Aprendizados com a mulher Cananéia (Siro-Fenícia), cuja filha endemoninhada foi liberta por Jesus. Mesmo não sendo judia, ela acreditou em Jesus e pediu libertação para sua filhinha. Jesus viu sua fé e libertou a menina. Quem eram os Cananeus (Siro-Fenícios)?


A mulher Cananéia


“Partindo Jesus dali [de Genesaré, ou seja, da Galiléia], retirou-se para os lados de Tiro e Sidom. E eis que uma mulher cananéia, que viera daquelas regiões, clamava: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada. Ele, porém, não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, aproximando-se, rogaram-lhe: Despede-a, pois vem clamando atrás de nós. Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me! Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã” (Mt 15: 21-28 cf. Mc 7: 24-30 – a mulher siro-fenícia).

Os cananeus (assim como os heteus, os amorreus, os fereseus, os heveus, os jebuseus e os girgaseus) foram os primeiros moradores da Terra Prometida antes de Israel chegar. Eles habitavam na região próxima ao Grande Mar (Mar Mediterrâneo) até o Norte, por isso também eram chamados de Siro-Fenícios. Nos tempos do AT, a Fenícia era chamada de Canaã, e seus habitantes, Cananeus, que significa ‘comerciantes’, ‘mascates’. Em grego, a Fenícia é chamada Phoiníkē, Φοινίκη, ‘terra das palmeiras’.

Ensinamentos

A mulher era de origem grega, portanto, não israelita. Um deus muito adorado em naquela terra era Eshmun ou Esmum, que em grego era chamado de Asklepios e, em latim, Esculápio, o deus da cura. Os judeus os chamavam de cachorrinhos. As nações sabiam que eles eram o povo escolhido; o problema era que a maioria dos da sua raça assumia uma postura orgulhosa e arrogante, desprezando todos os seres humanos que não eram selados por seu Deus e isso concorria bastante para a rivalidade entre os dois povos.

Portanto, nosso primeiro ensinamento é que falsos deuses não trazem solução para nenhum dos nossos problemas, só os agravam. A presença desses deuses cananeus provavelmente concorria para perpetuar a rivalidade entre judeus e povos de origem grega, não permitindo que a luz do entendimento chegasse até eles. Entretanto, aquela mulher teve os olhos do seu coração abertos, assim como o cego de Jericó, para ver em Jesus o Filho de Davi, o Messias prometido. Ela não era judia, mas cria Nele e, naquele momento, não só estava se repetindo o que acontecera no passado com Elias e a viúva da cidade de Sarepta (distrito de Sidom, na Fenícia, a mesma terra da mulher cananéia, por isso, não judia) que, ao crer no Deus de Israel na pessoa do profeta, conseguiu livramento para sua escassez de alimento e para a vida de seu filho, posteriormente ressuscitado pelo homem de Deus (1 Rs 17: 8-24); também era um ato profético do chamamento dos gentios por Jesus Cristo. A mulher cananéia deve ter refletido por muito tempo sobre a revelação que tivera a respeito da pessoa de Jesus para poder tomar uma decisão tão ousada como a de ir até Ele pedindo socorro. Ela começou a perceber que os deuses que o seu povo servia eram falsos deuses que nada podiam fazer para resgatar sua filhinha daquele tormento. Era mais provável que eles fossem a causa da possessão demoníaca da menina. O pecado de idolatria tinha gerado uma maldição sobre a sua vida e sobre a sua família. Com certeza, seu entendimento foi aberto pelo próprio Deus, permitindo que a cura da criança viesse a exaltar o nome do Seu Filho, destronando a idolatria naquela região e contribuindo para que a fé da mulher aumentasse. A cura fez dela um testemunho vivo não apenas entre seu povo como também entre os próprios judeus, dando-lhes igualmente uma lição de fé e humildade. Da mesma forma, a viúva de Sarepta lhes havia dado no passado.

O segundo ensinamento vem praticamente junto com o primeiro, no sentido de que uma rivalidade entre nações estava certamente sendo agravada pela presença das entidades que ali reinavam. Isso, para nós, quer dizer que no seio de uma família, quando não há adoração ao Deus verdadeiro, mas uma idolatria a muitos deuses, o que ocorre é separação, divisão, ódio e contenda, impedindo que o amor penetre nos corações trazendo a união. É sinal de que Jesus precisa passar por ali. Além disso, alguém dentro dessa família precisa ter coragem para seguir Jesus e destronar os “altares de Baal”.


A mulher Cananéia


Em terceiro lugar, quando existe um problema que nos incomoda há muito tempo, não podemos fazer caso do ridículo, pelo contrário, apesar de todos os comentários e obstáculos ao nosso redor, devemos gritar pela ajuda de Deus, buscando-o insistentemente até conseguirmos a vitória. A mulher, com certeza, passou por louca, abusada, no mínimo incômoda, pois seguia gritando atrás de Jesus, a ponto de perturbar os próprios discípulos. Ela não se importou com o que pensavam dela, porém se concentrou na sua necessidade e clamou ao Senhor. Nossa fé pode ser erroneamente interpretada pelos incrédulos, mas quando ela é honrada por Jesus nos abençoando com a cura e com a libertação, ela passa a ser veículo de transformação nos que estão à nossa volta e quebra as rivalidades e os preconceitos.

