Capítulo 19: Isaías profetiza a destruição e a salvação do Egito (‘a cana esmagada’ ou ‘bordão de cana esmagada’ – Is 36: 6). Conheça suas antigas cidades, seus deuses, seus reis e dinastias, o rio Nilo e seus antigos canais de desembocadura no Delta Egípcio; os apóstolos João Marcos, Mateus e Bartolomeu pregaram no Egito e na Etiópia.


Isaías capítulo 19




Capítulo 19

Profecia contra o Egito
Provavelmente, essa profecia foi feita na época de Acaz (732-716 AC) ou Ezequias (716-687 AC). Assim, pode-se pensar que os personagens opressores do Egito usados como uma punição de Deus seriam os assírios [Sargom II (722-705 AC), Assaradão (Esar-Hadom, 681-669 AC), ou ainda, Assurbanipal (669-627 AC)], quando se deu a queda de Tebas.
Quanto aos governantes babilônicos, provavelmente, são mencionados na profecia de Jr 46: 2-26 (fala sobre Faraó Neco II; em egípcio, Ni’-k’w; em grego, Nechao; nome escolhido pelo faraó para reinar: Wehemib-re – 610-595 AC); Jr 44: 30 (sobre Faraó Hofra; em grego: Ουαφρη[ς], ou seja, Apries (em grego: Ἁπρίης; nome escolhido pelo faraó para reinar: Haaib-re ou Uahibré – 589-570 AC – 26ª dinastia) e Ez 29–32, que fala do ataque da Babilônia contra o Egito.
Neco II (610-595 AC) reinou durante o período dos reis Babilônicos Nabopolassar (632-605 AC) e Nabucodonosor (605-562 AC). Hofra (Apries – 589-570 AC) reinou durante o período de Nabucodonosor (605-562 AC).

A confusão do Egito, seus ídolos os enganam, senhores cruéis sobre eles, as águas falham, seus príncipes e conselheiros feitos tolos, seu terror perante o Senhor – v. 1-17.
• Is 19: 1: “Sentença contra o Egito. Eis que o Senhor, cavalgando uma nuvem ligeira (NVI: nuvem veloz), vem ao Egito; os ídolos do Egito estremecerão diante dele, e o coração dos egípcios se derreterá dentro deles”.
O julgamento deve vir rapidamente, inesperadamente e inevitavelmente (‘nuvem ligeira’ ou ‘nuvem veloz’), o que nos faz pensar que em poucos anos, a partir do momento em que foi feita a profecia; provavelmente no reinado de Acaz, pois o Egito caiu sob domínio assírio em 716 AC, no reinado de Sargom II (722-705 AC).

• Is 19: 2: “Porque farei com que egípcios se levantem contra egípcios, e cada um pelejará contra o seu irmão e cada um contra seu próximo; cidade contra cidade, reino contra reino”.
Isto quer dizer que o Senhor fará com que uns lutem contra os outros.

Dinastias Egípcias

Desde os tempos mais remotos, como os de Abraão, por exemplo, o Egito foi um reino governado por um só governante. Ao longo dos séculos, o país sofreu divisões, mas voltou a se unificar durante as 18ª – 20ª dinastias.
• Na 21ª dinastia (1070-945 AC), no Terceiro Período Intermediário (1070-664 AC, compreendendo as dinastias: 21ª, 22ª, 23ª, 24ª e 25ª), o Egito passou por uma fragmentação do poder político, com a emergência de vários centros de poder controlados em alguns casos por povos de origem estrangeira (Líbios e Núbios). Isso aconteceu no tempo de Davi e Salomão. Em especial, na 21ª dinastia o Egito foi separado entre dois governantes: um para o Inferior (Baixo Egito) e um para o Egito Superior (Alto Egito), este último sendo governado por um principado sacerdotal com a capital em Tebas. O Baixo Egito, próximo ao delta do Nilo teve sua capital em Tânis (ou Zoã neste texto de Isaías). Apesar das grandes mudanças políticas, o Terceiro Período Intermediário foi, de maneira geral, caracterizado por um clima de paz.

• Na 22ª dinastia (945-712 AC), principalmente após a morte do rei de Tânis em 945 AC, um chefe tribal da Líbia (Shoshenk I ou Sheshonk I ou Sesonki I, o Sisaque da bíblia – 943-922 AC) se assentou no trono do Egito e tomou toda a nação debaixo do seu poder, pondo um fim à independência parcial do principado sacerdotal de Tebas no Egito Superior. A capital da 22ª dinastia foi em Bubástis, no delta do Nilo. Isso aconteceu no reino de Salomão. No 5º ano de Roboão, Sisaque invadiu a Palestina (925 AC – 1 Rs 14: 25-26; 2 Cr 12: 2-12). Os sucessores de Sisaque I foram: Osorkon I (o filho de Sisaque. Zerá, o etíope, foi enviado por ele contra Judá, mas acabou sendo derrotado por Asa); Takelot I; Osorkon II (filho de Takelot I); Takelot II (filho de Osorkon II); Pami (ou Pimai, ‘O gato’; foi contemporâneo do rei Osorkon III de Leontópolis, uma vez que o Egito já não era um território unificado sob um único poder), foi sucedido por Sesonki IV e por Sesonki V (filho de Pimai). Osorkon IV foi o último rei desta dinastia e era filho de Sesonki V, reinando em Tânis, no delta do Nilo. Esses reis eram Líbios. A Líbia ficava a Oeste do Egito. Outro governante tinha a capital em Tebas, e neste período já havia guerras civis nesta cidade.

• A 23ª dinastia (828-725 AC) contém várias linhagens de faraós reinando em Tebas, Hermópolis, Leontópolis, paralelamente à principal dinastia originária (22ª) em Tânis (Zoã).

• Na 24ª dinastia o faraó foi Tefnacte ou Tefnakht (732-725 AC), e que reinou em Saís (Sa el-Hagar, no oeste do Delta). Sua autoridade também foi reconhecida em Memphis. Assim, o Egito também caiu em poder dos assírios em 716 AC, o ano que Ezequias subiu ao poder em Judá.

• De 744–656 AC, na Núbia (Cuxe ou Etiópia) também se ergueu um reino governado por príncipes que eram inteiramente egípcios quanto à sua cultura e reivindicavam protetorado sobre o Egito Superior, sendo adoradores de Amum ou Amun’, de Tebas (25ª dinastia, também conhecida como dinastia Núbia ou Império Cuxita, cuja capital era Napata). Seus reis foram: Pi-anki (ou Piye ou Pié; nome de reinado: Usimare, 744-714 AC); Shebitku (traduzido em Português como Xabataca, nome de reinado: Djedkare ou Djedkau-re, 714-705 AC); Xabaca (Nefer-ka-re, 705-690 AC); Tiraca (Taharqa ou Taharka, ou Khurenefertem, 690-664 AC) e Tantamani ou Tanutamon (Bakare, 664–656 AC). A cidade-estado de Napata era a capital espiritual e foi a partir daí que Piye (escrito Piankhi ou Piankhy em obras mais antigas) invadiu e assumiu o controle do Egito (wikipedia.org).

