Jesus falou sobre Seu próprio sacrifício poucas horas antes de morrer, no cenáculo, e ensinou o significado de humildade, serviço e santificação. Ao lavar seus pés, Jesus fez o que apenas os criados faziam. Assim como o beijo e o óleo, lavar os pés era um ritual costumeiro entre os judeus quando recebiam um visitante em suas casas.


Jesus lava os pés dos discípulos




“Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus, sabendo este que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, e este lhe disse: Senhor, tu me lavas os pés a mim? Respondeu-lhe Jesus: O que eu faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não te lavar, não tens parte comigo. Então, Pedro lhe pediu: Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça. Declarou-lhe Jesus: Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais, está todo limpo. Ora, vós estais limpos, mas não todos. Pois ele sabia quem era o traidor. Foi por isso que disse: Nem todos estais limpos. Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que o seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem aventurados sois se a praticardes. Não falo a respeito de todos vós, pois eu conheço aqueles que escolhi; é, antes, para que se cumpra a Escritura: Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar. Desde já vos digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que EU SOU. Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe recebe aquele que me enviou” (Jo 13: 1-20).

Jesus falou sobre Seu próprio sacrifício poucas horas antes de morrer, no cenáculo, como uma forma de preparar os discípulos para o que haveria de vir e ensiná-los sobre o propósito de tudo aquilo. Falou do sangue da aliança que seria derramado para remissão dos pecados. Uma particularidade interessante que podemos notar na Última Ceia, além de prepará-los para a Sua crucificação e fazê-los entender o verdadeiro sentido da Páscoa, se refere aos ensinamentos que ali foram dados. Em Jo 13: 1-20 o Senhor lhes ensina o significado real de humildade e serviço, assim como de santificação para depois receberem o Espírito Santo. Aqui Jesus lavou os pés deles, algo que apenas os criados faziam para os visitantes. Da mesma forma que o beijo e o óleo, lavar os pés era um ritual costumeiro entre os judeus quando recebiam um visitante em suas casas (Jo 12: 3: “Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo”). Esta Maria não era Maria Madalena, como muitos pregam, mas Maria, irmã de Marta e Lázaro. Veja em Jo 11: 2: “Esta Maria, cujo irmão Lázaro estava enfermo, era a mesma que ungiu com bálsamo o Senhor e lhe enxugou os pés com seus cabelos” e Jo 12: 1-3: “Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, onde estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos. Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam com ele à mesa. Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume de bálsamo”. Podemos ver o mesmo episódio ser descrito em Lc 7: 37-38; 44-46: “E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com ungüento... E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés”.

Ensinamentos

1) Pé se refere a “base, pedestal”, principalmente no lavatório do tabernáculo (Êx 30: 18-19: “Farás também uma bacia de bronze com seu suporte de bronze, para lavar. Pô-la-ás entre a tenda da congregação e o altar e deitarás água nela. Arão e seus filhos lavarão as mãos e os pés”).

a) A palavra pé, em hebraico, Rêgel (רגלך; às vezes escrita como ‘reguel’ ou ‘raghl’; da raiz: rgl), significa ‘estar firme’ e indica, tanto no grego (‘podas’ ou ‘pous’ – Strong #4228) como no hebraico, posição, destino, inclinação do indivíduo:
• Pv 6: 18: “... pés que se apressam a correr para o mal...” (em relação às seis coisas que o Senhor aborrece).
• Pv 3: 23: “Então, andarás seguro no teu caminho e não tropeçará o teu pé”.

b) Simboliza também derrota dos inimigos, quando o vencedor põe o próprio pé sobre o pescoço do inimigo vencido:
• Js 10: 24: “Trazidos os reis a Josué, chamou este todos os homens de Israel e disse aos capitães do exército que tinham ido com ele; chegai, ponde o pé sobre o pescoço destes reis. E chegaram e puseram os pés sobre os pescoços deles”.
• 1 Co 15: 25: “Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés”.
• Sl 110: 1: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés”.

c) Na bíblia, cair aos pés de alguém significa homenagem ou súplica (Lc 8: 41, quando Jairo suplica a Jesus que vá curar sua filha).

d) Sentar-se aos pés de alguém significa discipulado, aprendizado (Lc 10: 39, em referência a Maria, irmã de Marta, que se assentava aos pés de Jesus para aprender com Ele).

e) Lançar algo aos pés de alguém significa oferta a esse alguém, por exemplo, o cego de Jericó, Bartimeu, que se assentava à beira do caminho, esperando que lhe dessem uma esmola ou oferta (Mc 10: 46).

f) Lavar os pés do visitante era para tirar a poeira das estradas, sinal de asseio, conforto e hospitalidade geralmente feito pelos escravos mais vis.

g) Em Rt 4: 7-8 podemos ver também o significado de tirar o calçado, que era para as negociações entre os resgatadores de alguém a ser resgatado. E em Êx 3: 5 e Js 5: 15, quando o Senhor diz a Moisés e a Josué, em ocasiões diferentes, para tirar as sandálias dos pés, está implícita a ligação entre tirar os sapatos e se entregar, se render, sinal de submissão e respeito: “Tira as sandálias dos pés, pois o lugar que estás é terra santa”. Sandálias dizem respeito a: autoridade, ocupação, posse material.

Dessa forma, além de ensinar a humildade aos discípulos nesse ato de lavar seus pés, Jesus estava lhes mostrando que Deus deseja nos conduzir por caminhos direitos, limpos da contaminação do mundo, em outras palavras, nos ensinando a caminhar em santidade e reverência a Ele, tendo, assim, a autoridade de pisar na cabeça do inimigo e tomar posse das nossas ‘bênçãos’.

