A igreja de Pérgamo, à qual o apóstolo João escreveu suas cartas, era o centro dos maiores cultos pagãos e ali o imperador romano era adorado como um deus. Pérgamo tinha perdido o temor a Deus, por isso precisava do Espírito de Temor do Senhor (Is 11: 2).


Igreja de Pérgamo




Nota: Esses estudos sobre as sete igrejas da Ásia Menor foram baseados no significado espiritual da Menorá e do texto de Isaías 11: 2.

“Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes: Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel [abreviação de Antipater – um mártir da igreja de Pérgamo, o qual, segundo a tradição, foi assado num receptáculo de bronze durante o reinado de Domiciano (81-96 DC)], o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas. Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe” (Ap 2: 12-17).

Pérgamo significa: cidadela, burgo, e era a capital administrativa, o centro da religião oficial e sede da autoridade e da justiça imperial romana na província. Era o centro dos maiores cultos pagãos: Zeus (em grego) ou Júpiter (para os romanos): o maioral dos deuses, o deus do céu que se exibia nos fenômenos atmosféricos, ligado mais intimamente a Mercúrio, para os romanos ou Hermes, para os gregos, o deus da palavra (os mesmos Júpiter e Mercúrio encontrados em Listra e Icônio por Paulo e Barnabé: At 14: 12); Atena ou Palas Atena para os gregos, ou Minerva para os romanos, a deusa da civilização, da sabedoria, da estratégia, das artes, da justiça e da habilidade; Dionísio, para os gregos, ou Baco, para os romanos, o deus do vinho; Asclépio (Asklepios, grego) ou Esculápio, latim, o deus da cura; Afrodite (em grego) ou Vênus, para os romanos, a deusa do amor, da beleza e da sexualidade. Pérgamo aparece no Apocalipse como o lugar onde está o trono de Satanás (Ap 2: 13); era considerada como a sede do poder do mal porque no culto imperial o poder dado por Deus pertencente ao Estado havia sido empregado na adoração blasfema de um homem (adoração ao imperador). Portanto, o que ocorria era a perversão da autoridade divina dada ao Estado, sendo o imperador romano transformado numa divindade [como no caso de Domiciano, visto acima, que se proclamou deus], ao invés de ocupar apenas sua posição de autoridade secular. Cristo é o real e final possuidor dessa autoridade, o que é simbolizado pela espada afiada de dois gumes. Era costume dos imperadores romanos se considerarem deuses, por isso Deus condenava tanto o culto imperial nas Epístolas e no Apocalipse. Vejamos: Caio Júlio César (49-44 AC), em vida, no ano de 44 AC, consentiu na construção de uma estátua sua, onde se podia ler a inscrição: Deo invicto (“Ao Deus Invencível”). No mesmo ano fez-se nomear ditador vitalício. Depois de iniciado o Império Romano (31 AC), o seu herdeiro, Augusto (Caio Júlio César Otaviano Augusto – 29 AC a 14 DC), fez construir um templo em Roma dedicado ao “Divino Júlio”. O filho adotivo de Augusto foi Tibério (Tibério Cláudio Nero César – 14-37 DC). Ambos permitiram erigir um único templo em sua honra durante as suas vidas. Estes templos continham não somente as estátuas do imperador governante, que podia ser venerado à maneira de um deus, mas também eram dedicados a Roma (à cidade de Roma, no caso de Augusto, e ao senado, no de Tibério). Ambos os templos estavam situados na parte asiática do Império Romano. O templo de Augusto estava situado em Pérgamo, enquanto o de Tibério foi em Esmirna e não consentiu outro templo ou estátua em sua honra em nenhum outro lugar. Assegurou frente ao senado que preferia ser recordado mais pelos seus atos que pelas pedras. Mas permitiu a construção de um templo em honra do seu antecessor e pai adotivo, o “Divino Augusto”, em Tarragona (atual Catalunha, Espanha), em 15 DC. Calígula tornou-se o primeiro imperador a apresentar-se como um deus diante do povo; não através de estátuas, mas abertamente em seu próprio corpo.

