Joel fala sobre: uma praga de gafanhotos que atacavam em grandes bandos e devoravam tudo; ‘o Dia do Senhor’ (quando Ele executar Seu juízo); o derramamento do Espírito Santo (chuva temporã e serôdia), ‘vale de Josafá’ ou ‘vale da Decisão’; os sabeus e o vale de Sitim.


Explicação do livro de Joel




O livro de Joel foi escrito numa época desconhecida. O período do seu ministério também é interrogado. Pode ter sido quando o rei Joás (835-796 AC) ainda era uma criança. Joel significa ‘YHWH é Deus’. Profetiza a descida do Espírito Santo e vincula a obra de Deus no AT ao nascimento da Igreja no NT. Mostra o desejo intenso que Deus tem de manter intimidade com todo o Seu povo. Joel o conclamou a se voltar para Ele. Descreve uma praga de gafanhotos (Jl 1: 1-20) que atacavam sucessivamente em bandos de dimensões espantosas, que devoravam as cascas das figueiras, os campos de trigo, vinhas e pomares, extinguindo os materiais para os sacrifícios dos sacerdotes. A praga é símbolo da ira divina e Seu castigo contra o pecado. Os desastres da natureza mencionados no capítulo 1 são uma linguagem figurada em relação aos inimigos estrangeiros que assolariam Judá, algum exército invasor, assírio ou babilônico (Jl 2: 1-11).

Os judeus deveriam se lamentar no dia da indignação de Deus, ou seja, no dia do Seu julgamento (Jl 1: 13-16). O profeta menciona O Dia do Senhor várias vezes, ou seja, o dia no qual Ele se levanta para executar Seu juízo. Entretanto, nunca é tarde para o arrependimento, e uma nova chamada para a adoração especial no templo é lançada, tanto para os sacerdotes como para o povo (Jl 1: 13-16 cf. Jl 2: 12-17). A devastação dos gafanhotos será, então, substituída pela abundância que o Senhor proporcionará (Jl 2: 18-27) através do derramamento do Espírito (Jl 2: 28-32 – a chuva temporã e a serôdia), cumprido no dia de Pentecostes (At 2: 17-21); as manifestações da natureza podem ter um significado apocalíptico (Jl 2: 30-32; cf. Ap 6: 12-13). Assim, depois do arrependimento virá a restauração do povo. Em Jl 3: 8 o Senhor menciona o nome de um povo, os sabeus, se referindo aos primeiros progenitores de um distrito da Etiópia. Outra citação interessante está em Jl 3: 18, onde o profeta fala de uma fonte de água que sairá da Casa do Senhor e regará o vale de Sitim (ou vale das acácias).


Profeta Joel

Capítulo 1 – A carestia causada pelo gafanhoto e pela seca

• Jl 1: 1-20: “Palavra do Senhor que foi dirigida a Joel, filho de Petuel. Ouvi isto, vós, velhos [ou ‘autoridades do povo’], e escutai, todos os habitantes da terra [NVI: do país]: Aconteceu isto em vossos dias? Ou nos dias de vossos pais? [NVI: dos seus antepassados]. Narrai isto a vossos filhos, e vossos filhos o façam a seus filhos, e os filhos destes, à outra geração. O que deixou o gafanhoto cortador, comeu-o o gafanhoto migrador; o que deixou o migrador, comeu-o o gafanhoto devorador [NVI: devastador]; o que deixou o devorador, comeu-o o gafanhoto destruidor [NVI: devorador]. Ébrios, despertai-vos e chorai; uivai, todos os que bebeis vinho, por causa do mosto [NVI: vinho novo], porque está ele tirado da vossa boca. Porque veio um povo contra a minha terra, poderoso e inumerável; os seus dentes são dentes de leão, e ele tem os queixais [NVI: suas presas] de uma leoa. Fez de minha vide uma assolação, destroçou a minha figueira, tirou-lhe a casca, que lançou por terra; os seus sarmentos [NVI: galhos] se fizeram brancos. Lamenta com a virgem que, pelo marido da sua mocidade, está cingida de pano de saco. Cortada está da Casa do Senhor a oferta de manjares e a libação [NVI: As ofertas de cereal e as ofertas derramadas]; os sacerdotes, ministros do Senhor, estão enlutados. O campo está assolado, e a terra, de luto [ou ‘a terra chora’], porque o cereal está destruído, a vide se secou, as olivas se murcharam. Envergonhai-vos, lavradores, uivai, vinhateiros, sobre o trigo e sobre a cevada, porque pereceu a messe do campo [NVI: Desesperem-se, agricultores, chorem, produtores de vinho; fiquem aflitos pelo trigo e pela cevada, porque a colheita foi destruída]. A vide se secou, a figueira se murchou, a romeira também, e a palmeira e a macieira; todas as árvores do campo se secaram, e já não há alegria entre os filhos dos homens. Cingi-vos de pano de saco e lamentai, sacerdotes; uivai [NVI: chorem alto], ministros do altar; vinde, ministros de meu Deus; passai a noite vestidos de panos de saco; porque da casa de vosso Deus foi cortada a oferta de manjares e a libação. Promulgai um santo jejum, convocai uma assembléia solene, congregai os anciãos, todos os moradores desta terra, para a Casa do Senhor, vosso Deus, e clamai ao Senhor. Ah! Que dia! Porque o Dia do Senhor está perto e vem como assolação do Todo-Poderoso [NVI: como destruição poderosa da parte do Todo-Poderoso, ele virá]. Acaso, não está destruído o mantimento diante dos vossos olhos? E, da casa do nosso Deus, a alegria e o regozijo? A semente mirrou debaixo dos seus torrões, os celeiros foram assolados, os armazéns, derribados, porque se perdeu o cereal. Como geme o gado! As manadas de bois estão sobremodo inquietas, porque não têm pasto; também os rebanhos de ovelhas estão perecendo. A ti, ó Senhor, clamo, porque o fogo consumiu os pastos do deserto, e a chama abrasou todas as árvores do campo. Também todos os animais do campo bramam suspirantes por ti [NVI: Até os animais do campo clamam a ti]; porque os rios se secaram, e o fogo devorou os pastos do deserto”.

Joel descreve uma praga de gafanhotos que atacavam sucessivamente em bandos de dimensões espantosas, que devoravam as cascas das figueiras, os campos de trigo, vinhas e pomares, extinguindo os materiais para os sacrifícios dos sacerdotes.
No v.6 o profeta menciona a palavra ‘povo’ que veio contra a sua terra. Em hebraico, a palavra é gowy (Strong #1471), e significa: uma nação estrangeira; portanto, um gentio; pagão, nação, pessoas; também (de maneira figurada): uma tropa de animais ou um enxame de gafanhotos. Assim, podemos pensar que no v.6, gowy se refere aos gafanhotos, enquanto que em Jl 2: 2 ‘gowy’ diz respeito a um exército de estrangeiros, inimigos de Judá, como assírios ou babilônios.

Quanto ao fato da descrição desse povo parecer um tanto imprecisa por parte de Joel, talvez seja porque ele ainda não tinha a consciência de quem eles eram (ao contrário de Jeremias e Ezequiel), ou seja, com o seu exercício profético (por volta de 830 AC) situado na época de Joás (835-796 AC), o profeta ainda não tinha notícia das intenções da Assíria sobre Israel ou Judá, pois a bíblia só começa mesmo a falar sobre a opressão da Assíria no reinado de Tiglate-Pileser III (745-727 AC), quando Isaías (740-681 AC) fala com Acaz (Is 7: 1-9) às vésperas da guerra Siro-Efraimita, iniciada em 734 AC. Nem havia ainda menção sobre Nabucodonosor (605-562 AC). Portanto, eram personagens que só apareceriam em cena quase cem anos depois. Mesmo porque ele só poderia profetizar o que Deus estava mostrando a ele. É diferente de Isaías, a quem Deus revelou o nome de Ciro, quase 150 anos antes do seu nascimento.

Em Jl 1: 9; 13, o profeta fala que o sacrifício foi cortado da Casa do Senhor, mais especificamente, a oferta de manjares e a libação do vinho. A oferta de manjares era feita com flor de farinha, ou seja, a farinha fina, de melhor qualidade, e com azeite de oliva. A libação era uma oferta de líquidos (em geral o vinho e o azeite), derramados em sacrifício de dedicação a Deus; uma parte do líquido era derramada junto com a oferta de manjares das ofertas contínuas (ou ‘ofertas regulares’) apresentadas todos os dias (Êx 29: 38-41; Nm 28: 1-8), ou das ofertas voluntárias ou nos dias de sábado (Nm 28: 9; 10) e nas festas fixas (Nm 15: 3; 5; 7; 10): nas festas da Lua Nova (Nm 28: 14), na Páscoa (Nm 28: 24), Pentecostes ou Festa das Colheitas (Shavuot – Nm 28: 26; 31), Rosh haShaná (Ano Novo civil – Nm 29: 1; 6), Dia da Expiação (Yom Kippur – Nm 29: 7; 11), Festa dos Tabernáculos (Sucot – Nm 29: 12; 16; 19; 22; 25; 28; 31; 34; 38).