Esar-Hadom (681-669 AC) dividiu o Egito em cerca de vinte províncias dominadas por vinte príncipes, o chefe dos quais era o meio-líbio Neco de Saís (Neco I). Alguns príncipes do Baixo Egito tiraram proveito dessa situação para se revoltar, mas outros apoiaram Tiraca (2 Rs 19: 9; Is 37: 9; Taharqa ou Taharka, ou Khurenefertem – 690-664 AC, da 25ª dinastia), que conseguiu reconquistar o Egito por um breve tempo em 669 AC. Esar-Hadom enviou uma força contra ele, mas morreu no caminho. Tiraca foi derrotado em Mênfis por Assurbanipal em 664 AC.

Em outras palavras: enquanto Sargom II e Senaqueribe frustraram as expectativas dos faraós Núbios em relação ao domínio governamental no Egito, seus sucessores Esar-Hadom e Assurbanipal invadiram a Núbia e expulsaram completamente os núbios, pondo um fim ao poder cuxita, declarando a conquista da nação pelo império Neo-Assírio.

Na seqüência, veio a 26ª dinastia, iniciando-se com Neco I (672-664 AC), sendo sucedido por Psamético I (664-610 AC), que se rebelou contra Assurbanipal (669-627 AC) e reergueu o Egito. Seu filho Neco II (ou Wehemib-re) começou a reinar (610-595 AC), mas foi derrotado por Nabucodonosor, e seu filho Psamético II (Neferib-re, 595-589 AC) reinou em seu lugar. Os demais faraós da 26ª dinastia egípcia foram: Apries (Haaib-re, 589-570 AC, chamado na bíblia pelo nome de Hofra – Jr 44: 30), Amósis II (ou Amásis ou Khnemib-re, 570-526 AC) e Psamético III (Ankhkaen-re, 526-525 AC), no tempo de Cambises II (530-522 AC), filho de Ciro II.

Na bíblia, o Egito é chamado de ‘a cana esmagada’ ou ‘bordão de cana esmagada’ (Is 36: 6), justamente por causa de todas essas brigas internas dentro de seu território. Por isso, a profecia de Isaías 19: 2 fala: “Porque farei com que egípcios se levantem contra egípcios, e cada um pelejará contra o seu irmão e cada um contra seu próximo; cidade contra cidade, reino contra reino”.
O Senhor estava no controle de tudo e permitindo essas guerras civis para enfraquecimento do império egípcio e, portanto, sua punição. Dessa forma, foi no reinado de Assurbanipal (669-627 AC) que Tebas (‘Nô’) foi saqueada em 661 AC, após três anos de cerco. Isso completa a destruição iniciada por Esar-Hadom.

• Is 19: 3-4: “O espírito dos egípcios se esvaecerá dentro deles, e anularei o seu conselho (NVI: ‘farei que os seus planos resultem em nada’); eles consultarão os seus ídolos, e encantadores, e necromantes, e feiticeiros. Entregarei os egípcios nas mãos de um senhor duro, e um rei feroz os dominará, diz o Senhor, o Senhor dos Exércitos”.
Isso significa: O Senhor frustrará seus planos e eles perderão a coragem (‘o espírito dos egípcios se esvaecerá’), pois sua política e sabedoria, baseada em magia e idolatria virão abaixo pelas mãos do Senhor. Senhores cruéis seriam colocados sobre eles para os governarem, ou seja, Ele também usará um estrangeiro para executar a Sua vontade, ‘um governante tirano, um rei feroz’. Pode ter sido Assurbanipal (669-627 AC) que saqueou Tebas (‘Nô’ ou ‘Nô-Amom’ em 661 AC – Na 3: 8). Ou ‘um senhor duro, e um rei feroz’ pode dizer respeito a Cambises II (530-522 AC) que foi bastante cruel na sua invasão e no seu controle sobre o Egito, destronando Psamético III (Ankhkaen-re – 526-525 AC). Com a invasão de Cambises II em Pelúsio o coração dos Egípcios se esmoreceu, e eles perderam a coragem. O rei persa usou uma estratégia inusitada, despojando-os de toda força de guerra: na frente do seu exército ele colocou gatos, cães, ovelhas e o pássaro íbis, considerados deuses pelos egípcios. Para não ferir os animais, os egípcios não atiraram nos persas, facilitando assim a captura da cidade. Outras versões dizem que, durante o cerco, sabendo de como os gatos eram sagrados lá, Cambises ordenou aos seus soldados que os capturassem e os lançassem com as catapultas. Quando os egípcios viram que os animais corriam perigo de vida, seus habitantes se renderam. Capturando Pelúsio, Cambises II invadiu o Egito. Humilhou a filha de Faraó e outras jovens da nobreza, fazendo-as trazer água do rio. Depois matou o jovem filho de Faraó e mais 2.000 jovens de forma vergonhosa por vingança aos homens de Mênfis que haviam assassinado os embaixadores que Cambises havia enviado.

• Is 19: 5-7: “As águas do rio vão secar-se; o leito do rio ficará completamente seco. Os canais terão mau cheiro; os riachos do Egito vão diminuir até secar-se; os juncos e as canas murcharão. A relva que está junto ao Nilo, junto às suas ribanceiras, e tudo o que foi semeado junto dele se secarão, serão levados pelo vento e não subsistirão [NVI: ‘Haverá lugares secos ao longo do Nilo e na própria foz do rio. Tudo o que for semeado ao longo do Nilo se ressecará, será levado pelo vento e desaparecerá’]”.

Isso pode ser entendido metaforicamente como a remoção do seu domínio e do seu comércio. Concretamente falando, Deus poderia se referir aqui a um grande período de seca. O rio Nilo não era apenas muito útil para o seu comércio e navegação, mas a fertilidade do país dependia dele, pois a falta de chuva na terra do Egito era suprida pelo transbordamento deste rio em certos momentos, o que deixava lama sobre a terra e a fazia extremamente fértil. Agora, Deus estava enviando uma grande seca como Seu juízo contra o Egito. Os canais e os riachos, ou seja, os afluentes menores do Nilo também sofreriam com a seca; ou, então, ‘os canais... e os riachos do Egito’ pode se referir à forma pela qual este rio desembocava no mar Mediterrâneo, na região do Delta: na Antiguidade o Nilo desembocava no Mar Mediterrâneo na região do Delta por sete canais: Canópico; Bolbitino (atual Rosetta); Sebenítico; Fatnítico (atual Damietta); Mendesiano; Tanítico; Pelúsico. Hoje, devido ao controle de inundações (com a construção da barragem de Aswan), existem apenas dois ramos principais: o Damietta (correspondendo ao Fatnítico) ao leste, e o Rosetta (correspondente ao Bolbitino) na parte ocidental do Delta. O Delta do Nilo é uma região plana, em forma triangular (por isso, o nome de delta), com cento e sessenta quilômetros de comprimento e duzentos e cinqüenta quilômetros de largura. O Nilo é considerado o mais longo rio do mundo, com 6.853 quilômetros (4.258 milhas) de comprimento.