Em quarto lugar: a fé em ação nos faz superar todos os obstáculos internos e externos. A fé daquela mulher a fez superar, em primeiro lugar, o obstáculo interno do orgulho, dos costumes sociais colocados dentro de si, dos preconceitos pessoais, das mágoas e de outros sentimentos ruins que pudessem estar em seu coração devido à guerra entre nações. Tinha fé no poder existente em Jesus, mas poderia ter a incerteza de como Ele a trataria; apesar disso, preferiu arriscar a ser mal tratada, contanto que sua filha fosse liberta. Em segundo lugar, sua fé a levou a superar os obstáculos externos como a multidão, o pensamento coletivo existente na sua nação em relação aos judeus e seu orgulho, se achando melhores do que os outros povos (chamando-os de cachorrinhos).

Quinto: o Senhor muitas vezes nos desafia a querer mais Dele e prova a nossa perseverança e a nossa fé. Também nos faz ter certeza de que estamos curados de verdade. Jesus pode ter parecido cruel a princípio, pois Sua resposta pareceu estar provocando a mulher que já se sentia humilhada por estar ali falando com Ele. Entretanto, sua cura já havia sido conquistada antes, quando seu orgulho foi quebrado pela vontade de buscar o Mestre em Sua passagem por Sidom. A resposta de Jesus provou a perseverança e a fé existente no espírito da mulher, ao mesmo tempo em que deixou bem claro a ela que sua cura interior já era uma realidade. Ela creu, aceitou o desafio e saiu honrada.

Sexto: O Senhor nos usa como instrumentos de disciplina e ensino para outros também. Quando Jesus veio para exercer Seu ministério na terra, Deus não se achava feliz com o Seu povo. Estavam muito distantes Dele, tanto pela idolatria como pela religiosidade. Neste texto, Ele usou a pessoa mais improvável para ensinar e disciplinar os judeus. A fé ativa daquela mulher os confrontou com sua incredulidade e lhes revelou o que Ele gostaria de ver em Israel. Além disso, Ele lhes revelou o que faria no futuro com os outros povos que cressem em Seu Filho. Na verdade, Ele lhes mostrava que tinha vindo tanto para judeus quanto para gentios, enfim, para todos quantos o recebessem. Nós podemos dizer também que, como homem, Jesus foi reconfortado pela fé daquela mulher e sentiu Sua alma aliviada da perseguição e da hostilidade por parte do Seu próprio povo que o rejeitava e afrontava com a incredulidade deles (ver o texto anterior, onde Jesus enfrentou uma discussão com os anciãos judeus sobre suas tradições; eles vieram de Jerusalém para a Galiléia simplesmente para importuná-lo na Sua missão). Louvado seja Jesus que sofreu por nós e sentiu em Si mesmo a nossa humanidade e é o único que nos livra das perseguições e nos justifica das afrontas de pessoas carnais que, mesmo sem saber, se tornam um instrumento nas mãos do diabo contra nós.

Sétimo: um discípulo precisa ter discernimento espiritual e compaixão. Os discípulos estavam, provavelmente, tão preocupados com a própria segurança por estarem em território inimigo, que se esqueceram que Jesus estava no controle da situação; por onde Ele os conduzia, havia sempre um aprendizado. A princípio, eles se sentiram muito incomodados ao serem seguidos por aquela mulher gritando atrás deles. Além disso, era uma mulher e não tinha tanta liberdade assim de falar com um homem judeu, ainda mais por se tratar de um Rabi. Eles não tiveram o discernimento espiritual para perceberem que Jesus faria algo e estava permitindo tudo aquilo, senão, Ele mesmo já a teria repreendido. Também não tiveram compaixão por uma criança endemoninhada. Pensaram mais em si mesmos do que nas necessidades do seu semelhante. Qual não deve ter sido sua surpresa ao ver Jesus atender às súplicas da mulher! Muito provavelmente, a resposta brusca do Mestre deve ter causado um choque neles, fazendo-os calar sua própria alma para ouvir e ver as coisas com os olhos do espírito. Muitas vezes, como servos de Deus, ficamos, a princípio, um tanto incomodados com a reação daqueles que nos procuram, pois não compreendemos o porquê de estarmos passando por uma situação dessas. Entretanto, ao calarmos a voz da carne para darmos lugar ao trabalhar do Espírito, podemos perceber que, ao obedecer ao Senhor e aceitar Seus desafios, nós somos os primeiros a ser beneficiados. Portanto, um discípulo precisa estar atento aos sinais de Deus e ver a bênção divina escondida entre aquilo que parece ser uma maldição.

Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti

Este texto se encontra no livro:


livro evangélico: Ensinos, curas e milagres

Ensinos, curas e milagres

Teachings, healings and miracles

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