Havendo um período de seca e fome, com más colheitas e com a praga de gafanhotos devorando figueiras, campos de trigo, vinhas e pomares (macieiras, palmeiras e romeiras) fica entendido porque o sacrifício de oferta de manjares foi cortado do templo. Em Jl 1: 18; 20 a bíblia diz que os animais também estavam sofrendo por falta de pasto, por causa das queimadas que aconteciam no período da seca (Jl 1: 19). A invasão dos gafanhotos torna a terra numa desolação. A praga é símbolo da ira divina e Seu castigo contra o pecado. Os desastres da natureza mencionados no capítulo 1 são uma linguagem figurada em relação aos inimigos estrangeiros que assolariam Judá (Jl 2: 1-11).

Eles deveriam se lamentar no dia da indignação de Deus, ou seja, no dia do Seu julgamento (Jl 1: 13-16 cf. Jl 2: 12-17). O profeta menciona ‘O Dia do Senhor’ várias vezes: Jl 1: 15; Jl 2: 1; Jl 2: 11; Jl 2: 31; Jl 3: 14, ou seja, o dia no qual Ele se levanta para executar Seu juízo.
O versículo 13 diz: “Cingi-vos de pano de saco e lamentai, sacerdotes; uivai [NVI: chorem alto], ministros do altar; vinde, ministros de meu Deus; passai a noite vestidos de panos de saco; porque da casa de vosso Deus foi cortada a oferta de manjares e a libação”.

O ato de arrancar o cabelo e rapar a barba era habitual em grandes lutos; vestia-se de pano de saco e jogavam-se cinzas sobre a cabeça.

Capítulo 2 –

• Jl 2: 1-11: “Tocai a trombeta em Sião e dai voz de rebate no meu santo monte; [NVI: dêem o alarme no meu santo monte] perturbem-se todos os moradores da terra, porque o Dia do Senhor vem, já está próximo; dia de escuridade e densas trevas, dia de nuvens e negridão! Como a alva por sobre os montes, assim se difunde um povo grande e poderoso [NVI: um grande e poderoso exército se aproxima], qual desde o tempo antigo nunca houve, nem depois dele haverá pelos anos adiante, de geração em geração. À frente dele vai fogo devorador, atrás, chama que abrasa; diante dele, a terra é como o jardim do Éden; mas, atrás dele, um deserto assolado. Nada lhe escapa. A sua aparência é como a de cavalos; e, como cavaleiros, assim correm [NVI: como cavalaria, atacam galopando]. Estrondeando como carros, vêm, saltando pelos cimos dos montes, crepitando como chamas de fogo que devoram o restolho, como um povo poderoso posto em ordem de combate. Diante deles, tremem os povos; todos os rostos empalidecem. Correm como valentes; como homens de guerra, sobem muros [NVI: escalam muralhas como soldados]; e cada um vai no seu caminho e não se desvia da sua fileira [NVI: Todos marcham em linha, sem desviar-se do curso]. Não empurram uns aos outros; cada um segue o seu rumo [NVI: cada um marcha sempre em frente]; arremetem contra lanças e não se detêm no seu caminho [NVI: Avançam por entre os dardos sem desfazer a formação]. Assaltam a cidade, correm pelos muros [NVI: correm ao longo da muralha], sobem às casas; pelas janelas entram como ladrão. Diante deles, treme a terra, e os céus se abalam; o sol e a lua se escurecem, e as estrelas retiram o seu resplendor. O Senhor levanta a voz diante do seu exército; porque muitíssimo grande é o seu arraial; porque é poderoso quem executa as suas ordens; sim, grande é o Dia do Senhor e mui terrível! Quem o poderá suportar?”

• v. 2; 5 – a descrição do inimigo como um povo poderoso e grande, inumerável, se repete como em Jl 1: 6, bem como a menção do fogo novamente. No v. 7 dá a impressão de estar falando novamente de gafanhotos, que se comportam como soldados, pela tradução que foi feita na NVI: “Correm como valentes; como homens de guerra, sobem muros [NVI: escalam muralhas como soldados]; e cada um vai no seu caminho e não se desvia da sua fileira [NVI: Todos marcham em linha, sem desviar-se do curso]”. De qualquer forma, é uma metáfora para algum exército invasor.
O exército assírio ou o exército babilônico era bastante rápido em suas ações de guerra, assim como trazia junto com ele um rastro de destruição (v. 3). Para fazer suas obras de cerco, derrubavam muitas árvores e ateavam fogo às cidades que eram conquistadas, após pilhá-las e matar ou capturar seus habitantes. Por isso, Joel menciona o fogo aqui. Seus soldados eram ágeis, velozes e não se detinham por nada (v. 4-9).

• v. 5 – ‘Povo posto em ordem de combate’ – conheciam a arte da guerra e eram disciplinados, organizados.
• ‘dias de escuridade e densas trevas, dia de nuvens e negridão’ – em se tratando de gafanhotos, sabe-se que seus bandos são tão numerosos que encobrem o sol, como aconteceu no Egito com a praga de gafanhotos enviada pelo Senhor (Êx 10: 15); o dia se torna sombrio com a invasão deles. Em se tratando de um exército invasor sobre Judá, essa frase pode expressar um período de grandes aflições e calamidades.
• v. 4 – ‘A sua aparência é como a de cavalos; e como cavaleiros, assim correm’ – a cabeça de um gafanhoto ou de uma locusta, se parece com a cabeça de um cavalo. Por outro lado, os caldeus são freqüentemente representados como fortes, poderosos, ferozes e furiosos, e cavalgando em cavalos ligeiros como águias (Jr 4: 13; 5: 15-16; Hc 1: 6-8).


Gafanhoto Locusta
Gafanhoto e locusta


Em Is 5: 27-30 há uma descrição do exército dos assírios: “Não há entre elas cansado, nem quem tropece; ninguém tosqueneja, nem dorme; não se lhe desata o cinto dos seus lombos, nem se lhe rompe das sandálias a correia. As suas flechas são agudas, e todos os seus arcos, retesados; as unhas dos seus cavalos dizem-se de pederneira [NVI: ‘os cascos dos seus cavalos são duros como pedra’], e as rodas dos seus carros, um redemoinho (furacão). O seu rugido é como o do leão; rugem como filhos de leão [NVI: ‘rugem como leões ferozes’], e, rosnando, arrebatam a presa, e a levam, e não há quem a livre. Bramam contra eles (sobre Judá) naquele dia, como o bramido do mar; se alguém olhar para a terra (de Israel), eis que só há trevas e angústia, e a luz se escurece em densas nuvens [NVI: ‘até a luz do dia será obscurecida pelas nuvens’]”.
Isaías descreve o exército assírio como um exército de soldados ferozes, ágeis, vigilantes e habilitados para a guerra. Seus carros são rápidos e eles gritam enquanto lutam. Judá sofrerá angústia, e a fumaça da destruição e do fogo escurecerá o céu.
Também em Is 10: 16 ele diz que os guerreiros assírios são muito fortes (v.16: ‘homens, todos gordos’); e em Is 10: 18-19 ele diz que seu exército é tão numeroso como uma floresta, mas seria consumido pelo Senhor.

Jl 2: 12-27 – A misericórdia do Senhor

• Jl 2: 12-17: “Ainda assim, agora mesmo, diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal [NVI: arrepende-se, e não envia a desgraça]. Quem sabe se não se voltará, e se arrependerá, e deixará após si uma bênção, uma oferta de manjares e libação para o Senhor, vosso Deus? [NVI: Talvez ele volte atrás, arrependa-se, e ao passar deixe uma bênção. Assim vocês poderão fazer ofertas de cereal e ofertas derramadas para o Senhor, o seu Deus]. Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum, proclamai uma assembléia solene. Congregai o povo, santificai a congregação, ajuntai os anciãos, reuni os filhinhos e os que mamam; saia o noivo da sua recâmara, e a noiva, do seu aposento [NVI: Até os recém-casados devem deixar os seus aposentos]. Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, entre o pórtico e o altar, e orem: Poupa o teu povo, ó Senhor, e não entregues a tua herança ao opróbrio, para que as nações façam escárnio dele. Por que hão de dizer entre os povos: Onde está o seu Deus?”
O Senhor chama tanto os sacerdotes como o povo para um novo momento de oração, confissão de pecados e arrependimento (Jl 1: 13-16 cf. Jl 2: 12-17). Deus quer conversão sincera para poder agir.