Sete canais do Nilo na Antiguidade


O grande Nilo, no qual os egípcios se sentiam seguros, não mais poderia defendê-los. Isso também significa que o grande volume de água contido nele era uma forma de defesa, diminuindo o acesso de qualquer inimigo, além do que, seus navios de guerra que navegavam por ele também protegiam o país de invasões. Com juncos e papiro que brotavam às suas margens se fazia muitas coisas, entre elas, papel para a escrita, redes para pesca e os próprios navios que patrulhavam a nação e auxiliavam no comércio (Is 18: 2). A relva e a cultura de grãos e outras sementes que serviam de alimento para eles se secariam, e isso contribuiria para a fome dos habitantes.


Cheia no Nilo
Cheia no Nilo

Papiro à beira do Nilo
Papiros à beira do Nilo

Cereais crescendo à margem do Nilo
Cereais crescendo á margem do Nilo


• Is 19: 8-9: “Os pescadores gemerão, suspirarão todos os que lançam anzol ao rio, e os que estendem rede sobre as águas desfalecerão. Consternar-se-ão os que trabalham em linho fino e os que tecem pano de algodão”.

É óbvio que com a seca não haveria peixes no rio, o que seria um motivo de lamento para os pescadores, pois não só estavam sofrendo com a escassez de vegetais, mas também com a escassez de animais como o peixe. Não apenas teriam escassez do que comer, como também nada para vender, portanto, não teriam como sustentar suas famílias. Podemos nos lembrar das murmurações dos Israelitas contra Moisés por causa da comida do Egito. Em Nm 11: 5 está escrito: “Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos”. E também havia o trigo, mencionado na época de José e que abastecia toda a nação (Gn 41: 5-7; 34-36; 56-57; Gn 42: 2-3; 9 – cf. Gn 37: 5-7). Não apenas no tempo de José o trigo do Egito abastecia as pessoas; também na época da República e do Império Romano o Egito era um grande exportador de trigo para Roma e outras cidades.

‘Consternar-se-ão os que trabalham em linho fino e os que tecem pano de algodão’ significa que as pessoas que trabalhavam no ofício de tecelagem também sofreriam e ficariam desesperados. O linho fino do Egito era uma de suas melhores mercadorias. O tabernáculo de Moisés que foi construído no deserto tinha suas cortinas feitas com o linho do Egito. Muitas nações negociavam essa mercadoria com os egípcios, como Tiro, por exemplo; conseqüentemente, Israel (Ez 27: 7). No versículo 7 nós lemos: ‘tudo o que foi semeado junto dele se secarão’, ou seja, o linho crescia nas margens do rio. Com a seca, a planta também secaria. O linho é fabricado com a fibra cujo nome científico é Linum usitatissimum. Depois de convenientemente tratado, ou seja, depois da separação da fibra da parte lenhosa do caule, o fio produz o linho, e a semente, o óleo de linhaça. Depois que a fibra era tratada, passava a ser tecida pelas mulheres para transformar-se em pano (Pv 31: 24).
O Senhor falou no versículo 1 deste capítulo 19 de Isaías que os ídolos do Egito se estremeceriam com o que iria acontecer. É interessante que dentre os inúmeros deuses egípcios existia uma deusa chamada Neith ou Nit, adorada em Saís, e que era a deusa da guerra e da caça, mas também tinha atributos da tecelagem (num sincretismo com a deusa grega Atena pelas classes governantes, como uma deusa que teceu o mundo e trouxe tudo à existência); por isso, era a patrona dos tecedores. Esse juízo de Deus sobre eles, diminuindo sua provisão alimentar e afetando seu trabalho, com certeza abalaria a fé deles nos seus deuses.

• Is 19: 10: “Os seus grandes serão esmagados, e todos os jornaleiros andarão de alma entristecida (NVI: ‘Os nobres ficarão deprimidos, e todos os assalariados ficarão abatidos’)”.

Como conseqüência de todos os eventos descritos até aqui, os nobres, os ricos, ficariam deprimidos, pois sua fonte de lucro diminuiria, assim como todas as futilidades às quais eles estavam acostumados desapareceriam; o alimento que muitas vezes desperdiçavam seria escasso, teriam que economizar água e até suas vestes por causa da punição divina que se abateria sobre a nação. Eles se sentiriam como os pobres, seriam iguais a todos os súditos e isso os envergonharia diante dos seus próprios olhos e dos olhos dos governantes das outras nações. Mesmo com sua riqueza e poder não poderiam melhorar a situação nem evitar que ela seguisse seu curso. Se os mais privilegiados ficariam abatidos, quanto mais os assalariados, os que trabalhavam para viver!

As cidades do Antigo Egito

• Is 19: 11-14: “Na verdade, são néscios [insensatos] os príncipes de Zoã; os sábios conselheiros de Faraó dão conselhos estúpidos [NVI: ‘dão conselhos tolos’]; como, pois, direis a Faraó: Sou filho de sábios, filho de antigos reis? Onde estão agora os teus sábios? Anunciem-te agora ou informem-te do que o Senhor dos Exércitos determinou contra o Egito. Loucos [NVI: tolos] se tornaram os príncipes de Zoã, enganados estão os príncipes de Mênfis; fazem errar o Egito os que são a pedra de esquina das suas tribos [NVI: ‘os chefes dos seus clãs induziram o Egito ao erro’]. O Senhor derramou no coração deles um espírito estonteante; eles fizeram estontear o Egito em toda a sua obra, como o bêbado quando cambaleia no seu vômito [NVI: ‘O Senhor derramou dentro deles um espírito que os deixou desorientados; eles levam o Egito a cambalear em tudo quanto faz, como cambaleia o bêbado em volta do seu vômito’]”.

Zoã é mesma Tânis dos gregos, a moderna localidade de San El-Hagar, perto da praia sul do lago Manzalé, no Nordeste do delta egípcio, e que por volta de 1100-660 AC foi capital do Egito das dinastias 21ª-23ª. O Lago Manzala ou Manzalé (em árabe: bahīrat manzala) é um lago salgado no nordeste do Delta do Nilo, no Egito, perto de Porto Said, a poucos quilômetros das antigas ruínas de Tânis. É o maior dos lagos do Delta do norte do Egito. Até 2008, seu comprimento era de quarenta e sete quilômetros, e sua largura, de trinta quilômetros.