Deus sabia que os crentes de Pérgamo conservavam o Seu nome e não negaram a fé, apesar das opressões de Roma. Entretanto, assim como em Éfeso, sustentavam a doutrina de Balaão ou a doutrina dos nicolaítas. O termo “nicolaítas” tem origem controversa. Presume-se que Nicolau de Antioquia (At 6: 5 – escolhido no início da formação da Igreja como diácono), supostamente, teria dado o seu nome a um grupo dentro dela que procurava entrar em compromisso com o paganismo, a fim de permitir que os cristãos participassem sem embaraço em algumas atividades sociais e religiosas da sociedade pagã na qual se encontrava. A orientação da seita seria semelhante à de Balaão, o corruptor de Israel no Antigo Testamento (Nm capítulos 22, 23 e 24): comer comida sacrificada a ídolos, convivência simultânea com o paganismo, com a prostituição e com os falsos ensinos, que eram laços nos caminho da igreja. Mais uma vez o Senhor conclama Seu povo ao arrependimento, caso contrário, experimentariam a morte pela espada, ou seja, o juízo divino viria para punir a desobediência e a blasfêmia. O prêmio pela fidelidade a Cristo seria o maná escondido (sustento espiritual de Deus aos que buscassem Sua revelação) e a pedrinha branca. A pedrinha mencionada no texto era um pequeno cubo (tessara hospitalis) usada como ingresso em algum lugar. Para os vencedores ela representaria a entrada no reino de Deus. A espada de dois gumes de Cristo, a Palavra Viva, separaria o santo do profano para Pérgamo voltar a ser uma cidade forte, um burgo, uma cidadela, símbolo da nova Jerusalém que é a promessa dada aos que conseguirem vencer a tribulação da vida cristã.

Para nós, a carta a Pérgamo nos diz que muitas igrejas do Senhor se encontram em lugares onde a autoridade do Estado foi totalmente deturpada e corrompida, oprimindo o povo de Deus a servir a um homem que, em suma, é o símbolo da idolatria humana. Isso desagrada totalmente a Deus, pois um ser humano corrompido é um instrumento maligno nas mãos de Satanás. Alguns, por medo, se submetem à “prostituição espiritual”, servindo concomitantemente a vários deuses e negando o Deus verdadeiro. Mesmo nos casos em que uma autoridade do governo não seja idolatrada nem exija tal grau de reverência e obediência, espiritualmente falando muitos deuses podem se erguer na vida das pessoas como se via em Pérgamo: Zeus (Júpiter), o deus do céu que se exibe nos fenômenos atmosféricos, pode ser ainda adorado na forma de superstições que vêem presságios no sol, na lua e nas estrelas por pessoas que só cortam o cabelo na lua cheia ou nova, ou mantém esse tipo de superstição arraigada dentro de si quando necessitam neuroticamente ler horóscopo antes de sair de casa para terem certeza de que vai dar tudo certo naquele dia. Há também aqueles que ligam o dia do seu aniversário a certos corpos celestes e acham que se comportam “assim ou assado” por causa disso (signos do Zodíaco e mapa astral, por exemplo). Assim, a pessoa não quer se corrigir e acaba fazendo de Deus um ser mais eclético e mais complacente com certas “manias” humanas, que não são simples manias, mas francas idolatrias. Como vimos, o outro deus mais intimamente ligado a Júpiter era Mercúrio (Hermes), o deus da palavra, o que se pode ver camuflado na sedução que pode ter a palavra na boca de alguém mais influente, seja ele um personagem do mundo ou da igreja. Falar bonito engana muita gente. Atena (Minerva) era a deusa da sabedoria; isso quer dizer que falsa sabedoria, mesmo dentro da igreja pode corromper os filhos de Deus, que não lêem a bíblia direito e ficam repetindo o que ouvem feito papagaios sem julgar ou raciocinar em cima do que estão ouvindo e sem checar com a Palavra. Dionísio (Baco), o deus do vinho, é outro tipo de deus que seduz; não necessariamente que a igreja pregue o alcoolismo, mas significa tudo o que embriaga um crente desavisado, fazendo dele como uma pessoa alheia à verdade bíblica: sensações, emoções, “arrepios”, opulência, aparências bonitas e vícios de pregação que se tornam “marca registrada” da igreja, removendo o raciocínio das pessoas, colocando-as debaixo de um manto de influência restrito como uma cartilha a ser obedecida à risca. Asclépio (Asklepios, grego; ou Esculápio, latim; Eshmun ou Esmum para os fenícios), o deus da cura, é o outro deus muito reverenciado pelas pessoas, personificado num médico ou num homem de Deus que detém o dom de cura e, às vezes sem saber, se torna um ídolo para muita gente. Netuno era adorado pelos marinheiros como o deus dos mares (para nós, simbolizando o mundo espiritual e o inconsciente humano) e segurava um tridente em sua mão (A Psicologia tomou o tridente para seu símbolo – ψ, como a Medicina e a odontologia adotaram a serpente enrolada a um bastão). Quantos se orgulham de poder trabalhar com o lado psicológico das pessoas!