• Jl 2: 18-27: “Então, o Senhor se mostrou zeloso da sua terra, compadeceu-se do seu povo e, respondendo, lhe disse: Eis que vos envio o cereal, e o vinho, e o óleo, e deles sereis fartos, e vos não entregarei mais ao opróbrio entre as nações. Mas o exército que vem do Norte, eu o removerei para longe de vós, lançá-lo-ei em uma terra seca e deserta; lançarei a sua vanguarda para o mar oriental [Nota NVI: Mar Morto], e a sua retaguarda, para o mar ocidental [Nota NVI: Mar Mediterrâneo]; subirá o seu mau cheiro, e subirá a sua podridão; porque agiu poderosamente [NVI: Ele tem feito coisas grandiosas!]. Não temas, ó terra, regozija-te e alegra-te, porque o Senhor faz grandes coisas. Não temais, animais do campo, porque os pastos do deserto reverdecerão, porque o arvoredo dará o seu fruto, a figueira e a vide produzirão com vigor. Alegrai-vos, pois, filhos de Sião, regozijai-vos no Senhor, vosso Deus, porque ele vos dará em justa medida a chuva [Nota NVI: no tempo certo]; fará descer, como outrora, a chuva temporã [NVI: chuva de outono] e a serôdia [NVI: chuva de outono as de primavera]. As eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de vinho e de óleo. Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto migrador, pelo destruidor e pelo cortador, o meu grande exército que enviei contra vós outros. Comereis abundantemente, e vos fartareis, e louvareis o nome do Senhor, vosso Deus, que se houve maravilhosamente convosco; e o meu povo jamais será envergonhado. Sabereis que estou no meio de Israel e que eu sou o Senhor, vosso Deus, e não há outro; e o meu povo jamais será envergonhado”.

• v. 18 – Quando o Senhor viu que eles fizeram suas súplicas no templo, então, Ele se voltou para eles com misericórdia e começou a falar sobre restituição dos anos consumidos tanto pela seca quanto pelos gafanhotos, e é interessante que Ele fala com os animais e com a natureza também (Jl 2: 21-22), e garante ao Seu povo que não o entregará nas mãos dos ímpios (v.19), nem deixará que eles zombem de Israel. Na NVI, está escrito: “O Senhor respondeu ao seu povo: ‘Estou lhes enviando trigo, vinho novo e azeite, o bastante para satisfazê-los plenamente; nunca mais farei de vocês objeto de zombaria para as nações’” (Jl 2: 19).

• v. 20 – “Mas o exército que vem do Norte, eu o removerei para longe de vós, lançá-lo-ei em uma terra seca e deserta; lançarei a sua vanguarda para o mar oriental, e a sua retaguarda, para o mar ocidental; subirá o seu mau cheiro, e subirá a sua podridão; porque agiu poderosamente” (Jl 2: 20 – ARA); “‘Levarei o invasor que vem do norte para longe de vocês, empurrando-o para uma terra seca e estéril, a vanguarda para o mar oriental e a retaguarda para o mar ocidental. E a sua podridão subirá; o seu mau cheiro se espalhará’. Ele tem feito coisas grandiosas!” (Jl 2: 20 – NVI).
Como nota na NVI, está escrito que o Mar Oriental corresponde ao Mar Morto, e o Mar Ocidental, ao Mar Mediterrâneo.
‘Do Norte’ – Assíria (Sf 2: 13) ou Babilônia (Jr 1: 14-15).
‘E a sua podridão subirá; o seu mau cheiro se espalhará’ – pode significar os cadáveres dos inimigos, mortos em guerra contra outras nações. A seca e a devastação dos gafanhotos serão, então, substituídas pela abundância que o Senhor proporcionará (Jl 2: 18-27) através do derramamento do Espírito (Jl 2: 28-32), o que foi cumprido no dia de Pentecostes (At 2: 17-21). Assim, depois do arrependimento virá a restauração do povo.

O derramamento do Espírito Santo – chuva temporã e serôdia

• v. 23 – “Alegrai-vos, pois, filhos de Sião, regozijai-vos no Senhor, vosso Deus, porque ele vos dará em justa medida a chuva; fará descer, como outrora, a chuva temporã e a serôdia”.

É interessante perceber que tanto Oséias como Joel mencionam a chuva temporã e a serôdia:
• Os 6: 3: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra”.
• Os 10: 12: “Então, eu disse: semeai para vós outros em justiça, ceifai segundo a misericórdia; arai o campo de pousio [= interrupção do cultivo da terra por um ou mais anos para que se torne fértil]; porque é tempo de buscar ao Senhor, até que ele venha, e chova a justiça sobre vós” – cf. Jr 4: 3: “Porque assim diz o Senhor aos homens de Judá e Jerusalém: Lavrai para vós outros campo novo e não semeeis entre espinhos”.

Na Bíblia, os termos ‘chuva temporã’ e ‘serôdia’ são usados como símbolo do derramamento do Espírito Santo e estão relacionados com a estação das chuvas anuais da Palestina. A chuva temporã caía durante o outono (mês de Outubro, início do inverno) no tempo de semear a terra garantindo assim, a colheita do inverno. Era o período do plantio. Essa chuva era necessária para a semente germinar, para fazer brotar a semente. A chuva serôdia caía durante as primeiras semanas da primavera (mês de Abril, início do verão) antes da colheita, e era necessária para fazer com que a plantação amadurecesse para a colheita. Em outras palavras, era o período do amadurecimento e colheita dos frutos. Simbolicamente, a chuva temporã significa o derramamento do Espírito Santo que aconteceu no início da igreja primitiva (Atos 2: 1-47). Essa manifestação do Espírito Santo veio para germinar a semente do evangelho que estava sendo semeada. Em outras palavras: a chuva temporã capacitou os apóstolos para realizar a obra prodigiosa de Deus. A chuva serôdia representa o derramamento do Espírito Santo que se manifestará nos últimos dias da história da humanidade e irá preparar a terra para a colheita que Cristo realizará na Sua 2ª vinda (Os 6: 3; Os 10: 12; Jl 2: 23).

Por isso, precisamos receber a chuva temporã, que o Espírito Santo derramou e quer continuar a derramar sobre nós, para que possamos receber a chuva serôdia para o Arrebatamento, ou seja, uma força especial para pregar o evangelho como a última chance de arrependimento dada ao homem antes do Seu juízo divino. É para separar definitivamente os que se destinam à Salvação.

Como um resumo de tudo isso, nós podemos dizer que devemos deixar o Espírito Santo trabalhar em nossa alma como numa terra que precisa ser lavrada e semeada para poder dar fruto, mesmo que pareçamos feridos por Deus. Ele mesmo curará a nossa ferida, pois ela foi necessária para o nosso crescimento. Em segundo lugar, devemos estar abertos ao Seu avivamento, buscando os dons do Espírito Santo e sendo instrumentos em Suas mãos para continuar a obra que foi iniciada por Jesus.

Jl 2: 28-32Promessa do derramamento do Espírito: “E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias. Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça [NVI: nuvens de fumaça]. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o Senhor prometeu; e, entre os sobreviventes, aqueles que o Senhor chamar [NVI: no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento para os sobreviventes, para aqueles a quem o Senhor chamar]”.

• v. 28-32 – aqui podemos ver uma referência ao retorno dos judeus após o cativeiro, bem como uma referência messiânica, pois o derramamento completo e abundante do Espírito Santo ocorreu mesmo após a primeira vinda de Cristo. Dessa forma, as figuras de linguagem usadas para descrever os eventos estranhos na natureza (v. 30-31) podem ser uma referência às grandes mudanças de nações e governantes durante todo o período pós-exílio até o nascimento de Jesus (Período Intertestamentário), ou ser um símbolo da ira e do horror que Sua vinda tem para os incrédulos. A santidade e a palavra da verdade de Jesus julgaram Jerusalém. Desde o retorno dos exilados da Babilônia os prodígios físicos, massacres e conflagrações precederam a destruição da Cidade Santa e do Templo pelos romanos em 70 DC. Houve revoluções na política e nos governantes poderosos do mundo, prognosticados por desastres e grandes aflições em meio a um tempo de aparente prosperidade e plenitude (‘meio-dia’ – Am 8: 9), antes da mudança total na política judaica. Tais manifestações podem também ter um significado apocalíptico (Jl 2: 30-32; cf. Ap 6: 12-13; Mt 24: 29-31; Lc 21: 25-27), onde esses eventos ocorrerão de uma maneira mais espantosa até a destruição final da impiedade (O grande e terrível Dia do Senhor). Ml 4: 5 também pode ser uma alusão a isso, como também se refere à primeira vinda de Jesus.

