Explicação de Ezequiel capítulo 3: Ezequiel comeu o livro. Deus mesmo o impediu de falar por sete dias, e então ele recebeu seu comissionamento como atalaia.

Ez 3
1 Ainda me disse: Filho do homem, come o que achares; come este rolo, vai e fala à casa de Israel.
2 Então, abri a boca, e ele me deu a comer o rolo.
3 E me disse: Filho do homem, dá de comer ao teu ventre e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou. Eu o comi, e na boca me era doce como o mel.
A ato de comer o livro significa que Ezequiel deveria receber, internalizar e ‘digerir’ a Palavra de Deus antes de poder ser um mensageiro dessa palavra para a casa de Israel. Na verdade, ele não comeu um rolo físico, mas em visão, assim como aconteceu com João, Ezequiel recebeu a capacitação de Deus para absorver Sua palavra e transmiti-la àquele povo. Mais do que isso, ele teria que sentir o ‘sabor’ da palavra profética que viria, compreender o sentido, o motivo e o peso da profecia.
Ezequiel comeu o livro e, apesar das palavras duras, fortes e de ‘difícil digestão’ como as que ele viu escritas ali, o rolo pareceu doce como mel na sua boca. Embora seu ministério fosse difícil de desempenhar, essa descrição sugere que ele estava de perfeito acordo e que, pela sua obediência a Deus, ele conseguiria realizar sua missão. Em outras palavras, ele se deleitava com a Sua vontade.
4 Disse-me ainda: Filho do homem, vai, entra na casa de Israel e dize-lhe as minhas palavras.
5 Porque tu não és enviado a um povo de estranho falar nem de língua difícil, mas à casa de Israel;
6 nem a muitos povos de estranho falar e de língua difícil, cujas palavras não possas entender; se eu aos tais te enviasse, certamente, te dariam ouvidos.
7 Mas a casa de Israel não te dará ouvidos, porque não me quer dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obstinada e dura de coração.
O Senhor lhe ordenou que ele fosse à casa de Israel, seus compatriotas que estavam com ele no exílio, e lhes anunciasse a Sua palavra. Ele não estava sendo enviado aos gentios, mas aos próprios judeus que, por séculos, haviam rejeitado as palavras dos profetas. Rejeitando Seus profetas, eles O rejeitavam. E o Senhor assevera que eles não o ouviriam. Apesar disso, ele deveria falar e avisar, como atalaia que era.
8 Eis que fiz duro o teu rosto contra o rosto deles e dura a tua fronte, contra a sua fronte.
9 Fiz a tua fronte como o diamante, mais dura do que a pederneira; não os temas, pois, nem te assustes com o seu rosto, porque são casa rebelde.
10 Ainda me disse mais: Filho do homem, mete no coração todas as minhas palavras que te hei de falar e ouve-as com os teus ouvidos.
11 Eia, pois, vai aos do cativeiro, aos filhos do teu povo, e, quer ouçam quer deixem de ouvir, fala com eles, e dize-lhes: Assim diz o Senhor Deus.
Israel estava em rebelião e rejeitando a Deus. Mas o profeta precisava de uma capacitação muito maior de Deus para realizar sua missão e não sofrer tanto com a rejeição e a oposição severa daquelas pessoas. As palavras que ele tinha que pregar a eles eram duras e ainda tinha que resistir à fúria deles para não ser ferido também.
Assim, Deus prometeu revestir Ezequiel emocional e intelectualmente para lidar com a rejeição daquele povo. Seu rosto e sua testa seriam tão duros quanto os deles. Nada que eles pudessem fazer ou dizer o afetaria; pelo contrário, ele saberia como responder e como agir. Se eles eram duros em sua rebelião, Deus o faria mais duro em sua coragem e integridade, em sua fé nEle. A palavra não viria da boca de um homem, mas da boca de Deus (“Assim diz o Senhor Deus”).
12 Levantou-me o Espírito, e ouvi por detrás de mim uma voz de grande estrondo, que, levantando-se do seu lugar, dizia: Bendita seja a glória do Senhor.
13 Ouvi o tatalar das asas dos seres viventes, que tocavam umas nas outras, e o barulho das rodas juntamente com eles e o sonido de um grande estrondo.
14 Então, o Espírito me levantou e me levou; eu fui amargurado na excitação do meu espírito; mas a mão do Senhor se fez muito forte sobre mim.
15 Então, fui a Tel-Abibe, aos do exílio, que habitavam junto ao rio Quebar, e passei a morar onde eles habitavam; e, por sete dias, assentei-me ali, atônito, no meio deles.
