Estudo sobre a cura de um paralítico por Jesus em Cafarnaum. Jesus o curou diferentemente do paralítico no tanque de Betesda. Neste texto falaremos um pouquinho sobre os mestres da Lei: Saduceus, Fariseus e escribas.


O paralítico de Cafarnaum




“Dias depois, entrou Jesus de novo em Cafarnaum, e logo correu que ele estava em casa. Muitos afluíram para ali, tantos que nem mesmo junto à porta eles achavam lugar; e anunciava-lhes a palavra [em Lc 5: 17, está escrito: ‘Ora, aconteceu que, num daqueles dias, estava ele ensinando, e achavam-se ali assentados fariseus e mestres da lei, vindos de todas as aldeias da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém. E o poder do Senhor estava com ele para curar’]. Alguns foram ter com ele, conduzindo um paralítico, levado por quatro homens. E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o eirado no ponto correspondente ao em que ele estava e, fazendo uma abertura, baixaram o leito em que jazia o doente. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Filho, os teus pecados estão perdoados. Mas alguns dos escribas estavam assentados ali e arrazoavam em seu coração: Por que fala ele deste modo? Isto é blasfêmia! Quem pode perdoar pecados, senão um que é Deus? E Jesus, percebendo logo por seu espírito que eles assim arrazoavam, disse-lhes: Por que arrazoais sobre estas coisas em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados – disse ao paralítico: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. Então, ele se levantou e, no mesmo instante, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, a ponto de se admirarem todos e darem glória a Deus, dizendo: Jamais vimos coisa assim!” (Mc 2: 1-12 cf. Mt 9: 1-8; Lc 5: 17-26).

No tópico em que meditamos sobre a cura do paralítico no tanque de Betesda, descrevemos alguns aprendizados importantes. Vamos rememorá-los:

1) Quando estamos enfermos, seja do corpo, da alma ou do espírito, devemos buscar um lugar onde a misericórdia de Deus possa fluir e nos tocar com cura (Betesda = Casa de Misericórdia).
2) O pecado nos paralisa.
3) A fé anda junto com a ação.
4) Não devemos esperar que outros façam um trabalho que cabe a nós fazer, não precisamos ficar esperando que alguém nos conduza à verdade. O que precisamos fazer é deixar Jesus nos tocar e nos curar pela nossa fé, é buscá-lo pela nossa própria vontade e iniciativa.
5) Jesus é senhor do sábado.
6) Deus continua trabalhando, moldando Sua criação até hoje através das nossas vidas.
7) A palavra de Deus nos sara de qualquer tipo de doença.

Outros ensinamentos

Neste texto, podemos encontrar outros ensinamentos que vêm a complementar os descritos acima; além do mais, ele nos mostra que, mesmo se tratando de casos físicos parecidos (paralisia), as causas e as motivações aqui eram diferentes, portanto, seres humanos com doenças semelhantes têm dentro de si uma causa diferente para ela e, por isso, são tratados individualmente por Jesus.

1) Quando Jesus soube da prisão de seu primo João, deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum. A cidade se situava a Noroeste do Mar da Galiléia. Seu nome é proveniente do hebraico Kephar Nahüm (“Vila de Naum”); Naum (consolo). Era sede de coletores de impostos, e a presença de um centurião ali (Mt 8: 5; Lc 7: 2), pode ter significado que havia nela um posto militar romano. Jesus a condenou várias vezes pela falta de fé. A bíblia diz que na casa onde Jesus estava se achegaram fariseus, saduceus e escribas (Lc 5: 7). Os escribas, do hebraico Sõpherïm, também chamados doutores ou mestres da lei, eram técnicos no estudo da lei de Moisés (Torá). Surgiram depois do exílio babilônico e exerciam influência principalmente na Judéia, mas também podiam ser encontrados na Galiléia e entre a dispersão judaica. Foram os originadores do culto na sinagoga, juntamente com os Fariseus. Alguns deles eram membros do Sinédrio, que era um tribunal formado por sacerdotes, anciãos e escribas, o qual julgava as questões cerimoniais ou administrativas referentes a uma tribo ou a uma cidade, os crimes políticos importantes etc. Correspondia à Suprema Corte Judaica ou Tribunal de Justiça. Os escribas tiveram sua importância aumentada depois do ano 70 DC. Transmitiam fielmente as Escrituras hebraicas e esperavam de seus alunos uma reverência maior que a que prestavam a seus pais. Tinham tríplice função: a) Preservavam a lei. Eram estudiosos profissionais dela, seus guardiões e copiavam, muitas vezes, os manuscritos. b) Tinham discípulos e faziam conferências no templo. c) Eram chamados doutores da lei e mestres da lei, por serem juízes do Sinédrio. Não eram pagos pelo serviço que prestavam para ele; tinham que ganhar a vida por outros meios. Pertenciam ao partido dos fariseus, mas como um corpo, eram distintos deles. Os Fariseus controlavam a religião do Estado. Eram peritos em religião. Queriam atingir os fins espirituais por meios políticos e nunca deixavam de pensar no interesse público. Acreditavam que a lei oral existia e era tão autorizada e inspirada por Deus quanto a Torá ou lei escrita. Era um partido religioso judeu que se caracterizava pela oposição aos outros, fugindo-lhes do contato e pela observância exageradamente rigorosa das prescrições legais e das tradições que eles haviam estabelecido. Eram hipócritas aparentando uma santidade que não tinham. Os Saduceus opunham-se aos ensinos de Jesus e dos fariseus. Detinham o poder político no Sinédrio e negavam a ressurreição, anjos e espíritos.