Capítulo 3 –

Jl 3: 1-17 – Os juízos de Deus contra as nações inimigas: “Eis que, naqueles dias e naquele tempo, em que mudarei a sorte de Judá e de Jerusalém, congregarei todas as nações e as farei descer ao vale de Josafá [Josafá significa: o Senhor julga]; e ali entrarei em juízo contra elas por causa do meu povo e da minha herança, Israel, a quem elas espalharam por entre os povos, repartindo a minha terra entre si. Lançaram sortes sobre o meu povo, e deram meninos por meretrizes [NVI: deram meninos em troca de prostitutas], e venderam meninas por vinho, que beberam. Que tendes vós comigo, Tiro, e Sidom, e todas as regiões da Filístia? É isso vingança que quereis contra mim? [NVI: Vocês estão me retribuindo algo que eu lhes fiz?] Se assim me quereis vingar, farei, sem demora, cair sobre a vossa cabeça a vossa vingança. Visto que levastes a minha prata e o meu ouro, e as minhas jóias preciosas metestes nos vossos templos, e vendestes os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos, para os apartar para longe dos seus limites, [NVI: mandando-os para longe da sua terra natal] eis que eu os suscitarei [NVI: Vou tirá-los] do lugar para onde os vendestes e farei cair a vossa vingança sobre a vossa própria cabeça. Venderei vossos filhos e vossas filhas aos filhos de Judá, e estes, aos sabeus, a uma nação remota, porque o Senhor o disse. Proclamai isto entre as nações: Apregoai guerra santa e suscitai os valentes; cheguem-se, subam todos os homens de guerra [NVI: Todos os homens de guerra aproximem-se e ataquem]. Forjai espadas das vossas relhas de arado e lanças, das vossas podadeiras [NVI: foices]; diga o fraco: Eu sou forte [NVI: Sou um guerreiro]. Apressai-vos, e vinde, todos os povos em redor, e congregai-vos; para ali, ó Senhor, faze descer os teus valentes [NVI: Faze descer os teus guerreiros, ó Senhor]. Levantem-se as nações e sigam para o vale de Josafá; porque ali me assentarei para julgar todas as nações em redor. Lançai a foice, porque está madura a seara; vinde, pisai, porque o lagar está cheio, os seus compartimentos transbordam, porquanto a sua malícia é grande [NVI: tão grande é a maldade dessas nações]. Multidões, multidões no vale da Decisão! Porque o Dia do Senhor está perto, no vale da Decisão. O sol e a lua se escurecem, e as estrelas retiram o seu resplendor [NVI: as estrelas já não brilharão]. O Senhor brama de Sião e se fará ouvir de Jerusalém, e os céus e a terra tremerão; mas o Senhor será o refúgio do seu povo e a fortaleza dos filhos de Israel. Sabereis, assim, que eu sou o Senhor, vosso Deus, que habito em Sião, meu santo monte; e Jerusalém será santa; estranhos não passarão mais por ela [NVI: estrangeiros jamais a conquistarão]”.

O Vale de Josafá ou Vale de Bênção

• v. 1-2 – ‘Naqueles dias e naquele tempo’ é uma expressão que se refere ao retorno dos judeus após o cativeiro, bem como à primeira vinda de Cristo, o que se completará com Sua segunda vinda, pois há versículos que se encaixam no contexto. Esses versículos (1-17) se referem à restauração de Israel.
O ‘Vale de Josafá’ ou ‘Vale de Bênção’ (Hebr., Beracah = bênção, louvor) foi onde Josafá derrotou os amonitas, os moabitas e os do Monte Seir (2 Cr 20: 26), ou meunitas (2 Cr 20: 1). Meunita se refere a um povo hostil da Transjordânia, ligado aos amalequitas e outros opressores de Israel (Jz 10: 12, onde está escrito maonitas – ARA; na Septuaginta, midianitas), e cuja terra de origem é Ma‘ãn, ao oriente da Arabá, a sudeste de Petra (na atual Jordânia). Contra este povo hostil da Transjordânia é que Josafá e Uzias tiveram vitória (2 Cr 20: 1; 2 Cr 26: 7). O texto bíblico de 2 Cr 20: 1-2; 16; 20 nos mostra muito bem a localização do vale de Josafá, perto de outras localizações: ele fica a vinte e cinco quilômetros ao sul de Jerusalém, no deserto de Jeruel (2 Cr 20: 16), que pode ser outro nome do deserto de Tecoa, ou pelo menos parte da mesma região, sendo que ela se estende desde as praias ocidentais do Mar Morto até o norte de En-Gedi. Tecoa (2 Cr 20: 20 – Tqowa`) era uma cidade de Judá cerca de dez quilômetros ao sul de Belém. Depois do exílio a cidade foi novamente ocupada (Ne 3: 5; 27). No tempo dos macabeus e no período romano o seu nome passou a ser o que é hoje: Khirbet Taqü‘a, uma vila arruinada de cerca de 5 acres (20 quilômetros quadrados), que até quase o final do século XX não havia sido escavada. Em 2 Cr 20: 16 é mencionado a ladeira de Ziz, perto de En-Gedi, onde a corrente deságua no Mar Morto. En-Gedi (‘en-gedhï, ‘fonte da cabra’ ou ‘fonte do cabrito’) é uma fonte de água fresca a oeste do Mar Morto, no deserto de Judá. A fertilidade dessa área, em meio a uma região tão estéril, tornava-a local ideal para os fora-da-lei, para encontrar alimento (Ct 1: 14) e como lugar de esconderijo (Davi, por exemplo: 1 Sm 23: 29; 1 Sm 24: 1-3). Seu antigo nome era Hazazom-Tamar, ‘fendas das palmeiras’ (Gn 14: 7; 2 Cr 20: 2), porque era banhada por uma quente e constante corrente, e foi outrora célebre pelas suas palmeiras e vinhas (Ct 1: 14). En-Gedi (Js 15: 62; Ct 1: 14; Ez 47: 10) é a moderna Ain Jidi, ao ocidente do mar Morto, e a meio caminho entre as extremidades norte e sul. Por En-Gedi passava a estrada que os Moabitas e Amonitas seguiram quando foram atacar Josafá (2 Cr 20: 1-2). A fonte ainda existe, surgindo uma fina nascente de água numa espécie de terraço e vai formando uma corrente que vem pelo monte, de uma altura de cento e vinte metros acima do nível do mar Morto, onde deságua. Ali começava uma escarpa íngreme, ‘a ladeira de Ziz’ (2 Cr 20: 16), que parece ter sido o atual desfiladeiro que é ainda atravessado. Assim, o vale de Josafá pode ser entendido como um lugar do juízo de Deus contra as nações ímpias.
Alguns pontos merecem ser salientados:
Jl 3: 2 – a bíblia escreve ‘vale de Josafá’
Jl 3: 12 – a bíblia escreve ‘vale de Josafá’
Jl 3: 14 – a bíblia escreve ‘vale da Decisão’
Jl 3: 16 – a bíblia sugere a proximidade com Sião, enquanto a frase idêntica a Am 1: 2 não se permite qualquer conclusão a respeito, confirmando essa proximidade.

Josafá significa ‘O Senhor julga’ ou ‘YHWH tem julgado’; portanto, ‘vale de Josafá’ pode ser simbólico, não topográfico, de um lugar do juízo de Deus. Em outras palavras, ‘o vale de Josafá’ pode um termo genérico a ser usado para um local dos julgamentos finais de Deus sobre os inimigos de Israel, com uma alusão ao julgamento que lhes foi atribuído por Josafá. Mesmo porque a bíblia fala sobre a batalha do Armagedom (Ap 16: 16; 2 Rs 23: 29; 2 Cr 35: 22), quando ocorrerá o grande Dia do Deus Todo-Poderoso (Ap 16: 14b). A palavra ‘Armagedom’ vem da palavra Latina ‘Har-Magedone’, que significa Monte Megido (em hebraico); assim, Armagedom (em Grego) pode se referir também ao vale de Megido, onde o rei Josias morreu no combate com faraó Neco. Megido (ou Armagedom, ou Esdrelom) significa: ‘lugar de tropas’; Armagedom (ou monte de Megido) significa: ‘monte do lugar das multidões’. Portanto, Armagedom é o mesmo nome para Megido e Esdrelom (a forma grega do nome Jezreel). Jezreel (yizre’e’el) significa: ‘Deus semeia’; por isso, é símbolo de fertilidade e favor divino (Os 2: 21-23). Entretanto, também é símbolo do juízo final (Os 1: 4; 11). Pelo Vale de Esdrelom (ou Jezreel) flui o ribeiro de Quisom (Jz 4: 13; Jz 5: 21) onde Baraque venceu os cananeus. Ali está o Monte Tabor, onde sob o comando de Débora, Baraque atacou seus inimigos. No vale de Esdrelom o exército de Saul acampou antes da batalha de Gilboa (1 Sm 28: 4; 1 Sm 29: 1; 1 Sm 31: 1) e onde Jorão e Acazias foram assassinados por Jeú (2 Rs 9: 16; 24; 27). Ele fica no norte de Israel, oposto ao vale de Bênção ou ‘vale de Josafá’, ao sul; portanto, não há razão para se fazer a ligação do ‘vale de Josafá’ com o ‘vale do Armagedom’, topograficamente falando, no que diz respeito ao Dia do Juízo. Então, quando Joel fala sobre o ‘vale da Decisão’ pode estar se referindo a qualquer lugar onde Deus fez ou fará Seu juízo, uma vez que este foi feito tanto nos vales do norte como nos vales do sul de Israel.


