquanto o pastor principal ia à frente do rebanho, o pastor auxiliar caminhava ao lado ou atrás, vigiando os animais e direcionando-os pela trilha.

• “Leva-me para junto das águas de descanso [NVI: a águas tranqüilas]” significa, literalmente, ‘águas de quietude’, com fluxo manso e silencioso, convidando ao repouso. Num lugar como este a ovelha pode beber sem pressa ou sem se sentir assustada. Em Israel, o pastor tinha de guiar seu rebanho a uma lagoa ou a um córrego de água. Mas, muitas vezes era difícil achar água na estação seca.
Conosco acontece a mesma coisa, quando precisamos de um tempo em silêncio, bebendo calmamente da palavra de Deus, até podermos ‘digerir’ e entender as experiências que vivemos, até captarmos o aprendizado correto com elas ou aceitá-las para o nosso crescimento; e a água viva da palavra de Deus nos ajuda a entendermos as situações e a termos a revelação do que aquilo significa. Assim, podemos tomar as decisões corretas.

Em Ez 34: 14-15 nós podemos ver a promessa do cuidado do Bom Pastor em relação ao Seu povo: “Apascentá-las-ei de bons pastos, e nos altos montes de Israel será a sua pastagem; deitar-se-ão ali em boa pastagem e terão pastos bons nos montes de Israel. Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o Senhor Deus”.

Versículo 3: “refrigera-me a alma [NVI: restaura-me o vigor]. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”. Além das águas tranqüilas trazerem um refrigério para as ovelhas cansadas da caminhada debaixo do sol quente, elas também renovam suas forças para continuarem seu caminho. A palavra de Deus (Suas águas vivas) nos traz refrigério nos momentos de cansaço, quando não temos mais vontade de prosseguir com algo. Sua palavra renova em nós a esperança e a fé na Sua promessa, nos trazem a alegria da Sua companhia e a certeza de que não estamos sós. Ele está nos vendo, atentando para o nosso trabalho e para as nossas atitudes, para a nossa fidelidade. Embora sejamos impotentes para mudar certas situações, Sua palavra nos dá a certeza de que Ele pode; para Ele nada é impossível.

Refrigério (renovo, avivamento da alma, refazer-se) é um assunto bastante presente no NT:
• Rm 12: 2: “E não conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.
• 2 Co 4: 16: “Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia”.
• 2 Co 5: 17: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”.
• Ef 4: 23: “e vos renoveis no espírito do vosso entendimento”.
• Cl 3: 10: “e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”.
• Ap 21: 5: “E aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras”. Com Jesus, tudo se renova.

• “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”. Mais uma vez, o salmista nos mostra que é o pastor que guia a ovelha por onde ele quer. E aqui ‘veredas de justiça’ significa ‘veredas da retidão’, ou seja, Jesus nos guia pelos caminhos retos da Sua palavra (2 Tm 3: 16-17; Rm 15: 4), mesmo que aos olhos humanos pareçam caminhos tortuosos, perigosos ou estreitos, como vimos na figura da trilha no início do texto, por onde as ovelhas passam. Isso nos lembra as palavras do profeta Isaías: “Quando te desviares para a direita e quando te desviares para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: Este é o caminho, andai por ele” (Is 30: 21). Um pouco antes, o profeta fala do povo rebelde que não quer mais ouvir a exortação profética, como ovelhas desgarradas, e dizem a esses profetas: “desviai-vos do caminho, apartai-vos da vereda; não nos faleis mais do Santo de Israel” (Is 30: 11).

O salmista prossegue dizendo que o Pastor o guia pelas veredas da justiça por amor ao Seu nome, pois Seu nome é santo (Sl 111: 9; Mt 6: 9), Deus é santo e zela pela Sua santidade. Ele também deseja que sejamos santos (Lv 11: 44-45; Lv 19: 2; Lv 20: 26; 1 Pe 1: 15-16; 1 Pe 2: 9). No livro de Ezequiel, o Senhor fala várias vezes que as medidas drásticas que tomou contra aquele povo rebelde que saiu do Egito foi por amor ao Seu nome, para que não fosse profanado entre os ímpios:

• Ez 20: 9; 14; 22; 44: “O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações no meio das quais eles estavam, diante das quais eu me dei a conhecer a eles, para os tirar da terra do Egito... O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações perante as quais os fiz sair... Mas detive a mão e o fiz por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações perante as quais os fiz sair... Sabereis que eu sou o Senhor, quando eu proceder para convosco por amor do meu nome, não segundo os vossos maus caminhos, nem segundo os vossos feitos corruptos, ó casa de Israel, diz o Senhor Deus”.