Portanto, Jesus estava diante de uma tríplice oposição política e religiosa. A Palavra disse que Ele estava em Cafarnaum, numa “vila de consolo”, se nós traduzirmos o nome hebraico da cidade. Portanto, era um lugar propício para ser curado e se encontrar com Deus, pois ali se poderia achar o Seu consolo. Além disso, Lucas diz que naquele momento a unção de cura estava sobre Jesus. Ele estava fazendo, a princípio, algo arriscado: ensinava a palavra de Deus, não só ao povo como também a quem já se achava bastante entendido nela; eles estavam todos à Sua volta: fariseus, saduceus e escribas, não para aprender, mas para contender e discutir. Isso fazia como que uma muralha na frente daqueles que precisavam verdadeiramente da cura, pois não se sentiam livres para fazer perguntas ou para tocarem em Jesus e para receberem o Seu consolo; os poderosos tinham prioridade e, espiritualmente falando, eles estavam erguendo uma barreira ao entendimento daqueles que necessitavam de luz. Provavelmente, a multidão se comprimia como podia atrás deles e ao redor da casa, procurando ouvir Jesus, por isso o paralítico não tinha nenhuma chance de se aproximar. Assim, o primeiro ensinamento é: a religiosidade, a incredulidade e o orgulho daqueles que se acham superiores e entendidos na Palavra impedem os menores de receberem as bênçãos de Deus, pois criam uma dificuldade ao fluir do amor, do consolo, da misericórdia e da compaixão. Jesus expressou esse pensamento em outras palavras em Mt 23: 13: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!”

2) Direcionando o nosso raciocínio para o paralítico, podemos imaginar que ele já estava naquela situação há algum tempo e desejava ardentemente a cura. Provavelmente ouvira falar de Jesus e procurava ser tocado por Ele de qualquer jeito, não medindo esforços para isso. A bíblia fala que ele tentou se aproximar, mas não conseguiu por causa dos curiosos (aqui representados pela multidão) e por causa dos religiosos, que procuravam ter a atenção integral de Jesus para discutir o que não tinha interesse algum. O paralítico deve ter chamado seus amigos e conhecidos para ajudá-lo a chegar ao Mestre da maneira que fosse. Podemos imaginar o desespero deste homem ao se aproximar da casa e não ver sequer a mínima possibilidade de se encontrar com o Senhor. Deve ter gritado e implorado para que o ajudassem a ser curado. O evangelho diz que, então, os quatro homens que o tinham levado até ali, possivelmente os amigos mais íntimos, subiram no telhado da casa e fizeram uma abertura bem sobre o lugar onde Jesus estava pregando para poder colocar o paralítico frente a frente com o Senhor da cura. As casas na época de Jesus não tinham muita dificuldade de serem abertas pelo teto, pois este era comumente feito de uma camada grossa de barro, espalhado por cima de uma coberta de juncos apoiada sobre traves. Isso nos faz pensar que não era tão endurecido como os de hoje, que contém concreto, portanto, não tiveram realmente que quebrar o eirado, apenas remover as vigas e a palha. Este ato, por si só já deve ter interrompido a discussão entre Jesus e os mestres da lei, pois algum barulho foi feito. Jesus esperou para que o descessem, e os fariseus, saduceus e escribas devem ter achado um desrespeito serem interrompidos em algo “tão importante”. Mas Jesus estava ali para ensinar a verdade e curar os doentes, por isso deve ter se alegrado com o que via: ousadia para interromper o que na verdade não tinha importância alguma, a fim de liberar o poder de Deus para realizar o que tinha vindo fazer ali.


O paralítico de Cafarnaum


O número quatro é o número do evangelho, da Palavra, da relação entre o homem e Deus; para os judeus é símbolo de um número perfeito, do homem unido à Trindade: quatro lados da nova Jerusalém, quatro ordens de tribos, quatro letras no nome hebraico de Deus – YHWH. Em outras palavras, aqueles homens estavam munidos de fé na Palavra buscando uma união mais íntima entre Jesus e seu amigo; na verdade agiram como intercessores, isto é, através da sua fé em ação, abriram caminho para a cura divina vir sobre um necessitado. Portanto, o segundo ensinamento aqui é: quando precisamos demais de uma bênção e não estamos conseguindo vencer as barreiras espirituais sozinhos, precisamos de intercessores que nos abram caminho até o trono de Deus, onde estão a nossa salvação e a nossa cura. A nossa fé, aliada à fé dos que intercedem por nós, gera o milagre derrubando as barreiras da religiosidade que nos impõe regras para falar com Ele e as barreiras dos falsos ensinos que distorcem a simplicidade da Sua Palavra.