Vale de Josafá ou Vale de Bênção Vale de Cedrom
À esquerda: Vale de Josafá ou Vale de Bênção / À direita: Vale de Cedrom visto da Cidade Velha de Jerusalém


Desde o século IV DC, o nome ‘vale de Josafá’ tem sido dado ao vale de Cedrom, onde na Antiguidade corria o riacho ou ribeiro de Cedrom. O vale de Cedrom começa ao norte de Jerusalém, passa entre o monte do templo e o monte das Oliveiras em direção ao Mar Morto, que ele atinge depois de atravessar o deserto da Judéia.
A menção do Monte das Oliveiras em Zc 14: 4, e o fato de que este foi o cenário da ascensão (At 1: 9; 12; Lc 24: 50; Lc 19: 29), faz com que seja o mesmo cenário da vinda de Cristo (At 1: 11).

Voltando ao raciocínio sobre Jl 3: 1-2, ‘Naqueles dias e naquele tempo’ é uma expressão que se refere ao retorno dos judeus após o cativeiro, bem como à primeira vinda de Cristo, o que se completará com Sua segunda vinda. Por isso, no versículo 2 está escrito que o Senhor congregaria todas as nações e entraria em juízo com elas no ‘vale de Josafá’, ou seja, os que maltrataram Judá e Jerusalém, tomando posse daquela terra sem direito da parte de Deus.
Depois, o profeta fala sobre algumas situações que ocorreram por parte dessas nações contra o povo de Deus: “Lançaram sortes sobre o meu povo, e deram meninos por meretrizes [NVI: ‘deram meninos em troca de prostitutas’], e venderam meninas por vinho, que beberam. Que tendes vós comigo [NVI: ‘O que vocês têm contra mim’], Tiro, e Sidom, e todas as regiões da Filístia? É isso vingança que quereis contra mim? Se assim me quereis vingar, farei, sem demora, cair sobre a vossa cabeça a vossa vingança. Visto que levastes a minha prata e o meu ouro, e as minhas jóias preciosas metestes nos vossos templos, e vendestes os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos, para os apartar para longe dos seus limites, eis que eu os suscitarei do lugar para onde os vendestes e farei cair a vossa vingança sobre a vossa própria cabeça. Venderei vossos filhos e vossas filhas aos filhos de Judá, e estes, aos sabeus, a uma nação remota [NVI: ‘e eles os venderão à distante nação dos sabeus’], porque o Senhor o disse” (Jl 3: 3-8).

• v. 3: ‘Lançaram sortes sobre o meu povo, e deram meninos por meretrizes, e venderam meninas por vinho, que beberam’ – as nações ímpias dividiram os prisioneiros judeus entre eles como num sorteio. Parece ser um costume, entre os povos da Antiguidade, dividir prisioneiros por sorteio (Ob 11; Na 3: 10). Em vez de pagar uma prostituta por sua prostituição em dinheiro, eles lhe davam um menino cativo judeu como escravo. Eles consideravam uma garota judia tão sem valor que eles a vendiam pelo vinho que bebiam.

• v. 4: ‘Que tendes vós comigo, Tiro, e Sidom, e todas as regiões da Filístia? É isso vingança que quereis contra mim? Se assim me quereis vingar, farei, sem demora, cair sobre a vossa cabeça a vossa vingança’, ou seja, o que temos em comum? Isso quer dizer que não há acordo entre as duas partes. O povo do Senhor foi entregue a Edom, pelos filisteus e pelos tírios ou sidônios (Am 1: 6; 9). Se os filisteus quiserem se vingar dos judeus (Ez 25: 15-17), Deus fará cair a Sua vingança sobre a cabeça deles. Amós repreendia os tírios por terem entregado prisioneiros hebreus aos edomitas (Am 1: 9-10), e Joel (Jl 3: 6), por terem vendido prisioneiros hebreus como escravos aos gregos. Deus usou muitos profetas para profetizar a queda de Tiro: Is 23: 1-18; Ez 26: 1 – 28: 26; Am 1: 9-10; Zc 9: 2-4. A cidade de Sidom foi denunciada pelos profetas juntamente com Tiro: Is 23: 4-5; 12; Jr 25: 22; Jr 27: 3; Jr 47: 4; Ez 28: 21-22; Jl 3: 4; Zc 9: 2-4. A Filístia (os filisteus) também é repreendida: Is 14: 29-31; Jr 47: 1-7; Ez 25: 15-17; Am 1: 6-8; Sf 2: 4-7; Zc 9: 5-7.

• v. 5: ‘Visto que levastes a minha prata e o meu ouro, e as minhas jóias preciosas metestes nos vossos templos’ – O ouro e a prata do povo de Deus foram levados pelos inimigos e colocados nos templos de seus deuses. Os filisteus e os arábios levaram todos os tesouros da casa do rei Jeorão (2 Cr 21: 16-17), filho de Josafá. O mesmo aconteceu em 1 Reis 15: 18 (Asa, com os siros); 2 Reis 12: 18 (Joás, com os siros), 2 Reis 14: 14 (Jeoás, rei de Israel, saqueou os tesouros de Amazias, rei de Judá). Outros reis de Judá e Israel fizeram o mesmo para se livrar do jugo do inimigo: Acaz (2 Rs 16: 8; 2 Cr 28: 21) e Ezequias (2 Rs 18: 15-16; 2 Cr 28: 21) deram os tesouros ao rei da Assíria.

• v. 6: ‘... e vendestes os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos, para os apartar para longe dos seus limites’ – Gregos, literalmente, ‘javanitas’, isto é, os Ionianos, eram habitantes de uma colônia grega na costa da Ásia Menor, e o nome pelo qual os primeiros gregos foram conhecidos pelos judeus. Os gregos eram descendentes de Javã (Gn 10: 2; 4), filho de Jafé, filho de Noé. Provavelmente o germe da civilização grega veio, em parte, através dos escravos judeus importados para a Grécia pelos traficantes da Fenícia. Ezequiel (Ez 27: 13) menciona Javã e Tiro como que negociando pessoas.
‘Para os apartar para longe dos seus limites’ (ARA) ou ‘mandando-os para longe da sua terra natal’ (NVI), ou seja, para longe da Judéia, de forma que os cativos perderam toda esperança de retorno.

• v. 7: ‘... eis que eu os suscitarei do lugar para onde os vendestes e farei cair a vossa vingança sobre a vossa própria cabeça’. ‘Eu os suscitarei’ significa: eu os trarei de volta. Segundo o historiador Flávio Josefo, Alexandre e seus sucessores rejeitaram os escravos judeus da Grécia e os deixaram retornar ao seu país. Foi o cumprimento da profecia, libertando os judeus que haviam sido vendidos aos gregos pelos filisteus e tírios. Por sua vez, a cidade de Tiro foi invadida em 332 AC por Alexandre, o Grande, quando ele tomou o império persa e estabeleceu o seu (‘farei cair a vossa vingança sobre a vossa própria cabeça’).

Os sabeus

• v. 8: ‘Venderei vossos filhos e vossas filhas aos filhos de Judá, e estes, aos sabeus, a uma nação remota [NVI: ‘e eles os venderão à distante nação dos sabeus’], porque o Senhor o disse’ – ou seja, vender os filhos dos tírios e dos filisteus para os sabeus. Dario II e Artaxerxes II (404-358 AC), seu filho, e principalmente Alexandre, o Grande, reduziram os poderes fenícios e filisteus. Após a captura de Tiro e Gaza por este último conquistador, multidões de filisteus e trinta mil tírios e foram vendidos como escravos. Assim, Deus fala para os judeus, da mesma forma, venderem estes escravos estrangeiros para os sabeus. Os sabeus (Shba’iy ou Shba’) foram aos primeiros progenitores de um distrito da Etiópia. Shba’iy é uma variação da palavra hebraica Cba’iy, ou Cba’ (Is 45: 14), se referindo aos descendentes de Cuxe, filho de Cam, que estabeleceu sua nação (Seba ou Sebá; em hebraico: Sheba), que mais tarde veio a ser a Etiópia. Seba está relacionado com Sabá, também filho de Cuxe, que se estabeleceu ao sul da Arábia. Seba (sebha’) e Sabá (shebha’) são as formas (árabe antiga e hebraica) do povo do reino de Sabá. Na verdade, não se sabe quando isso aconteceu (Judá vender escravos estrangeiros para os sabeus).