O Senhor tem visto esse tipo de atitude em alguns dos Seus filhos, o que entristece profundamente o Seu coração, por isso Ele fala que, mais cedo ou mais tarde, experimentarão o poder da Sua espada de dois gumes, ou seja, da Sua Palavra de sabedoria, conhecimento e entendimento verdadeiro, que vem cortando a cegueira gerada pela idolatria e pela perversão da Sua autoridade. A bíblia diz que, para os crentes de Pérgamo, o prêmio pela fidelidade a Cristo seria o maná escondido e a pedrinha branca. O Senhor deseja que busquemos o nosso sustento espiritual e a revelação que necessitamos Nele e em mais ninguém, por isso alguns crentes se sentem completamente desamparados quando um líder deixa de tratá-los como “bebês de colo” e os incentiva a buscarem soluções para os seus problemas sozinhos no Senhor. Isso não é falta de “pastoreio”, e sim um pastoreio consciente, removendo as “muletas” das ovelhas para que possam ser carregadas pelo verdadeiro Pastor. O líder é apenas um canal para a manifestação do poder de Deus, mas não é Deus, e isso jamais pode ser confundido para que ele não fique carregando jugos completamente desnecessários. O ser humano tem uma tendência enorme à idolatria e, por isso, o Espírito Santo trata alguns filhos debaixo de certa solidão, para que possam encontrar o rumo certo na vida. Quando nosso espírito e nossa alma se encontram nesta disposição interior de saber com exatidão quem é o nosso verdadeiro Deus, aí sim, podemos dizer que somos uma cidade forte, com o direito a receber Dele a nossa “pedrinha de ingresso” na nova Jerusalém.

Que relação isso tem com os sete candeeiros de ouro descritos em Ap 1: 12-16 e 20? Vamos ler o texto:

“Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido à altura do peito, com uma cinta de ouro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas. Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força ... Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas”.

É interessante perceber que a bíblia fala que o Senhor está com as sete estrelas na Sua mão direita, entretanto, se acha entre os sete candeeiros de ouro. Quando falamos das sete estrelas, ou seja, dos sete “anjos” das igrejas, podemos pensar que, mais do que o símbolo de um líder, elas têm o significado de “o espírito” predominante nelas, em outras palavras: a idéia, a força predominante, a índole, a tendência, o pensamento de cada uma delas. Devemos prestar atenção também ao que está escrito: “Tinha na mão direita sete estrelas”, ou seja, a mão direita é símbolo de honra, poder, autoridade, bênção, força e privilégio e isso quer dizer que é o Senhor que segura debaixo da Sua autoridade a liderança da Igreja. Ele detém o poder. Podemos ir mais longe no nosso raciocínio dizendo, então, que as sete estrelas correspondem à parte humana na igreja, detidas pelo poder de Deus e debaixo do Seu governo, ao passo que os sete Espíritos de Deus (Ap 4: 5) correspondem à parte divina, ou seja, às sete unções por Ele derramadas sobre a parte humana para completá-la, para supri-la naquilo que lhe falta. Em outras palavras: cada igreja tem seu componente humano que a faz agir e reagir de uma determinada forma, entretanto, Deus dispôs um dos Seus sete Espíritos (a plenitude das sete características do Espírito Santo) para cada uma delas a fim de que recebam a força espiritual necessária para se levantarem novamente e atingirem a perfeição, desempenhando na terra a sua parcela como membro do Corpo.