Em Zoã estavam os maiores conselheiros e príncipes de Faraó (Is 19: 11; 13; Is 30: 4), bem como entre as grandes cidades egípcias nos escritos de Ezequiel (Ez 30: 14: Zoã, Tebas e Patros – como era conhecido o Alto Egito e Cuxe ou Etiópia) quando esses dois profetas falam sobre julgamento. No Sl 78: 12; 43-44, o salmista diz que o Senhor fez proezas no Egito no campo de Zoã, onde seus rios foram convertidos em sangue. Foi daquela região (de Gósen – Gn 47: 1) que os hebreus saíram, onde se encontra a cidade de Ramessés (antes, chamada Aváris) e Pitom (Êx 1: 11), durante a 18ª dinastia egípcia (1550–1292 AC).

O Êxodo se deu em 1446 AC (cf. 1 Rs 6: 1, pois o reinado de Salomão ocorreu no período de 970-931 AC), durante o reinado de Tutmósis III (o 6º faraó da 18ª dinastia). Oficialmente, Tutmósis III (Tutmés III) governou o Egito por quase 54 anos e seu reinado é usualmente datado de 24/04/1479 AC a 11/03/1425 AC, desde a idade de 2 anos e até sua morte, com 56 anos; porém, durante os primeiros 22 anos do seu reinado ele foi co-regente com sua madrasta e tia, Hatshepsut, que foi Faraó do Egito depois da morte de seu marido, Tutmés ou Tutmósis II. Nos dois anos finais do seu reinado, Tutmósis III nomeou Amenófis ou Amenhotep II (1425-1400 AC), seu filho, como co-regente. O fato de estar escrito em Gn 47: 11 que José estabeleceu a seu pai e a seus irmãos na terra de Ramessés, e em Êx 1: 11 estar escrito que os judeus escravos edificaram cidades-celeiros como Pitom e Ramessés, antes mesmo de Pi-Ramessés (ou Per-Ramessés) existir, pois foi reconstruída por Ramessés II  (1279-1212 AC) na 19ª dinastia sobre a antiga cidade de Aváris, pode significar apenas que os posteriores escritores bíblicos e tradutores do texto original de Moisés resolveram usar o nome que era mais conhecido na época para essa região onde se deu o Êxodo.


Delta do Nilo e cidades do Antigo Egito
Delta do Nilo e cidades do Antigo Egito

Ruínas de Tânis
Ruínas de Tânis

Aváris (Egípcio: Hut-waret; Grego: Auaris, αυαρις) era uma cidade fortificada, e foi construída pelos Hicsos para servir-lhes de capital. ‘Hicsos’, em Grego (Ύκσώς ou Ύξώς), deriva do Egípcio, ‘heqa khasewet’ ou ‘hik-khoswet’ ou ainda ‘Heqa-kasut’, e significa ‘soberanos estrangeiros’ ou ‘príncipes estrangeiros’ ou ‘governantes de países estrangeiros’. Em árabe significa (erroneamente): ‘reis pastores’ ou ‘reis cativos’. Eram povos pastores de origem semita que se estabeleceram na região do Delta do Nilo, que começaram a migrar para o Egito desde o reinado de Senusret II (1890 AC), da 12ª dinastia. As pinturas em tumbas do oficial Khnumhotep II dessa dinastia mostram grupos de estrangeiros asiáticos ocidentais visitando o Faraó com presentes, possivelmente cananeus ou nômades, que se estabeleceram no Delta do Nilo. Os hicsos praticavam muitos costumes levantinos ou cananeus, mas também muitos costumes egípcios. Eles se separaram do controle egípcio central por volta de 1720 AC, perto do fim da 13ª dinastia (1803–1649 AC), estabelecendo a 15ª dinastia (1650–1550 AC), em Aváris, e coexistiram com a 16ª e a 17ª dinastias com sede em Tebas. Perduraram até 1540 AC, no reinado de Amósis I. Eles tinham como aliados, arqueiros e cavaleiros mercenários de Canaã, Harã, Cades, Sidom e Tiro, todos originários da Mesopotâmia.

Aváris foi destruída quando os Hicsos foram derrotados por Kamósis (o último faraó da 17ª dinastia e que reinou no período de 1555-1550 AC; seu irmão e sucessor Amósis I expulsou os Hicsos do Egito em 1540 AC e fundou a 18ª dinastia), e reconstruída mais tarde por Ramessés II, que a rebatizou de Pi-Ramessés ou Per-Ramessés (Casa de Ramessés), e fez da cidade a nova capital de seu reinado. Estima-se que a localização da cidade de Aváris ou Pi-Ramessés esteja na atual Tell el-Daba, localizado no delta do Nilo. Uma das razões que explicam esta mudança de capital, além das raízes familiares do pai de Ramessés II, Seti I, é a sua localização estratégica, mais próxima do principal inimigo do Egito na época, o reino Hitita (atual Turquia), facilitando assim a vigilância das fronteiras e uma intervenção militar.

Mênfis (em egípcio, Mn-nrf; em hebraico, Nõph ou Mõph; Os 9: 6; Jr 2: 16; Jr 46: 14; 19; Ez 30: 13; 16) era outra cidade importante do Egito, que havia sido a capital para muitos reis do império antigo (2400 AC), uma das primeiras províncias do Egito. Foi construída por seu primeiro rei, Menes (ele lhe deu o nome de ‘muro branco’). Menes foi o faraó que uniu o Alto e o Baixo Egito sob um só governante. Mênfis ficava à beira do Nilo, a vinte e quatro quilômetros do delta egípcio. Sempre foi uma cidade de muita idolatria. Os deuses principais da cidade eram Ptá, Sekmet, Sokar e Nefertem. O nome de seu grande templo, Hwt-k’-Pth ou Hut-ka-Ptah, ‘mansão do Ka de Ptá’ (Ka = alma), é a origem do nome ‘Egito’, em grego, Aί-γυ-πτoς (Ai-gy-ptos). Ptá (Ptah) é o deus dos artesãos e arquitetos.