• Ez 36: 20-22: “Em chegando às nações para onde foram, profanaram o meu santo nome, pois deles se dizia: São estes o povo do Senhor, porém tiveram de sair da terra dele. Mas tive compaixão do meu santo nome, que a casa de Israel profanou entre as nações para onde foi. Dize, portanto, à casa de Israel: Assim diz o Senhor Deus: Não é por amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes”.

• Ez 39: 7: “Farei conhecido o meu santo nome no meio do meu povo de Israel e nunca mais deixarei profanar o meu santo nome; e as nações saberão que eu sou o Senhor, o Santo em Israel”.

Isaías fala mais ou menos a mesma coisa:

• Is 48: 9-11: “Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não venha a exterminar [Ele falava com Seu povo]. Eis que te acrisolei, mas disso não resultou prata [NVI: ‘eu refinei você, embora não como prata’]; provei-te na fornalha da aflição. Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? [NVI: ‘Como posso permitir que eu mesmo seja difamado’] A minha glória, não a dou a outrem (cf. Is 42: 8)”.

• Is 52: 5: “Agora, que farei eu aqui, diz o Senhor, visto ter sido o meu povo levado sem preço? Os seus tiranos sobre ele dão uivos, diz o Senhor; e o meu nome é blasfemado incessantemente todo o dia”.

O cativeiro do povo de Deus por causa da sua idolatria e, conseqüentemente, a vitória dos seus inimigos sobre eles profanava o nome do Senhor entre os ímpios. Portanto, nós temos a responsabilidade de glorificar Seu nome através das nossas atitudes. A nossa falta de reverência e temor profana o Seu nome; o pecado e o mau comportamento de um filho de Deus sujam Seu nome diante dos incrédulos. Quando Ele vingava Seu povo dos inimigos, Ele estava protegendo Sua santidade (Ez 38: 23). Ele nos livra do mal não apenas porque nos ama e quer o nosso bem, mas para que Seu nome seja glorificado por aqueles que ainda não o conhecem. Quando Jesus ressuscitou Lázaro ele disse aos Seus discípulos: “Ao receber a notícia, disse Jesus: Esta enfermidade não é para a morte, e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado” (Jo 11: 4). E quando curou o cego de nascença, Ele falou que a cura seria para que a glória de Deus se manifestasse naquele cego: “Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9: 3), o que vem a complementar o que Jesus mesmo disse sobre sermos a luz do mundo: “Vós sois luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5: 14-16).

Fazendo minhas pesquisas e assistindo a alguns vídeos na Internet ouvi um documentário onde foi dito que a ovelha rebelde tinha a perninha quebrada pelo pastor para não fugir para longe e se perder do grupo; então, ele enfaixava sua perna e cuidava dela e ela passava a ser carregada em todo o percurso. Isso nos faz entender o que Ezequiel escreveu como uma profecia em relação ao Bom Pastor: “A perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma fortalecerei; mas a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com justiça. Quanto a vós outras, ó ovelhas minhas, assim diz o Senhor Deus: Eis que julgarei entre ovelhas e ovelhas, entre carneiros e bodes... Por isso, assim lhes diz o Senhor Deus: Eis que eu mesmo julgarei entre ovelhas gordas e ovelhas magras. Visto que, com o lado e com o ombro, dais empurrões e, com os chifres, impelis as fracas até as espalhardes fora, eu livrarei as minhas ovelhas, para que já não sirvam de rapina, e julgarei entre ovelhas e ovelhas” (Ez 34: 16-17; 20-22). Quebrar a perna da ovelha pode parecer cruel à primeira vista, mas se examinarmos a situação sob o prisma do pastor, ele muitas vezes prefere fazer isso por amá-la a ter que entregá-la ao matadouro. Em outras palavras, é o que Deus se sente ‘forçado’ a fazer com certas ‘ovelhas’ rebeldes que Ele ama. Só assim a pessoa vai entender o que é ser protegida por alguém que a ama.

Versículo 4: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam [NVI: a tua vara e o teu cajado me protegem]”.

Voltando à explicação inicial sobre as ovelhas, às vezes as trilhas são estreitas e terminam à beira de um precipício, no qual a ovelha desavisada poderia cair e morrer. Às vezes a trilha leva a becos sem saída e, outras vezes, a pastos verdejantes e águas tranqüilas. O pastor vai à frente e não empurra as ovelhas (Jo 10: 4). “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte” talvez nos faça lembrar os desfiladeiros profundos ou vales que existem ao longo das montanhas da Judéia, no lado ocidental do Mar Morto. Ou, então, um vale ou ravina em que animais predadores se escondem nas montanhas é um lugar perigoso para as ovelhas. Alguns estudiosos dizem que na Palestina, entre Jerusalém e o Mar Morto existe uma trilha estreita e perigosa que corta as montanhas e por isso é chamada de “vale da sombra da morte”.