• v. 9: ‘Proclamai isto entre as nações: Apregoai guerra santa e suscitai os valentes; cheguem-se, subam todos os homens de guerra’ – as nações hostis a Israel são convocadas por Deus para fazerem subir seus homens de guerra contra Jerusalém (porque Jerusalém estava em uma colina), não para destruí-la, mas para serem destruídas pelo Senhor (Ez 38: 7-23; Zc 12: 2-9; Zc 14: 2-3). ‘Apregoai guerra’ – Como Babilônia foi planejada por Deus para avançar contra ela para sua destruição (Jr 6: 3-8), então agora, todos os seus inimigos irão avançar contra ela para sua própria destruição. Os assírios, os caldeus e os gregos vieram sucessivamente, mas o Senhor vingou Sua cidade, de uma forma ou de outra. Senaqueribe não conseguiu invadir Jerusalém; os caldeus a destruíram, mas foram destruídos da mesma forma, e Jerusalém foi reconstruída. Os selêucidas, na pessoa de Antíoco IV Epifânio, invadiram Jerusalém, mas Judas Macabeu os expulsou de lá. O profeta não só fala com as nações gentias para virem, mas também com os próprios judeus. Esta parte da profecia se refere a todas as épocas antes da primeira vinda de Jesus, pré e pós-exílio, quando as nações umas após outras viriam contra Jerusalém, mas o Senhor sempre derrotaria os inimigos do Seu povo. Também pode ser estendida à Sua segunda vinda, com a derrota definitiva dos inimigos espirituais da Igreja de Cristo.

• v. 10: ‘Forjai espadas das vossas relhas de arado e lanças, das vossas podadeiras; diga o fraco: Eu sou forte’ [NVI: Sou um guerreiro] – aqui o Senhor fala com Seus filhos, mais ou menos o que disse a Ezequias diante da ameaça de Senaqueribe: “Não temas por causa das palavras que ouviste, com as quais os servos do rei da Assíria blasfemaram contra mim. Eis que meterei nele um espírito, e ele, ao ouvir certo rumor, voltará para a sua terra; e nela eu o farei cair morto à espada” (Is 37: 6-7). Isso queria dizer que haveria guerras reais, sim; sangue seria derramado, mas para os filhos de Deus as guerras seriam ‘guerras santas’, onde eles não se estribariam na força nem nas armas humanas, mas confiariam na força e na justiça divina. Como em muitas passagens do AT Deus fez os inimigos matarem uns aos outros (como aconteceu com os inimigos de Josafá e de Gideão), Ele os estava estimulando, de certa forma, a fazerem armas e virem contra Jerusalém, sem saber que eles seriam derrotados e pegos de surpresa. Deus lutaria pelo Seu povo e o vingaria. Esse versículo transmite a idéia de um aviso da parte de Deus alertando os judeus sobre os perigos e tribulações por vir, e ninguém seria poupado. Por isso, eles deveriam estar preparados, principalmente com a fé no Seu Deus. É como se o profeta dissesse: ‘Que ninguém se ausente da guerra, nem mesmo o fraco’.

Podemos comparar esta passagem com Lc 22: 36: “Então, lhes disse: Agora, porém, quem tem bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma”. Jesus não estava dizendo que era para eles comprarem uma espada, mas estava dizendo que a partir daquele momento eles estariam correndo perigo de vida, haveria perseguições, e eles deveriam estar preparados, não para matar, mas para se apoiar na força de Deus, que poderia livrá-los da morte física ou lhes daria força para enfrentá-la. No versículo anterior Ele os lembrou de quando os enviou para pregar, sem levar nada com eles, porque a missão era diferente. Agora, eles precisariam de cajado, bolsa, sandálias, alforje, ou seja, dos recursos materiais do mundo; necessitariam, inclusive, saber se defender das perseguições dos inimigos. Foi Ele mesmo que disse: “Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem” (Mt 10: 23). Não era desejo de Deus que matassem pessoas, nem que fossem mortos sem motivo, sem cumprir sua verdadeira missão.
Voltando a Jl 3: 10, se pensarmos no Período Intertestamentário, pois esse versículo se segue a eventos que ocorreram nessa época (v. 7-8), podemos chamar de ‘guerra santa’ a revolução dos macabeus, que expulsaram Antíoco IV de Jerusalém. Os judeus lutaram pelo templo do Senhor e por suas vidas.

É interessante que, se pensarmos nos tempos Messiânicos mencionados por Isaías e Miquéias sobre o templo do Senhor ser erguido no cimo dos montes, e para onde afluirão os povos para ouvirem a doutrina de Jesus, a frase acima está escrita de maneira inversa, ou seja:
“Ele julgará entre os povos e corrigirá muitas nações [NVI: ‘resolverá contendas de muitos povos’]; estas converterão as suas espadas em relhas de arados e suas lanças, em podadeiras [NVI: ‘foices’]; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Is 2: 4);
“Ele julgará entre muitos povos e corrigirá nações poderosas e longínquas; estes converterão as suas espadas em relhas de arados e suas lanças, em podadeiras; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Mq 4: 3).
Isso significa a conversão dos gentios ao evangelho, cessando a guerra. Até os fracos, os doentes, os velhos e as crianças se sentiriam fortes por poderem participar dessa ‘guerra santa’ do Senhor, na conversão dos gentios e na derrota de Satanás.
Essa profecia também se estende ao final dos tempos onde todo filho de Deus, crianças, jovens, adultos e idosos, desejarão participar da guerra contra o mal, pois já têm a promessa de vitória da parte do Senhor.

• v. 11: ‘Apressai-vos, e vinde, todos os povos em redor [NVI: ‘nações vizinhas’], e congregai-vos; para ali, ó Senhor, faze descer os teus valentes’.
O chamado continua para os povos inimigos de Jerusalém e para os moradores dela, a quem o profeta chama, aqui, de ‘valentes’. Os guerreiros inimigos que se consideram poderosos estão prestes a serem derrubados por Deus.

• v. 12: ‘Levantem-se as nações e sigam para o vale de Josafá; porque ali me assentarei para julgar todas as nações em redor [NVI: ‘todas as nações vizinhas’]’ – pensando na tradução da NVI (‘todas as nações vizinhas’), a 2ª parte do versículo significa as nações mais comumente mencionadas nas profecias e que estavam ao redor de Israel, sempre tentando um ataque e uma destruição: Edom, Moabe, Amom, Filístia, Fenícia, Egito. Entretanto, se pensarmos mais amplamente sobre a profecia, ‘julgar todas as nações ao redor’ diz respeito a todas as nações de todas as partes da terra que maltrataram Israel, não meramente as nações em volta de Jerusalém, ou seja, a Assíria, a Babilônia (Jr 34: 22; Mq 4: 11-13; Sf 3: 15-19; Zc 12: 9; Zc 14: 3-11; Ml 4: 1-3) e a Grécia (os Selêucidas), por exemplo, símbolo dos opressores espirituais do seu povo. Cada nação, em seu tempo determinado, veio a Jerusalém. Isso tem relação com o julgamento de Deus contra as nações que vieram contra ela no período pré e pós-exílio (no Período Intertestamentário), inclusive no período messiânico, como Roma. Apesar do seu longo domínio sobre Israel e Jerusalém, o império romano achou oposição por parte dos judeus (os zelotes e as guerras judaico-romanas), a quem Deus deu vitórias, até mesmo através do evangelho que estava sendo pregado. A palavra de Cristo já estava julgando os incrédulos, e o fará plenamente nos últimos dias com todos os inimigos espirituais do Seu povo (Ez 38: 15-23; Zc 14: 3-11; Ap 20: 9).

Nós falamos em Jl 3: 2 que o Senhor congregaria todas as nações e entraria em juízo com elas no ‘vale de Josafá’, ou seja, os que maltrataram Judá e Jerusalém, tomando posse daquela terra sem direito da parte de Deus. Dissemos também que Josafá significa: ‘O Senhor julga’ ou ‘YHWH tem julgado’; portanto, ‘vale de Josafá’ pode ser simbólico, não topográfico, de um lugar do juízo de Deus, com uma alusão ao julgamento que lhes foi atribuído por Josafá. Então, quando Joel fala sobre o ‘vale de Josafá’ ou o ‘vale da Decisão’ pode estar se referindo a qualquer lugar onde Deus fez ou fará Seu juízo, uma vez que este foi feito tanto nos vales do norte como nos vales do sul de Israel. Vamos nos lembrar também que desde o século IV DC, o nome ‘vale de Josafá’ tem sido dado ao vale de Cedrom, onde na Antiguidade corria o riacho ou ribeiro de Cedrom. O vale de Cedrom começa ao norte de Jerusalém, passa entre o monte do templo e o monte das Oliveiras em direção ao Mar Morto, que ele atinge depois de atravessar o deserto da Judéia. Foi no vale de Cedrom onde o general de Senaqueribe se colocou (na extremidade do aqueduto do açude superior – 2 Rs 18: 17) para afrontar Ezequias.