No local da antiga cidade egípcia de Mênfis (próxima à atual Heluã), cerca de 25 km a sudoeste do centro da cidade do Cairo, está a província de Guizé com seu planalto onde foram construídas na sua necrópole as pirâmides de muitos faraós como, por exemplo, as mais famosas pirâmides de Khufu (Quéops, para os gregos; é chamada de ‘a Grande Pirâmide de Guizé’), Khafre (ou Quéfrem, para os gregos, o filho de Quéops) e Menkaure (Miquerinos, Μυκερίνος, para os gregos), os faraós da 4ª Dinastia egípcia, do século XXVI AC. Ramessés II, Mernefta e Psamético efetuaram extensas edificações nessa região. Próxima à pirâmide de Khafre (ou Quéfrem) pode-se ver a esfinge com a imagem do seu rosto, cuja construção data de 2500 AC, chamada ‘a Grande Esfinge’. Ao sul de Guizé (30 km ao sul do Cairo) existe outra necrópole chamada de Sacará ou Sacara (em árabe transl.: Saqqara), com 6 km de comprimento e 1,5 Km de largura, contendo estruturas funerárias de faraós desde 3000 AC até 950 DC. O nome ‘Sacará’ deriva de Socáris ou Sokar, um dos deuses da tríade adorada em Mênfis (Ptá, Sokar e Nefertem ou Nefertum), ou então, do nome de uma tribo que ali viveu no passado, os ‘Beni Socar’ (‘os filhos de Sokar’). Aquele sítio também foi o centro de adoração da deusa Bastet. Milhares de múmias de gatos foram encontradas ali pelos arqueólogos. Ao norte de Sacará há outra extensa necrópole chamada Abusir, o cemitério da elite da população de Mênfis, onde se vê 14 pirâmides dos faraós da 5ª dinastia.


A grande esfinge
A grande esfinge


Os escritores antigos descrevem o templo de Mênfis, onde era conservado vivo o boi Ápis (o touro de Mênfis). Durante o novo império (1070-657 AC; pois de 657 AC a 332 AC é chamado de época Baixa; e depois, o período Grego-Romano: 332-305 AC – Alexandre o Grande; 305-30 AC – de Ptolomeu Sóter à derrota de Cleópatra VII), por causa da imigração de asiáticos, outros deuses estrangeiros passaram a ser adorados como Cades (ou Qetesh, deusa Cananéia e Egípcia da fertilidade), Astarte e Baal na cidade de Mênfis.

Em Is 30: 4 há menção a outra cidade do Egito. O texto diz: “Porque os príncipes de Judá já estão em Zoã, e os seus embaixadores já chegaram a Hanes”. Existe certa controvérsia sobre a real localização de Hanes. Os judeus, segundo os escritos do Targum, identificam Hanes com Tafnes (Jr 2: 16; Jr 43: 7-9), onde faraó tinha um palácio, e essa era uma razão para enviarem embaixadores até lá. Tafnes ficava também no baixo Nilo, a nordeste do Delta, próximo ao deserto de Sur; mais precisamente no Lago Manzala, sobre o ramo Tanitic do Nilo (um dos antigos sete canais de desembocadura do Nilo no Delta), aproximadamente 26 quilômetros de Pelúsio. A Septuaginta grega traduz Tafnes por Táf·nas (Ταφνας), e acredita-se que esse nome seja o mesmo que o de uma importante cidade fortificada na fronteira oriental do Egito, chamada Daphnae Pelusiae pelos escritores gregos do período clássico, atual Tell Defenneh. A Grécia clássica (Período Clássico da Grécia) foi um período de cerca de 200 anos (séculos V e IV AC) na cultura grega. Outra explicação (do arqueólogo Kitchen) encontra um paralelismo ainda mais estreito em Is 30: 4: Hanes pode ser meramente uma descrição hebraica do nome egípcio h(wt)-nsw, ‘mansão do rei’, como nome do palácio de faraó em Zoã (Tânis). Qualquer uma dessas interpretações é plausível, mas nenhuma delas tem sido comprovada. O que se pode deduzir com certeza é que Hanes era uma cidade eminente do Egito.

• Voltando a Is 19: 11-14: Deus zomba dos aduladores de Faraó, que persuadiam o rei de que eles eram sábios, sensatos e nobres, e que sua casa era antiga como os reis do passado. Eles davam muito valor às inúmeras gerações de reis e sacerdotes que já haviam liderado seu império por milhares de anos. Numa situação como essa eles não tinham como aconselhar Faraó. Os mais conceituados conselheiros só davam conselhos tolos, sem nenhum proveito. É como se Deus os tivesse desafiando e perguntando se eles conheciam exatamente Seus desígnios já determinados contra o Egito. Seus astrólogos, suas artes mágicas e sua adivinhação jamais poderiam prever os acontecimentos futuros com exatidão; nunca revelariam a verdade porque não conheciam os pensamentos de Deus. Os príncipes de Zoã estavam parecendo loucos. Os príncipes de Mênfis se enganavam da mesma forma que os chefes dos clãs, os líderes das casas mais importantes, que induziam o Egito ao erro e faziam o povo cambalear como bêbados por causa dos seus conselhos.

Eles eram conhecidos pela sabedoria e pela ciência; contudo o Senhor os entregaria aos seus próprios esquemas perversos (seus príncipes e conselheiros estariam como tolos), e eles brigariam entre si, até que sua terra fosse abalada por suas competições para se tornar um objeto de desprezo e piedade. Os príncipes dos lugares acima, sendo enganados pelos adivinhos e pelos astrólogos, enganaram o povo que habitava nas províncias onde moravam. O Senhor derramou no coração deles um espírito estonteante, ou seja, colocou em seus corações algo que os deixou desorientados, o espírito de erro. Em outras palavras, por causa do orgulho e da idolatria, Deus os entregou à cegueira, estupidez e insensatez, fazendo o Egito errar em todos os assuntos: religiosos e civis, e levando a nação ao prejuízo. Na verdade, isso se parece com o chamado do profeta: “Então, disse ele: Vai e dize a este povo: Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais. Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo” (Is 6: 9-10; Mt 13: 14-15; Mc 4: 12; Lc 8: 10; Jo 12: 40; At 28: 26-27).

• Is 19: 15: “Não aproveitará ao Egito obra alguma que possa ser feita pela cabeça ou cauda, pela palma ou junco”.
Isso quer dizer: não há nada que o Egito possa fazer; nada que as pessoas possam fazer; nem as mais nem as menos importantes; nem o forte nem o fraco. Não haverá trabalho para sustentá-los, pois seu comércio e seu suprimento foram afetados. Seus rios estão secos, não há linho nem algodão para tecer; nem peixe para apanhar, nem papiro para fazer papel. Não haveria coisa alguma que eles pudessem fazer para evitar os acontecimentos. Não estaria em suas mãos o poder de livrar-se dos assírios que viriam contra eles, pois foram privados de sabedoria e conselho; tanto os que estavam na cabeça da nação, quanto os cidadãos menos importantes (‘cauda’); nem os nobres e fortes (‘palma’, ‘palmeira’) nem a plebe fraca e impotente (‘junco’) – cf. Is 9: 14-15.