3) “Vendo-lhes a fé, Jesus lhe disse: Filho, os teus pecados estão perdoados”. Jesus viu a fé nele e se alegrou, pois esse movimento não só interrompeu a barreira da discussão religiosa, como permitiu a liberação da unção de cura que estava sobre Ele, pronta para ser derramada. É lógico que Jesus sabia que o paralítico viria, mas esperou pelo momento certo para revelar a todos o Seu poder e arruinar a soberba dos mestres da lei. Ele poderia primeiro curar fisicamente o homem, entretanto, perdoou-lhe os pecados antes para mexer com o que estava no coração dos religiosos. Muito provavelmente, Seu ensinamento teórico até aqui não conseguira mudar a maneira dura de pensar deles, por isso, esta era a hora de colocar a teoria em prática. A fé do homem fez com que Jesus tocasse diretamente na ferida, na causa daquela paralisia, que era o pecado, e que justificava a ansiedade do doente em ser tocado por Ele. A culpa e a sensação de acusação deveriam estar torturando-o mais do que a doença física propriamente dita. Para nós, fica o ensinamento: não adianta buscar apenas uma cura superficial (no corpo) através de médicos e remédios, mas uma cura profunda na alma, recebendo o perdão de Jesus, se for o caso, ou recebendo a Sua justiça e libertação de qualquer coisa que possa estar tentando nos paralisar. Em outras palavras: os fariseus falam bonito, suas orações têm aparência de poder curador, porém, curam superficialmente apenas; não atingem o profundo porque não mantêm intimidade com o Espírito Santo e não conhecem o coração de Deus, que tudo enxerga. O Senhor não deseja curas aparentes nos Seus filhos e sim, curas profundas e definitivas. “Deus não põe band-aid em fratura exposta. Coloca logo o bisturi”.

4) O Senhor conhece o mais profundo do nosso coração. Com a atitude acima de perdoar o homem, Jesus passou a tocar profundamente na ferida dos fariseus, saduceus e escribas que era a hipocrisia (Mt 16: 12 e Lc 12: 1 – o fermento dos fariseus) e a expôs diante dos seus próprios olhos. Ele quis lhes mostrar que o que eles faziam (curar superficialmente as pessoas através do engano e da futilidade dos seus ensinamentos e da sua doutrina) era fácil, como é mais fácil para muita gente hoje correr para o médico e tomar um remédio para qualquer sintoma ou marcar rapidamente uma cirurgia para se ver livre logo do problema, ao invés de buscar a cura verdadeira em Deus. Não é errado pedir socorro aos médicos, pois o Senhor os abençoou e os colocou na terra para nosso benefício; o que é errado é transformá-los em deuses e achar que é da responsabilidade deles resolver nosso caso. Com pastores é a mesma coisa; são transformados em “tábuas de salvação” para os que não querem lutar por si mesmos para sair do pecado. Pelo contrário, Deus não quer que tenhamos muletas, sejam elas médicos, pastores ou qualquer outra. Quer que nos responsabilizemos pelas nossas atitudes diante Dele e dos homens, sabendo que, se forem erradas, acarretarão problemas e doenças e não é num piscar de olhos que as curamos; se forem profundas, muito tempo vai ser usado para nos restaurar novamente e cabe a nós ter a vontade de sermos curados.

5) Quando a barreira espiritual é vencida, o físico está livre para ser restaurado. Foi, por isso, que Jesus o curou espiritualmente primeiro. Com as barreiras espirituais derrubadas, o físico estava aberto à bênção. Jesus disse: “Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados – disse ao paralítico: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa”.

Quando meditamos sobre essa frase, nós podemos ver que há dois pontos de vista. Do ponto de vista de Deus, que conhece os segredos do mundo espiritual e sabe o quanto o pecado pode prender uma vida para sempre, inclusive roubando-lhe a salvação, era mais fácil curá-lo fisicamente, pois ninguém a não ser Ele e Seu Filho tem autoridade para perdoar pecados e livrar uma pessoa do cativeiro do diabo. Mas do ponto de vista humano, especialmente dos escribas que o questionavam, era mais fácil dizer que os pecados daquele homem estavam perdoados porque qualquer um poderia dizer aquilo e ninguém poderia provar se era verdade ou não, uma vez que não era algo visível. Mas a cura física era algo visível e seria um sinal de que quem curava fisicamente o paralítico também tinha autoridade para perdoar pecados.

Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti

Este texto se encontra no livro:


livro evangélico: Ensinos, curas e milagres

Ensinos, curas e milagres

Teachings, healings and miracles

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