A expressão “da sombra da morte”, em hebraico, צלמות (çalmüth ou tsalmaveth – Strong #6757 – Jó 3: 5; Jó 16: 16; Jó 24: 17; Sl 23: 4) significa ‘trevas profundas’ ou ‘a mais escura sombra’, ‘escuridão’, ‘a sepultura’ (que é uma figura de calamidade); figuradamente: aflição, extremo perigo, caracterizando o mundo dos mortos. A palavra tsalmaveth provém de duas palavras: ‘tsel’ e ‘maveth’. ‘Tsel’ (לצ – Strong #6738 significa ‘sombra’). Maveth (מוות – Strong #4194 – significa ‘morte, um estado de morte ou um lugar de morte’. Assim, o versículo pode ser traduzido como: “‘Quando estiver profundamente escuro’ ou ‘quando eu passar por um vale de densa escuridão’, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo”.

Davi conhecia os perigos daquelas terras, com inimigos escondidos nas rochas e prontos a atacar quem quer que fosse; ainda mais um pastor sozinho com um rebanho de ovelhas! A bíblia não menciona que ele pastoreava junto com alguém. Ou, então, eram lobos ferozes, leões e ursos que poderiam matar suas ovelhas (1 Sm 17: 34-36). Também havia os perigos da própria natureza, com rochas frouxas que poderiam se desprender de repente sobre eles ou sob seus pés ao passar pelas trilhas, dependendo da região onde ele estava com os animais. A escuridão de que a bíblia fala, aqui no caso de Davi, pode se referir também à escuridão causada pela ausência de sol enquanto passavam por algum desfiladeiro estreito. Mas as ovelhas não deveriam temer porque seu pastor estava ali com elas. Como dissemos, a ovelha é um animal medroso e que enxerga apenas poucos metros à sua frente. E o pastor que vai à frente dela é sua segurança.

Para nós que vivemos nos dias de hoje e conhecemos a salvação trazida por Jesus, a palavra ‘morte’ pode não ter um significado tão ameaçador como era para as pessoas no AT, pois temos a certeza da vida eterna e sabemos que jamais sentiremos a separação definitiva de Deus (o verdadeiro significado de ‘morte’). Para eles, que viam a morte e o inferno com outros olhos e viviam a dispensação material com mais intensidade, onde tudo era físico, não espiritual, a morte era algo bem palpável realmente. Os inimigos eram físicos. Mas quão importante era a esperança da luz de Deus, livrando Seu povo da morte pelo seu pecado! Por isso, eles se apegavam tanto à promessa do Messias (Is 9: 2; Mt 4: 16; Lc 1: 78b-79). Mateus se referiu à profecia de Isaías e aplicou-a a Jesus Cristo, dizendo: “O povo que jazia em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região e sombra da morte resplandeceu-lhes a luz” (Mt 4: 16 – cegos pela escuridão de seus pecados).

Entretanto, o que podemos dizer em relação a nós hoje? Também vivemos momentos de provas onde não sabemos como prosseguir, pois nos falta revelação e sentimos angústia, opressão espiritual, nos sentimos perdidos em meio a situações inesperadas; parece que o Senhor não responde e que não tem saída nem um fim para os nossos problemas. O que fazer? Então, nos lembramos de que não estamos sós nessa jornada. Deus está conosco e é o nosso Pastor. Ele enxerga muito mais longe do que nós. Para Ele, as trevas e a luz são a mesma coisa (Sl 139: 12), e nos deu Sua promessa: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos [NVI: até o fim dos tempos]” (Mt 28: 20). Portanto, a fé que Davi tinha no seu Deus o fez escrever que apesar de tudo isso, ele não tinha medo de nada porque o Senhor estava com ele. Na Sua Presença há força, conforto, descanso, esperança, luz e vida.

• “O teu bordão e o teu cajado me consolam” – para livrar suas ovelhas dos perigos da jornada, o pastor leva junto com ele um bastão duro e pesado (‘vara’ ou ‘bordão’), de cerca de sessenta centímetros a um metro de comprimento, cuja função é proteger o rebanho dos ataques dos animais ferozes. Leva também um cajado de quase três metros, cuja ponta é recurvada formando um gancho. Sua função é encaixá-lo no peito da ovelha que cai em algum barranco para içá-la para cima, de volta ao caminho certo.