2) O segundo ensinamento está nos versículos de 6 a 11. Quando Jesus foi lavar os pés de Pedro, ele recusou. A princípio, pareceu uma atitude de reconhecimento da superioridade de Jesus, que não deveria fazer uma coisa geralmente feita apenas por escravos. Isso demonstrou, em primeiro lugar, o desconhecimento de Pedro das coisas espirituais, tanto é que Jesus lhe disse: “O que eu faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois”. Ele queria dizer que o que estava fazendo era profético, não só para um futuro imediato quando explicou a eles o significado de ter lhes lavado os pés com água, mas também se referindo a um futuro distante onde todos os crentes teriam que repetir este mesmo ato de uns para com os outros. Em segundo lugar, a atitude de Pedro veio nos mostrar o que acontece com todo ser humano. A arrogância e o orgulho (que se manifestam no desejo de ser independente de Deus, de fazer tudo sem a Sua ajuda) fazem parte da nossa natureza carnal desde a queda de Adão e Eva, a começar pelo desejo de ter o mesmo conhecimento e a mesma sabedoria que Ele. Ainda hoje, a disputa pela revelação divina invade o coração do homem, em maior ou menor grau, gerando diferentes níveis de idolatria. Mesmo quando passamos pelas dificuldades e angústias, a nossa carne resiste ao consolo do Espírito Santo. Jesus chamou a atenção de Pedro para este detalhe quando lhe respondeu: “Se eu não te lavar, não tens parte comigo”. Ele quer que, mesmo sendo imperfeitos, busquemos a santificação para podermos continuar na posição de filhos que dão o real valor à salvação que receberam. Portanto, o segundo ensinamento pode ser resumido em poucas palavras: quando temos um desconhecimento das coisas espirituais, há também um desconhecimento das nossas deformações carnais e vice-versa. Jesus continua a conversa com Pedro, dizendo: “Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais, está todo limpo”. Isso para confirmar a revelação que nos foi dada no primeiro ensinamento: para que eles dependessem única e exclusivamente do Pai e pudessem permanecer firmes no que tinham aprendido nos três anos de peregrinação com Jesus; que pudessem andar por caminhos direitos, limpos da contaminação do mundo, guardar tudo o que tinham recebido e conquistado e ter a autoridade de pisar na cabeça do inimigo, a fim de tomarem posse das suas bênçãos. Ele disse: “Eu conheço aqueles que escolhi”, isto é, Ele conhece o mais profundo do nosso coração.

3) O terceiro ensinamento é: somos instrumentos divinos e, quem nos recebe, recebe Jesus também; e quem o recebe, recebe o Pai. Quem rejeita a Sua Palavra através de nós, está rejeitando o Filho e o Pai, portanto, a vida eterna. Jesus já tinha dito em alguns versículos anteriores (Jo 12: 48-50): “Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia. Porque eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. As coisas, pois, que eu falo, como o Pai mo tem dito, assim falo”.

4) O quarto ensinamento é que no reino de Deus as coisas são diferentes das do mundo. Aqui, o menor é quem serve e quem é poderoso manda. No reino de Deus, quem serve é o maior de todos, pois se assemelha a Jesus. A bíblia fala que, se sofremos com Ele, também com Ele seremos glorificados (Rm 8: 17 b). Também está escrito: “Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas, entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10: 42-45). Portanto, este item nos ensina a ser servos para podermos ser grandes diante de Deus.

5) O quinto ensinamento é ter fé e confiança em Deus e no Seu julgamento. O que não compreendemos agora, nós compreenderemos depois, pois tudo tem um propósito. Às vezes, não entendemos o Seu trabalhar na nossa vida e porque passamos por certas experiências, entretanto, se nos entregarmos totalmente a Ele, poderemos ter a certeza de que todas as coisas vão se tornar claras mais tarde. O que Ele está fazendo é nos preparar para algo grande e que vai ser bom para nós, trazendo igualmente a Sua bênção sobre outros.

6) O sexto ensinamento é saber que ser humilde é estar cônscio da carência e da dependência de Deus, é ser como criança e estar ciente da necessidade de crescer e aprender sempre com Ele. É saber que só Ele é capaz de nos suprir. Não deve ser confundida com servidão, escravidão, ignorância, miséria ou qualquer outra situação maligna que possa atingir a vida financeira; insegurança, indecisão ou falta de autoridade. Não depende de classe social, mas do crescimento espiritual verdadeiro que decorre do conhecimento do caráter divino, adquirido no contato constante com o Espírito Santo. Usando todo o poder divino que tinha, Jesus era humilde porque sabia que, como homem, o que fazia e ensinava vinha do Pai e dependia Dele para tudo. Ele mesmo dizia: “O meu ensino não é meu, e sim daquele que me enviou” (Jo 7: 16).

Os discípulos precisavam receber estes ensinamentos e muitos outros que lhes foram dados por Jesus até Ele chegar ao Getsêmani, a fim de poderem passar pela dor de cabeça erguida e para enfrentar, como nós, suas próprias cruzes. A cruz era o chamado, a vocação de Cristo. Para exercermos o nosso chamado, também precisamos saber o que é entrega, humildade e santidade.

Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti


Jesus lavou os pés dos discípulos

Este texto se encontra nos livros:


livro evangélico: Ensinos, curas e milagres

Ensinos, curas e milagres

Teachings, healings and miracles


livro evangélico: Cruz, sacrifício único ou diário?

Cruz, sacrifício único ou diário?

Cross, single or daily sacrifice?

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