• Is 19: 16-17: “Naquele dia, os egípcios serão como mulheres; tremerão e temerão ao levantar-se da mão do Senhor dos Exércitos, que ele agitará contra eles. A terra de Judá será espanto para o Egito; todo aquele que dela se lembrar encher-se-á de pavor por causa do propósito do Senhor dos Exércitos, do que determinou contra eles”.
Esses dois versículos espelham o medo que iria se apossar dos egípcios ao verem a mão do Senhor, do Deus de Israel, levantada contra eles. Sentiriam medo de Judá, porque saberiam que o Deus deles é que estaria agindo, usando os assírios contra o Egito em punição pelo que os egípcios haviam feito com o Seu povo escolhido. Eles se sentiriam fracos e impotentes como mulheres diante de um inimigo mais forte como os assírios. Além disso, eles perceberiam que não estavam lutando apenas contra homens, mas contra o Senhor dos Exércitos, que agora estava levantando a mão contra eles como havia feito com seus antepassados. Isso significa também que o que Senaqueribe havia feito na Judéia infundia medo nos egípcios, sabendo que por Esar-Hadom ou Assurbanipal poderia acontecer com eles a mesma coisa, e até pior. Entre o Egito e a Judéia a distância era pequena. Só havia entre eles a terra dos filisteus. Tudo o que foi falado acima nos mostra que o Senhor faz com que os pecadores tenham medo daqueles a quem desprezaram e oprimiram.

Vamos recordar o que lemos:
O Nilo é considerado o mais longo rio do mundo, com 6.853 quilômetros (4.258 milhas) de comprimento. É a principal fonte de água do Egito e do Sudão. Como foi dito anteriormente, o Delta do Nilo é uma região com cento e sessenta quilômetros de comprimento e duzentos e cinqüenta quilômetros de largura. Ao nordeste do Delta do Nilo, perto de Porto Said, está o Lago Manzala ou Manzalé (em árabe: bahīrat manzala), que é o maior dos lagos salgados daquela região, com o comprimento de quarenta e sete quilômetros, e trinta quilômetros de largura. Por extensões tão grandes de água, em rios e lagos, aliadas à fertilidade do país na área da agricultura, nós podemos entender grande parte do orgulho dos egípcios, pois eram poucas as nações com essas bênçãos naturais. Além disso, sua origem remota, seus conhecimentos, suas dinastias fortes e tão grandes exércitos, com tantas vitórias ao longo dos séculos, lhes davam a sensação de poder. Mas eles creditavam tudo isso aos seus ídolos e à sua própria força. Por isso, o Senhor não se agradava deles.


Rio Nilo, ao entardecer, em Uganda
Rio Nilo, ao entardecer, em Uganda


Uma promessa de salvação para o Egito – v. 18-22.
• Is 19: 18-22: “Naquele dia, haverá cinco cidades na terra do Egito que falarão a língua de Canaã e farão juramento [NVI: ‘jurarão lealdade’] ao Senhor dos Exércitos; uma delas se chamará Cidade do Sol. Naquele dia, o Senhor terá um altar no meio da terra do Egito, e uma coluna se erigirá ao Senhor na sua fronteira. Servirá de sinal e de testemunho ao Senhor dos Exércitos na terra do Egito; ao Senhor clamarão por causa dos opressores [NVI: ‘quando eles clamarem por causa dos seus opressores’], e ele lhes enviará um salvador e defensor que os há de livrar [NVI: ‘que os libertará’]. O Senhor se dará a conhecer ao Egito, e os egípcios conhecerão o Senhor naquele dia; sim, eles o adorarão com sacrifícios e ofertas de manjares [NVI: ‘ofertas de cereal’], e farão votos ao Senhor, e os cumprirão. Ferirá o Senhor os egípcios, ferirá, mas os curará; converter-se-ão ao Senhor, e ele lhes atenderá as orações e os curará”.

As palavras ‘naquele dia’, nem sempre se referem à passagem anterior. Elas podem significar que, numa época que estava por vir, os egípcios falariam a língua sagrada, a linguagem das Escrituras, e não só a compreenderiam, mas a colocariam em prática. ‘Naquele dia cinco cidades falarão a língua de Canaã’, isto é, o Hebraico ou Judaico. ‘Uma delas se chamará Cidade do Sol’, que pode ser Heliópolis, em grego; Ôn (אן), em hebraico. Alguns manuscritos e versões bíblicas escrevem como: ‘Cidade da destruição’ (KJV), uma vez que esta referência bíblica de Isaías pode ser comparada com a mesma profecia de Jeremias e Ezequiel em relação ao julgamento de Deus contra as cidades do Egito: Ez 30: 17; Jr 43: 13. Ezequiel faz um jogo de palavras entre Om (’ôn ou Ôn, אן) e Áven (`awen, און) – Ez. 30: 17. A antiga cidade está localizada 15-20 metros abaixo das ruas dos subúrbios de classe média e baixa de Al-Matariyyah ou El Matareya, Ain Shams (Ain, Ayn, ou Ein Shams; Ain Shams significa ‘Olho do sol’) e Tel Al-Hisn ao norte do Cairo. Há um monumento remanescente de Heliópolis que é o obelisco do Templo de Ra-Atum, ainda em seu local original, no atual subúrbio do Cairo, Al-Matariyyah. Talvez, por isso, pelo número de obeliscos na cidade, é que os egípcios chamavam a cidade de Heliópolis de Iwnw, cuja transcrição é Iunu, e que significa ‘os pilares’.

Desde a Antiguidade, Heliópolis foi o grande centro da adoração ao sol no Egito, onde o deus-sol Rá ou Atom recebia honra especial. Om (’ôn ou Ôn, אן) era a sede de uma das linhas teológicas do Egito. Os faraós embelezaram o templo de Rá (ou Re‘) com muitos obeliscos. Obelisco é uma rocha alta, cônica, com um só bloco de pedra colocado em posição vertical, base quadrada ou retangular, terminando com uma ponta em forma piramidal. É um monumento comemorativo, típico do antigo Egito. ‘Obelisco’, em latim ‘obeliscus’; no grego, ‘obeliskos’, οβελίσκος, que significa ‘pilar’ ou ’apontar’, é o diminutivo de οβελός, ‘espeto’. As corporações sacerdotais de Om só podiam ser igualadas em riqueza às do deus Ptá de Mênfis, e só eram ultrapassadas pelas corporações do deus Amon ou Amum de Tebas, durante os anos 1600-1100 AC.