O pastor carrega um bordão


A palavra hebraica para ‘bordão’ é shebet ou shévet (שבט, literalmente, ‘tribo’, Strong #7626) e provém de uma raiz primitiva que significa: um ramo, um descendente, um clã ou tribo; (concretamente): dardo, haste, cetro, vara (מוט – para punir, para a escrita, para lutar, governar ou ajudar na caminhada), símbolo de correção.

A palavra hebraica para ‘cajado’ é mishenah ou mishteneth (משנה, literalmente, ‘o dobro, repetição’ – Strong #4938), feminino de mishen; (figurativamente): apoio; sustento; (concretamente): uma bengala. Tanto a vara como o cajado são símbolos do ofício de um pastor. Por eles, ele guia suas ovelhas (o bastão é usado para cutucar as ovelhas na direção correta para elas não saírem do grupo, ou seja, ele tem uma função disciplinar), são usados para defesa (para afugentar predadores, como lobos e cobras, ou seja, uma função protetora), e para representar ou indicar autoridade (para puxar uma ovelha que se desgarrasse para algum lugar em que pudesse cair e se ferir, ou seja, uma função salvadora). O cajado também é para o pastor um objeto no qual ele mesmo se apóia, servindo para o seu conforto.

Parece que os pastores atuais em muitos países do oriente (Oriente Médio, Índia, Cáucaso) e até na Europa não mais fazem uso do cajado (o bastão com a ponta recurvada); apenas a vara. Talvez, por causa de técnicas mais modernas de resgate das ovelhas ou porque não vão sozinhos, mas com um ou dois companheiros, que ajudam a cuidar do rebanho.

Versículo 5: “Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda” (ARA), ou: “Preparas um banquete para mim à vista dos meus inimigos. Tu me honras, ungindo a minha cabeça com óleo e fazendo transbordar o meu cálice” (NVI).
Ainda seguindo o raciocínio sobre o comportamento das ovelhas, quando pastam, às vezes elas cortam o focinho em alguma pedra aguda escondida na relva ou se arranham com espinhos. Portanto, no fim do dia, quando chegam ao aprisco, o pastor se põe à entrada e examina cada ovelha e, se houver algum ferimento, aplica óleo balsâmico que ajuda a cicatrizá-lo e evita a infecção. Os medicamentos eram misturados ao azeite para se colocar nas feridas (por exemplo, na parábola do bom Samaritano). Além disso, ele carrega um jarro de barro que mantém a água sempre fresca e à noite, depois de vistoriar as ovelhas, ele lhes dá de beber. Do ponto de vista da ovelha, isso pode significar que ao chegar ao aprisco ela se sente cuidada pelo pastor, pois ele lhe dá sua última refeição antes de dormir e passa óleo balsâmico sobre as suas arranhaduras. Ali, ela se sente segura dos predadores.

Mas, neste trecho há outro fator importante: o salmista muda um pouco a sua visão de Deus como o Pastor que cuida dele como uma ovelha do Seu rebanho e passa a falar Dele como um bom anfitrião que recebe seu hóspede com alegria. No Oriente Médio, o costume de uma pessoa de receber um hóspede em sua tenda era algo feito com muito prazer e cortesia. Davi aqui se compara a um visitante na Casa de Deus, desfrutando de Sua calorosa hospitalidade. Da mesma que o pastor derramava óleo balsâmico sobre as feridas das suas ovelhas, o anfitrião derramava azeite perfumado sobre a cabeça do visitante para trazer conforto e alívio do calor e da poeira (Ec 9: 8). O óleo traz alívio à pele ressecada. O convidado também recebia um beijo no rosto e tinha seus pés lavados (Gn 18: 4-8; Lc 7: 44-46). Lavar os pés do convidado era para tirar a poeira das estradas, sinal de asseio, conforto e hospitalidade, geralmente feito pelos escravos mais desprezíveis. Mesmo tendo poucas posses ou as regalias que atualmente se tem no Ocidente, o anfitrião oriental dividia o que tinha de melhor com o seu convidado como uma demonstração de honra para com ele. Por isso, Davi expressa sua confiança em Deus dizendo que Ele é esse bom anfitrião que prepara uma mesa abundante para ele como uma forma de honrá-lo diante dos seus inimigos, que não podem participar do banquete.