O candeeiro do qual a bíblia fala aqui eram candeeiros separados, representando as sete igrejas gentias da Ásia Menor (O Espírito Santo distribuído entre os Gentios), ao passo que o candelabro de uma só haste com sete lâmpadas dado a Moisés em Êx 25: 31-40; Êx 37: 17-24; Nm 8: 1-4, e mencionado em Hb 9: 1-10, representava o Espírito de Deus no meio do povo de Israel. Para fins práticos, é a mesma coisa: a presença do Espírito Santo com poder, unção e avivamento entre os que são Seus escolhidos (Judeus e Gentios).

Para nós que nascemos do Espírito, tudo isso tem um significado. Em primeiro lugar, vamos até Pv 20: 27 onde está escrito: “O espírito do homem é a lâmpada do Senhor, a qual esquadrinha todo o mais íntimo do corpo”. Isso significa que o nosso espírito iluminado pela presença de Deus é capaz de sondar nosso interior e transformá-lo à imagem do Senhor. Em Is 11: 2 o significado dessas sete luzes torna-se bem claro para nós. Isaías profetiza sobre as qualidades do Messias, como se esperaria de um rei, também chamado ‘ungido de Deus’. Por isso, ele começa falando que o Espírito do Senhor repousará sobre Ele (Jesus), o Messias, trazendo também os dons da sabedoria, do entendimento, de conselho, de fortaleza [em algumas versões, está escrito ‘poder’], de conhecimento e de temor do Senhor. O texto diz: “Repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o Espírito de sabedoria e entendimento, o Espírito de conselho e fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor”. Neste versículo, a palavra ‘conselho’, em Hebraico, `etsah, significa: conselho; por implicação: plano, prudência, deliberação, consideração, ponderação, conselho, conselheiro, propósito.


Candeeiro
Candelabro ou candeeiro
Menorâh ou Menorath (hebraico) Êx 25: 31-39
Nebhrashtâ’ ou Nebrsha’ (aramaico) Dn 5: 5
Luchnos (candeia) ou Lychnia ou Luchnia (velador; candelabro) Mt 5: 15


Pérgamo tinha perdido o temor a Deus, passando a idolatrar o imperador romano, transformando-o num deus, além dos já existentes na cidade. Dessa forma, tinham tirado Cristo do Seu lugar de honra colocando Satanás no trono. Isso era catastrófico para a igreja e a levaria à morte espiritual. Caso ela não se arrependesse, viria sobre ela a morte espiritual, ou seja, não receberia a vida eterna nem a entrada na nova Jerusalém. Em Is 42: 8 está escrito: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura”. Seja imagem de escultura, sejam pessoas, profissões ou qualquer outro deus que teime em ocupar o coração do homem, o Senhor não vai aprovar, muito menos dar a Sua glória a isso. Pérgamo precisava do Espírito de Temor do Senhor (Is 11: 2).

O Espírito de Temor do Senhor (Is 11: 2) significa reverência, prioridade, respeito, devoção a Deus, reconhecer quem Ele é e não usar Seu nome em vão. O temor do Senhor nos eleva até o trono e nos faz entrar em contato com a santidade do Senhor. Coloca-nos numa posição de afastamento das coisas mundanas para dar reverência e prioridade à pessoa de Deus. Através do temor do Senhor nós conhecemos Seu amor e a força do louvor e da adoração dos anjos ao redor do trono. Diante dele cai toda a irreverência, idolatria e perturbação da paz. É interessante notar que na bíblia a palavra medo ou temor vem de várias raízes gregas e hebraicas, como por exemplo: a) Phobos (gr.) = arroubo, medo, terror. b) Deilia (gr.) = temor, covardia, timidez, como está em 2 Tm 1: 7. c) Eulabeia (gr.) = prudência, reverência. d) Pachad (hebr. AT) = temer, estar ansioso ou em terror; ajudador ou um companheiro para a vida (se referindo à morte), até que veio Jesus para nos libertar do medo dela (Hb 2: 15).

Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti


As Igrejas na Ásia Menor
As igrejas na Ásia Menor

Este texto se encontra no livro:


livro evangélico: Mensagem às Sete Igrejas do Apocalipse

Mensagem às Sete Igrejas do Apocalipse

Message to the seven churches of Revelation

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