Como um exemplo da proeminência de Om nós podemos ver na bíblia a história de José (Gn 41: 45; 50; Gn 46: 20) como novo chanceler de faraó e que se casou com Asenate, filha de Potífera, ‘sacerdote de Om’. Pode ser que o título seja uma designação de Potífera como sumo sacerdote em Om. Na história hebraica ‘Om’ reaparece com o nome de ‘Bete-Semes’, ‘Casa do Sol’, quando Jeremias (Jr 43: 13) ameaça que Nabucodonosor ‘esmagará as colunas de Bete-Semes’, isto é, os obeliscos de Om (Heliópolis). Pode ser a ‘Cidade do Sol’ de Isaías (Is 19: 18), Om, mas que Jeremias usou o nome de uma cidade hebraica com o mesmo significado, e onde se praticava a mesma idolatria de Om: a adoração ao deus sol. Bete-Semes (em hebraico transliterado: Beit Shemesh) significa ‘Casa do Sol’, pois tanto ali como nos seus arredores prestava-se amplamente culto ao Sol, o que pode ser provado pelas ruínas que ainda existem. Ainda na Idade Média esta povoação se chamava Ain-Semes. Bete-Semes era uma cidade da fronteira, em terreno acidentado ao nordeste das montanhas de Judá, embora tivesse sido possessão da tribo de Dã (Js 15: 10). Ela estava situada em local baixo (1 Sm 6: 13); por isso, o pedido feito aos habitantes de Quiriate-Jearim para que descessem a Bete Semes e levassem a arca para a sua terra (1 Sm 6: 21). A cidade também é mencionada em 2 Rs 14: 11-13 (batalha entre Jeoás, rei de Israel, e Amazias, rei de Judá) e 2 Cr 28: 18 (quando foi também tomada pelos filisteus no reinado de Acaz). No tempo de Salomão ela era uma das cidades que forneciam suprimento para a corte (1 Rs 4: 9).

Outra cidade importante do Egito era Bubástis ou Bubaste.
Em Ez 30: 17, quando o profeta fala sobre a conquista do Egito pela Babilônia, está escrito: “Os jovens de Bete-Áven e de Pi-Besete cairão à espada, e estas cidades cairão em cativeiro”. Pi-Besete (em hebraico) ou Bubástis (ou Bubaste em egípcio, Pr-B’stt), significa ‘habitação da Deusa Bastet’. As ruínas são conhecidas como Tell Basta, às margens do Nilo, na região do delta, perto da moderna Zagazig. Bastet ou Ailurus (palavra grega para ‘gato’) era a deusa da fertilidade, protetora das mulheres, e que também representava o sol (Rá).
Em Ezequiel, a palavra Bete-Áven (em hebraico, ’awen ou ’âven) é uma pontuação diferente de ’ôn (Om); talvez um jogo de palavras com ’awen, ‘tribulação, perversidade’, no julgamento de Ezequiel contra as cidades do Egito. A Concordância Lexicon Strong diz que Aven (Strong #206, o mesmo que #205) significa idolatria; e que Aven era o nome de três lugares: um na Celessíria, um no Egito (Om) e um na Palestina (Bete-Áven). Strong #205 – ’âven significa: nada, problemas, vaidade, maldade; mais especificamente, um ídolo; falso ídolo, aflição, mal, iniqüidade, lamentos, lamentadores, tristeza, injusto, pecador, vão. Strong #204 – ’own, é uma palavra de derivação egípcia: ’ôn, uma cidade do Egito: Om. Strong #1007 – Beyth ’Aven (Bete-Áven) significa: ‘Casa da vaidade’ ou ‘Casa da iniqüidade’ ou ‘Casa da perversidade’.

• Is 19: 18: “Naquele dia, haverá cinco cidades na terra do Egito que falarão a língua de Canaã e farão juramento [NVI: ‘jurarão lealdade’] ao Senhor dos Exércitos; uma delas se chamará Cidade do Sol”.
‘Naquele dia’ se refere aos tempos do evangelho, tempos mais distantes do que os que foram mencionados até aqui.

Se pensarmos do ponto de vista espiritual, podemos entender que esta parte da profecia se encaixa perfeitamente em nossos dias para todos os que ainda estão no mundo (Egito), nas mãos de Satanás (Faraó) e sendo enganados por falsos ensinos, pela idolatria e outras coisas do mundo que os levam ao erro e ao afastamento de Deus. O Senhor, então, permite que eles passem por duras provas e até assolações para que venham a sentir Sua falta e comecem a clamar por si mesmos por uma libertação. Quando a pessoa já está pronta a deixar o que antes era conhecido e se dispõe a derrubar os falsos deuses, os ídolos de sua vida, aí o Senhor se mostra a ela e o processo de conversão se opera de verdade, com a mudança de sua maneira de ser, sua linguagem e sua visão de si mesma e das coisas espirituais. O altar que agora se ergue dentro do seu coração é ao Deus vivo que veio viver em sua alma e em seu espírito. Esta fidelidade, esta aliança, é um monumento, um memorial da presença de Deus e do Seu poder de transformação na alma de alguém. Onde o ‘sol’ foi adorado, ou seja, a treva com aparência de luz e verdade, a falsa luz que guiava aquela pessoa, agora é um lugar de adoração ao ‘Sol da justiça’, Jesus, o Messias que ela estava esperando e necessitando. O altar será o próprio trono de Deus, onde ela se entrega todos os dias como um sacrifício santo e agradável a Ele, onde o louvor e a oração sincera passam a ser oferecidos, junto com a gratidão pela Sua ajuda e pela Sua libertação; uma oferta de ‘manjares’ que era feita com cereais, ou seja, com o fruto de um coração limpo e agradecido. O Senhor fez a ferida e Ele mesmo curou. Uma coluna representa a fortaleza da palavra de Deus sendo erguida no coração de um convertido como símbolo de uma fé inabalável, pois o que essa pessoa fizer dali para frente será pela fé em Deus e isso é agradável a Ele, pois mostra que ela o honra como seu único Deus, seu único objeto de adoração. Da mesma forma na Antiguidade, as colunas, pilares ou postes-ídolos eram erguidos aos falsos deuses (Aserá, por exemplo); ou então, como um pacto entre duas pessoas (Jacó e Labão – Gn 31: 44-47) ou como Jacó e outros Israelitas ergueram uma coluna, um monumento ao Senhor, e verteram óleo sobre ele como um pacto entre eles e Deus (Gn 28: 18-22; Js 4: 9). O texto bíblico (Is 19: 20b) também diz: “Ao Senhor clamarão por causa dos opressores [NVI: ‘quando eles clamarem por causa dos seus opressores’], e ele lhes enviará um salvador e defensor que os há de livrar [NVI: ‘que os libertará’]”. A bíblia faz questão de dizer que todos os que têm a marca do Cordeiro são filhos de Deus; e se somos filhos, já não somos mais escravos; temos um Pai que nos ouve quando clamamos e que vem em nosso socorro para nos livrar dos nossos opressores (Rm 8: 14-17). Jesus é nosso salvador e defensor. Só Ele nos liberta verdadeiramente.