A cabeça ungida com óleo é uma figura bíblica comum para abundância de alegria (Is 61: 3; Sl 45: 7). Igualmente, o Senhor nos alivia e nos consola com a unção do Seu Espírito e com a alegria de saber que, como filhos de Deus, nós temos sempre uma mesa de fartura e honra diante daqueles que não o receberam ainda e, por isso, nos invejam e nos perseguem. Diante da mesa do Senhor nós somos refeitos, consolados, saciados e renovados na nossa alegria; na alegria de pertencer a Ele e ter Seu pronto socorro quando necessário.

• “O meu cálice transborda” (Outra tradução possível: “Meu copo está bem cheio”) simboliza a provisão abundante oferecida pelo generoso anfitrião. Isso também nos dá a sensação de que a bebida não vai faltar nessa refeição, nem a conversa amigável, nem risos, nem palavras de incentivo para quem chegou cansado de uma longa viagem. É assim que o Senhor faz conosco através da Sua palavra de vida, que não apenas sacia nossa sede, mas nos faz transbordar de coragem, força e esperança para continuar nossa missão na terra. Ali em Sua tenda, no Seu Tabernáculo, nós temos entrada livre e seremos sempre bem recebidos quando precisarmos desse refrigério (Hb 4: 16) e força espiritual. Cálice representa abundância ou o recipiente do nosso espírito, saciado pelas bênçãos espirituais de Deus.

Versículo 6: “Bondade e misericórdia [NVI: fidelidade] me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre”.
A bondade é um dos frutos do Espírito Santo (Gl 5: 22), e é através da Sua bondade que os homens têm conhecimento do seu pecado e chegam ao arrependimento (Rm 2: 4: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?”). Bondade quer dizer: benevolência, indulgência, clemência, brandura, saber fazer o outro feliz, doçura.

A bíblia também fala também que Deus é misericordioso e benigno até com os ingratos e maus (Lc 6: 35b-36: “Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai”). Ele tem misericórdia de quem quer e endurece a quem lhe apraz (Rm 9: 18); e ela pode ser usufruída por aqueles que andam em Seus caminhos (Sl 103: 17-18).

Misericórdia significa: indulgência, graça, compaixão suscitada pela miséria alheia. A palavra hebraica é Hesedh ou Chesedh (חסד – Strong #2617), que significa misericórdia, benignidade, bondade, graça, benevolência, amabilidade, beleza, favor, boa ação, ter pena (Gn 21: 23; Gn 24: 12; 14; Gn 24: 49; Êx 20: 6; Êx 34: 6-7; Nm 14: 18; Dt 5: 10; Dt 7: 9; 12; Js 2: 12; 14; Jz 8: 25; Rt 1: 8; 1 Sm 15: 6 etc.). A misericórdia também é um dom espiritual da parte de Deus derramado sobre uma pessoa: “o que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria” (Rm 12: 8). Jesus disse no sermão da montanha: “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”. Isso implica exercer primeiro a misericórdia para recebê-la dos outros.

Davi tinha certeza de que a bondade e a misericórdia fariam parte da sua vida. Ele recebeu estes dons de Deus e, sendo fiel a Ele, também soube exercitá-los. Tanto é que poupou por duas vezes a vida de Saul (1 Sm 24: 11-12; 1 Sm 26: 23-25), foi bondoso com Mefibosete, filho de Jônatas (2 Sm 9: 7) e recebeu o perdão de Deus no caso de adultério com Bate-Seba e da morte de Urias (2 Sm 11: 4; 15; 24).
“Bondade e misericórdia me seguirão” nos lembra o versículo do evangelho de Marcos 16 onde Jesus disse: “Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre os enfermos, eles ficarão curados” (Mc 16: 17-18). Isso significa que todo aquele que anda na companhia do Espírito de Deus carrega junto consigo as bênçãos Dele, não só para si mesmo, mas para os que precisam delas.

“Habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre” [NVI: e voltarei à casa do Senhor enquanto eu viver] – Davi tinha em mente o Tabernáculo do Senhor que ele conhecia, pois o Templo ainda não havia sido construído, e isso significava o seu desejo de estar na companhia de Deus por todos os dias da sua vida e também na eternidade. Mesmo não conhecendo a salvação por meio de Jesus Cristo, Davi sabia que havia uma diferença entre o destino dos justos e o destino dos ímpios. Uma vez que Davi tinha a certeza de servir a um Deus que era um perfeito anfitrião (v. 5), “habitar na Casa do Senhor” significava ter uma boa relação com Deus como Seu convidado de honra (Sl 15: 1-5). E ele desejava viver eternamente ao Seu lado, num lar eterno (Jo 14: 1-3).

Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti


Pastor

Este texto se encontra no anexo:

Salmo 23

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