• v. 13: ‘Lançai a foice, porque está madura a seara; vinde, pisai, porque o lagar está cheio, os seus compartimentos transbordam, porquanto a sua malícia é grande [NVI: tão grande é a maldade dessas nações!]’ – essa era uma direção dada aos executores da vingança de Deus, pois se encheu a medida da iniqüidade do inimigo (por exemplo, ‘a iniqüidade dos amorreus’, Gn 15: 16). A justiça de Deus no AT é comparada com o ato de trilhar o trigo ou pisar as uvas no lagar: Jr 51: 33; Is 63: 2-3 e Lm 1: 15.
Joel também relata os juízos de Deus contra as nações inimigas, usando elas mesmas para realizar Sua vingança contra outra nação ímpia que destruiu Seu povo: Tiglate-Pileser III destruiu a Síria, que havia oprimido Israel. A Assíria, por sua vez, foi derrotada pelos Medos e Babilônios; estes, pelos Persas. Nabucodonosor foi instrumento da vingança de Deus sobre as nações inimigas de Israel: Amom, Moabe, Filístia, Egito, Edom, Sidom e Tiro, entre outras. Alexandre Magno derrotou os Medos e Persas, e os romanos causaram divisão dentro do seu próprio império, levando-o à sua derrota. Assim, Deus usará os poderosos para aniquilar Seus inimigos até o Dia do Julgamento final quando todos eles serão para sempre destruídos. No NT, a bíblia compara a ceifa à consumação do século (Mt 3: 10; 12; Mt 13: 27-30, Mt 13: 38-42, Ap 14: 15-19; Ap 19: 15; Ap 20: 9).

‘Lançai a foice’ é uma metáfora em relação ao ato de ‘cortar’, ‘desarraigar’, os inimigos da Igreja, assim como ‘pisar o lagar’, que compara o vinho que escorre dele ao sangue derramado dos inimigos do Senhor.
Deus deixa a maldade dos perversos chegar ao seu limite para poder executar o Seu juízo da maneira apropriada.

• v. 14: ‘Multidões, multidões no vale da Decisão! Porque o Dia do Senhor está perto, no vale da Decisão’ – essa exclamação do profeta se refere à visão que ele teve de uma grande variedade de nações se juntando. ‘Multidões, multidões!’ é a forma hebraica para designar imensas multidões. Como expliquei anteriormente, o ‘vale da Decisão’ se refere a qualquer lugar onde Deus faz Seu juízo, ou seja, onde os ímpios encontram sua condenação já determinada por Ele, onde a controvérsia entre Deus e os inimigos do Seu povo será decidida de uma vez por todas. A repetição da expressão: ‘vale da Decisão’ aumenta seu efeito e expressa a terrível certeza de sua destruição, o número prodigioso de pessoas que são mortas ali.
Não se sabe ao certo a quais personagens Joel estava se referindo; talvez, a todas as nações ao longo dos séculos, destruídas pelo próprio Deus, até a 1ª vinda de Jesus, não necessariamente num único dia, uma vez que os versículos que se seguem (v. 18-21) falam sobre a restauração de Israel, com uma linguagem que lembra bastante o aparecimento da nova dispensação da graça.
Como em todos os julgamentos divinos descritos pelos profetas na bíblia, pode-se extrapolar o raciocínio para o Dia do Juízo Final.

• v. 15: ‘O sol e a lua se escurecem, e as estrelas retiram o seu resplendor’ – essa frase é muito parecida com as que foram escritas em Isaías para simbolizar grandes mudanças de governo ou um grande mover espiritual de Deus. Muitas vezes na bíblia, fogo, carros, torvelinho ou turbilhão e espada (Is 66: 15-17) são símbolos do juízo de Deus sobre os que rejeitam Sua correção e O desprezam. Ele entra em juízo contra os ímpios da maneira que Ele quer, seja usando exércitos humanos sobre a terra, seja por calamidades da natureza ou qualquer outra forma. Ele sempre executa a Sua justiça e o Seu juízo, ainda que nós não entendamos Seus métodos. A bíblia diz que Ele retém Sua fúria, é tardio em irar-se, mas quando Ele se levanta contra algo, ninguém pode detê-lo.

Sião

• v. 16: ‘O Senhor brama de Sião e se fará ouvir de Jerusalém, e os céus e a terra tremerão; mas o Senhor será o refúgio do seu povo e a fortaleza dos filhos de Israel’ – a primeira frase (‘o Senhor brama de Sião’) pode significar que Ele atingirá os ímpios com espanto, como o rugido de leão assombra os animais da floresta. Rugir como um leão (Jr 25: 30; Am 1: 2; Am 3: 8) simboliza a autoridade de Deus sobre o mundo material e espiritual. A bíblia usa outras figuras de linguagem para se referir a essa autoridade: ‘voz de trovão’, ‘voz de muitas águas’, ‘chamas de fogo’ (Sl 18: 13-14; Sl 29: 3-4; Sl 29: 7).

‘Se fará ouvir de Jerusalém’ enfatiza a sua preferência pelo Monte Sião (Sl 78: 68), onde Ele se manifestará aos homens. Foi no Monte Sião, no templo em Jerusalém, onde Jesus se revelou como o Filho de Deus e o Messias.
O monte da Casa do Senhor, em muitas passagens proféticas é chamado de Monte Sião. ‘Sião’ significa ‘lugar seco’, ‘banhado de sol’, ou ‘cume’. O Monte Sião é o nome de uma das colinas de Jerusalém e que pela definição bíblica é a Cidade de Davi, e mais tarde se tornou sinônimo da Terra de Israel. Sião (em hebraico ציון – Tzion ou Tsion; em árabe, Ṣuhyūn) era o nome dado especificamente à fortaleza Jebusita que ficava na colina a sudeste de Jerusalém, chamada de Monte Sião, e que foi conquistada por Davi. Após sua morte, o termo ‘Sião’ passou a se referir ao monte onde se encontrava o Templo de Salomão, e depois, ao próprio templo e aos seus terrenos. Depois disso ainda, a palavra ‘Sião’ foi usada para simbolizar Jerusalém e a terra de Israel.

• v. 17: ‘Sabereis, assim, que eu sou o Senhor, vosso Deus, que habito em Sião, meu santo monte; e Jerusalém será santa; estranhos não passarão mais por ela [NVI:... e estrangeiros jamais a conquistarão]’.
Deus dá a certeza de que Ele habita na cidade santa; e estranhos não passarão mais por ela, ou seja, estrangeiros jamais a conquistarão (NVI), não virão mais para assolá-la. A palavra ‘estranhos’ ou ‘estrangeiros’ neste texto significam as pessoas que não têm parte com Deus, com o Espírito Santo, com a Sua vontade. Nenhum estranho passará para atacar ou para profanar a cidade sagrada (Is 35: 8; Is 52: 1; Is 60: 18; Ob 17; Zc 8: 3; Zc 14: 16).
Deus não foi derrotado nem deixou de existir com a destruição do templo em Jerusalém pelos romanos. Embora esta figura de linguagem (‘habito em Sião, meu santo monte’) seja comum no AT pelos profetas ao se referirem ao reino Messiânico, Jesus deixou bem claro que habitaria em um santuário de carne (Jo 2: 20-21), e que após Sua ascensão Seu Espírito passaria a habitar dentro do espírito de todos os crentes (1 Co 3: 16; 1 Co 6: 19; 2 Co 6: 16); por isso, Sião é símbolo do nosso espírito onde Deus está, e da Igreja de Cristo, como Sua noiva, Seu Corpo na terra. Nenhum estranho passará por ela ou poderá destruí-la (Mt 16: 18).

Jl 3: 18-21A restauração de Israel: “E há de ser que, naquele dia, os montes destilarão mosto, e os outeiros manarão leite, e todos os rios de Judá estarão cheios de águas [NVI: todos os ribeiros de Judá terão água corrente]; sairá uma fonte da Casa do Senhor e regará o vale de Sitim [NVI: o vale das Acácias]. O Egito se tornará uma desolação, e Edom se fará um deserto abandonado, por causa da violência que fizeram aos filhos de Judá, em cuja terra derramaram sangue inocente. Judá, porém, será habitada para sempre, e Jerusalém, de geração em geração. Eu expiarei o sangue dos que não foram expiados, porque o Senhor habitará em Sião”.

• v. 18: ‘E há de ser que, naquele dia, os montes destilarão mosto [NVI: ‘gotejarão vinho novo’], e os outeiros manarão leite [NVI: ‘das colinas manará leite’], e todos os rios de Judá estarão cheios de águas; sairá uma fonte da Casa do Senhor e regará o vale de Sitim’ – ‘naquele dia’ significa: o dia da primeira vinda de Cristo. Vinho é símbolo da abundância de videiras que foram cultivadas em áreas terraplanadas nas colinas da Palestina, entre as rochas (Am 9: 13), vinhas plantadas sobre as montanhas. Por isso, o profeta diz que os montes destilarão mosto (vinho novo).
• ‘Os outeiros manarão leite’ – isto é, rebanhos produzindo leite abundantemente, através da riqueza das pastagens nas regiões montanhosas.