Os apóstolos de Jesus pregaram no Egito e na Etiópia

Se analisarmos o texto do ponto de vista histórico, ou seja, como se referindo aos tempos do evangelho na primeira vinda de Cristo, podemos pensar que os apóstolos de Jesus pregaram em vários lugares do mundo antigo, inclusive o Egito, e a profecia poderia ter sido cumprida neste momento. A comunidade judaica se instalou no Egito depois da tomada de Jerusalém por Nabucodonosor em 586 AC. Alguns judeus já tinham fugido para o Egito quando a Judéia foi invadida e Jerusalém cercada por Senaqueribe bem antes do domínio Babilônico.

João Marcos (autor do segundo evangelho) morreu arrastado por cavalos em Alexandria (Egito) em 70-80 DC, nos tempos do Império Romano. Bartolomeu (também conhecido por Natanael) pregou até na Índia com Tomé, voltando à Armênia, Etiópia e ao sul da Arábia. Segundo relatos, morreu por esfolamento em Albanópolis (moderna Derbent, ao norte do Azerbaijão), nas montanhas do Cáucaso (entre o Mar Negro e o Mar Cáspio), a mando do governador. A Etiópia é vizinha do Egito. Mateus ministrou na Pérsia (atual Irã) e na Etiópia. Não se sabe se foi martirizado na Etiópia (apunhalado até morrer). Através desses homens, o evangelho chegou ao Egito e a outras nações gentias. O evangelho provavelmente foi pregado aos gentios em grego, não em hebraico ou aramaico, mas certamente os apóstolos que foram para lá converteram pessoas, e a conversão deles pode ser a interpretação para ‘falar a língua de Canaã’; ou, então, entraram em contato com judeus da comunidade judaica vivendo lá, e até ensinado o hebraico aos nativos. Mesmo com as rejeições que eles sofreram, pois foram todos martirizados por pessoas ímpias, alguma semente ficou. Mesmo com a divulgação do evangelho em grego, o altar ao verdadeiro Deus encontrou um lugar na terra do Egito, haja visto o primeiro século do Cristianismo, onde a Igreja Primitiva se estabeleceu em algumas cidades como Alexandria, por exemplo, e fez seguidores. O primeiro cristão convertido em Alexandria foi Aniano, um sapateiro, através de João Marcos. Desde então, os cristãos de Alexandria e do resto do Egito mantiveram uma grande tradição evangélica. Da morte de João Marcos até o governo do imperador Trajano (começo do século II), os cristãos tiveram que ocultar suas crenças, ameaçados pelas perseguições. A partir deste momento o Cristianismo foi permitido de se estender por toda a cidade de Alexandria e pouco a pouco, ao longo de todo o vale do Nilo.

O livro de Atos dos Apóstolos, no dia de Pentecostes, nos mostra que já haviam judeus em todos os lugares (At 2: 9-11) e que tinham vindo a Jerusalém para a festa. Embora estivessem falando outra língua que não o hebraico, falavam a mesma língua espiritual, ou seja, acreditavam no Deus de Israel. Naquele momento, quando Pedro lhes dirigiu a palavra em sua própria língua materna, eles foram batizados no Espírito Santo, que poderia, muito bem, capacitá-los para falar o hebraico há muito tempo esquecido por eles para que pudessem entender melhor as Escrituras, mesmo que já conhecessem as escrituras bíblicas aramaicas depois do cativeiro babilônico.

Se na época de Senaqueribe houve um diálogo em hebraico (judaico), entre os servos de Ezequias e os enviados do rei Assírio (2 Rs 18: 26; 2 Cr 32: 18; Is 36: 11), por que em outras terras seria tão espantoso que alguém falasse o hebraico?

Quanto ao fato de a bíblia mencionar que ‘naquele dia, haverá cinco cidades na terra do Egito que falarão a língua de Canaã e farão juramento ao Senhor dos Exércitos’, podemos pensar que nas cidades onde houve mais idolatria no Egito, seria lá mesmo aonde a graça do evangelho chegaria para a conversão de muitos. Não se sabe ao certo quais eram, mas podemos cogitar que deveria ser as cinco mais importantes do Egito: Heliópolis (Om), onde era adorado o deus-sol Rá ou Atom; Bubástis ou Bubaste, onde era adorada a deusa Bastet; Mênfis, onde eram adorados os deuses Ptá, Sekmet, Sokar, Nefertem e Ápis (o touro de Mênfis); Tebas, onde era adorado o deus Amon; e Tânis (Zoã), que foi capital egípcia da 21ª dinastia, e onde eram adorados os deuses Amon, Rá e Ptah.

A aliança do Egito, Assíria e Israel no evangelho e no conhecimento pleno de Deus – v. 23-25
• Is 19: 23-25: “Naquele dia, haverá estrada do Egito até à Assíria, os assírios irão ao Egito, e os egípcios, à Assíria; e os egípcios adorarão com os assírios. Naquele dia, Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios [NVI: ‘Naquele dia Israel será um mediador entre o Egito e a Assíria’], uma bênção no meio da terra; porque o Senhor dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança”.

As três nações que naquele momento eram inimigas seriam reconciliadas pela presença de Cristo e Seu evangelho. Ele as apascentaria como o Bom Pastor, e elas estariam unidas numa só fé. “Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus”. Quantas vezes os profetas usaram esta frase? É a promessa divina para todos os que recebem a Jesus, cujos corações já estão quebrantados. Quando Ele veio a terra como homem e pregou o evangelho, deixou de existir judeus, gregos, romanos etc., mas os que o aceitaram passaram a ser chamados cristãos. Ele foi o cumprimento de toda a Escritura; e cumprindo a lei, Ele fez uma nova aliança entre Deus e os homens, trazendo à humanidade uma nova dispensação: a dispensação da graça. O que é uma dispensação? É um período de tempo (histórico / espiritual), no qual Deus trata com a humanidade, ou com um povo, de uma determinada maneira. Jesus veio trazendo uma nova dispensação, a da graça (favor imerecido, isto é, não é pelas nossas obras que somos salvos), pois pela fé Nele alcançamos a Salvação e não precisamos mais cumprir os preceitos infindáveis da Lei, senão dois: “Amarás o teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças” e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti

• Principal fonte de pesquisa: Douglas, J.D., O novo dicionário da bíblia, 2ª ed. 1995, Ed. Vida Nova.
• Fonte de pesquisa para algumas imagens: wikipedia.org e crystalinks.com.

Sugestão para download:

tabela de profetas AT

Tabela dos profetas (PDF)

Table about the prophets (PDF)


livro evangélico: Profeta, o mensageiro de Deus

Profeta, o mensageiro de Deus

Prophet, the messenger of God


Este texto se encontra no 1º volume do livro:


livro evangélico: O livro do profeta Isaías

O livro do profeta Isaías vol. 1

O livro do profeta Isaías vol. 2

O livro do profeta Isaías vol. 3

The book of prophet Isaiah vol. 1

The book of prophet Isaiah vol. 2

The book of prophet Isaiah vol. 3

▲ Início  

relacionamentosearaagape@gmail.com