• ‘Os rios de Judá estarão cheios de água’ – na Palestina, onde a chuva cai somente durante certo período do ano, a paisagem é recortada por muitos vales estreitos e leitos de riachos (em hebraico, nahal; ou em árabe, wadïs), que só exibem água durante a estação chuvosa. Freqüentemente pode ser encontrada água subterrânea nesses wadis durante os meses de estio (Gn 26: 17; 19). Os rios perenes atravessam vales (no hebraico, ‘emeq = vales) e planícies mais largas, ou então cortam gargantas estreitas através da rocha. Assim, na vinda de Cristo, o Senhor promete abundância da água da Sua palavra e da presença do Seu Espírito enchendo Seu povo e saciando sua sede.

O vale de Sitim

• ‘Sairá uma fonte da Casa do Senhor e regará o vale de Sitim’ (ou vale das acácias) – Sitim (Nm 25: 1; Js 2: 1; Mq 6: 5) era lugar de idolatria e imoralidade, defronte de Jericó, nas planícies de Moabe, a leste do Jordão. Isso quer dizer que após o arrependimento sincero, o povo que antes era depravado, receberá a água doadora de vida, no Dia do Senhor (A primeira vinda de Cristo). A acácia é um arbusto que só cresce em regiões áridas; portanto, isso também significa que mesmo o deserto, um lugar árido de vida, será regado pela bênção (água) de Jerusalém. Por isso, Ezequiel (Ez 47: 1) descreve as águas saindo de debaixo do limiar do templo e fluindo para o Mar Morto, tornando saudáveis as suas águas (Ez 47: 8). Também em Zc 14: 8 as águas fluem de um lado para o Mediterrâneo, do outro lado para o Mar Morto, perto do qual Sitim estava situado, significando o evangelho brotando como uma fonte de água ininterrupta para todo o mundo, para conversão de judeus e gentios.

Edom

• v. 19: ‘O Egito se tornará uma desolação, e Edom se fará um deserto abandonado, por causa da violência que fizeram aos filhos de Judá, em cuja terra derramaram sangue inocente’ – Egito é o símbolo do mundo e, portanto, o símbolo de tudo o que está à sua disposição para desencaminhar, afrontar, corromper, oprimir e aprisionar a igreja, afastando-a do contato com o Senhor, com a Sua luz, levando-a ao pecado e à morte espiritual. Assim, a profecia fala que com a vinda de Jesus, a comunhão de Israel com Deus seria renovada, e os valores do mundo seriam removidos e destruídos do meio da igreja. Isso vale para nós hoje, quando os valores espirituais verdadeiros em nós se vêem afrontados por tudo o que está presente no mundo, parecendo maior e mais poderoso. O Senhor fala que vai destruir esse ‘Egito’ para que a nossa santidade seja preservada, assim como a vida eterna. Seus valores são mais fortes.

Mas falando um pouco da História, o Egito sob o governo de Shoshenk I ou Sheshonk I (ou Sisaque I – 945-924 AC) invadiu o reino de Roboão (930-913 AC – 2 Cr 12: 1-12; 1 Rs 14: 25-28), tomou as cidades fortificadas de Judá e subiu contra Jerusalém e tomou os tesouros da Casa do Senhor e os tesouros da casa do rei; também levou todos os escudos de ouro que Salomão tinha feito. Entretanto, o Egito caiu nas mãos dos assírios no reinado de Sargom II, Esar-Hadom e Assurbanipal, cada um deles deixando uma destruição maior; e mais tarde caiu nas mãos de Nabucodonosor da Babilônia. Depois do cativeiro na Babilônia, no período após a morte de Alexandre, o Grande, um dos seus generais (Ptolomeu I Sóter) ficou com o Egito como a sua parte do império grego, e ele e a dinastia Ptolomaica dominaram por mais ou menos 125 anos (323-198 AC), antes que Israel passasse a ser domínio selêucida, fundado por outro general de Alexandre (Seleuco Nicator I). O reino selêucida dominou sobre Israel (198-167 AC), e um de seus reis, Antíoco IV Epifânio, tomou o Egito (Dn 11: 41-43), que logo depois foi tomado pelos romanos. Ao longo do tempo, a nação foi reduzida a um estado deplorável, perdendo quase que toda a glória do seu passado.

Edom (ou Esaú) era um implacável inimigo de Judá em sua maior angústia. Judá (descendente de Jacó) é símbolo do povo de Deus, da Igreja de Cristo. Edom foi subjugado por Davi, mas se revoltou sob Jeorão (2 Cr 21: 8-10), filho de Josafá; e em todas as oportunidades subseqüentes tentou ferir Judá. Edom foi conquistado em 736 AC por Tiglate-Pileser III (745-727 AC), conforme as inscrições assírias deste rei, encontradas pelos arqueólogos. Foi destruído por Nabucodonosor em 581 AC, cinco anos depois do cativeiro de Judá pela Babilônia (Ml 1: 2). Depois, caiu nas mãos dos persas (539 AC) e no séc. III AC foi dominado pelos Nabateus (árabes), que acabaram por empurrar os habitantes de Edom para o sul da Judéia, e que mais tarde, foi chamado Iduméia. Judas Macabeu subjugou os edomitas (séc. II AC) e João Hircano I (séc. II-I AC) os obrigou a circuncidar-se para poderem ser incorporados pelo povo judeu. Herodes, o Grande, descendia dos edomitas. O povo de Edom definitivamente foi destruído por Tito em 70 DC.
Como símbolo dos inimigos espirituais da igreja de Cristo, Edom será completamente destruído na segunda vinda do Senhor.
Assim, os dois países sofreram o juízo de Deus e as profecias foram cumpridas (Is 19: 1-25; Jl 3: 19, além das profecias de Jeremias).

• v. 20: ‘Judá, porém, será habitada para sempre, e Jerusalém, de geração em geração’ – Deus cumpriu Sua promessa de restauração de Israel por meio desses profetas com a 1ª vinda de Jesus, por exemplo, em Amós, onde fala sobre restaurar o tabernáculo caído de Davi, o que diz respeito ao Israel espiritual e uma profecia sobre a futura conversão dos gentios (Am 9: 11-12 cf. At 15: 16-18).

Como falei no versículo anterior, Judá é o símbolo do povo de Deus, da Igreja de Cristo, dos Seus redimidos. Daniel expressa o mesmo pensamento em outras palavras: Dn 7: 14; 18; 27; Dn 2: 44 (o significado da pedra que esmiúça os pés da estátua de Nabucodonosor, e que corresponde à igreja de Cristo). Jesus disse: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16: 18).

• v. 21: ‘Eu expiarei o sangue dos que não foram expiados, porque o Senhor habitará em Sião [NVI: Sua culpa de sangue, ainda não perdoada, eu a perdoarei. O Senhor habita em Sião!]’. ‘Expiarei o sangue dos que não foram expiados’ é uma profecia cumprida na cruz, através dos sofrimentos que Jesus passou. Quando a bíblia fala ‘culpa de sangue’ ou ‘culpa do sangue’ ela está se referindo ao derramamento de sangue inocente (Is 4: 4; Ez 22: 13; Ez 23: 37; 45; Ez 24: 7).
O Senhor eliminou de Judá a culpa pelos seus crimes de sangue (Is 1: 15), pois seus reis e príncipes derramaram sangue inocente naquela terra. Com Seu Espírito e Seu sacrifício Ele os perdoou e os purificou (Is 4: 4).

Conclusão:

Observando o perfil profético de Joel, podemos tirar a conclusão de que ele proclamou a impiedade do seu povo e o conclamou mais uma vez à aliança e ao compromisso com o Senhor, reforçando neles a idéia do inevitável juízo divino sobre todo o tipo de pecado. Mesmo tendo vivido muito tempo depois de outros irmãos que trouxeram a Israel a mesma mensagem de YHWH, e que foi rejeitada e desobedecida, esse profeta obedeceu à voz do Altíssimo para exortar novamente o Seu povo; ele não desistiu de clamar, continuou a profetizar a Palavra de justiça, juízo, misericórdia e restauração, como uma forma de dizer que o Criador sempre nos dá uma nova chance de reavaliar a nossa vida, de repensar sobre as nossas atitudes e de exercer nosso livre-arbítrio, escolhendo entre a salvação e a punição. Por isso, o profeta de Deus não deve desistir de exortar, mesmo já tendo proclamado a mesma mensagem anteriormente, até que Ele execute aquilo que prometeu. Deve também chamar seus irmãos à aliança e à comunhão com seu Criador, assumindo o perfeito compromisso de ser Seu instrumento na terra. Muitas vezes, é o exemplo de vida do profeta a melhor maneira de testemunhar que o que prega é real e verdadeiro e de poder revelar ao mundo o seu Deus.

Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti

Sugestão para download:

tabela de profetas AT

Tabela dos profetas (PDF)

Table about the prophets (PDF)


livro evangélico: Profeta, o mensageiro de Deus

Profeta, o mensageiro de Deus

Prophet, the messenger of God


Este texto se encontra no 1º volume do livro:


livro evangélico: Os profetas menores

Os profetas menores vol. 1

Os profetas menores vol. 2

Os profetas menores vol. 3

The minor prophets vol. 1

The minor prophets vol. 2

The minor prophets vol. 3

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