No v. 15 está escrito que o profeta foi ao povo que estava em Tel-Abibe, junto ao rio Quebar, mas na verdade ele já estava lá, pois ali que começou a visão, foi ali que a glória do Senhor se mostrou a ele e ele viu os querubins. Isso pode entendido da seguinte maneira: o profeta estava em espírito ali na presença de Deus, num êxtase, podemos dizer assim, mas talvez relutante em sair dali e iniciar sua difícil missão. Então o Espírito do Senhor ‘o levantou’ (Ez 3: 12,14) e ele começou a prestar atenção novamente ao que estava à sua volta; primeiro os querubins, movimentando suas asas, depois o barulho das rodas e o ruído das vozes de louvor, como um grande estrondo dizendo: “Bendita seja a glória do Senhor”. Eles estavam ali o tempo todo, mas a atenção de Ezequiel estava totalmente voltada à voz do Senhor e ao chamado de que ele estava sendo incumbido. Na última etapa (v.14), o Espírito ‘o levantou’ e o trouxe de volta à sua realidade terrena, e ele disse que se sentiu amargurado na excitação do seu espírito.
A Palavra de Deus era doce para Ezequiel (Ez 3: 3), mas ele logo experimentou alguma amargura ao cumprir seu chamado. Independentemente da causa, Ezequiel estava amargo, zangado.
‘Amargurado’ neste texto em hebraico é ‘mar ou marah’ (מָר, Strong #4751), de ‘marar’, que significa: amargo (literal ou figurativamente); amargura, ou amargamente; zangado, irritado, descontente, grande, pesado.
‘Na excitação do meu espírito’ ou ‘meu espírito cheio de ira’ – ‘excitação’ ou ‘ira’, no texto hebraico é ‘chemah’ (חֵמָה, Strong #2534) ou ‘chemac’ (Dn 11: 44), originado de yacham, que significa: calor; desagrado intenso, furioso, furiosamente, fúria, calor, indignação, veneno, raiva, fúria.
Talvez ele estivesse sentindo o peso do juízo que teria de anunciar, o estado espiritual deplorável do povo, e mesmo assim tendo que ser sustentado pelo Senhor para não recuar. Ou talvez, ele estivesse sentindo a amargura do seu chamado, aparentemente frustrante, e a ira do próprio Deus em relação aos pecados do seu povo. Seu espírito estava sintonizado com a vontade de Deus, e portanto, com Seus sentimentos também.
Então, no versículo 15, a bíblia diz que ele se assentou ali no meio deles por sete dias, atônito.
‘Atônito’ neste texto em hebraico é ‘shamem’ (שָׁמֵם, Strong #8074), uma raiz primitiva que significa: atordoar (ou intransitivamente, ficar entorpecido), isto é, devastar ou (figurativamente) estupefato (ambos geralmente em sentido passivo); tornar admirado, ficar espantado, espantar, espanto, (ser, trazer, colocar, deitar, tornar) desolado, desolação, ficar destituído, destruir (a si mesmo), tornar devastado, maravilhar-se.
Isso significa que ele ficou surpreso, admirado, abismado, atordoado; um pouco diferente de irado ou amargurado. Portanto, a visão que Ezequiel teve, as revelações que recebeu e a responsabilidade do cargo que teria que desempenhar o deixaram como que ‘fora de si’, precisando de um tempo para ‘pôr a cabeça em ordem’, algo bastante compreensível em se tratando de visões proféticas tão intensas como esses homens de Deus tiveram. Qualquer coisa semelhante que acontecesse com qualquer ser humano afetaria profundamente o espírito. Foi um tempo de reflexão e observação.
Mais do que isso, os sete dias em silêncio entre os cativos mostram que a palavra profética não poderia ser proferida precipitadamente, mas de um homem que foi quebrantado, impressionado e preparado diante de Deus, entendendo plenamente a dura realidade do seu povo.
16 Findos os sete dias, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
17 Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte.
18 Quando eu disser ao perverso: Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para o advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na sua iniqüidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei.
19 Mas, se avisares o perverso, e ele não se converter da sua maldade e do seu caminho perverso, ele morrerá na sua iniqüidade, mas tu salvaste a tua alma.
20 Também quando o justo se desviar da sua justiça e fizer maldade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá; visto que não o avisaste, no seu pecado morrerá, e suas justiças que praticara não serão lembradas, mas o seu sangue da tua mão o requererei.
21 No entanto, se tu avisares o justo, para que não peque, e ele não pecar, certamente, viverá, porque foi avisado; e tu salvaste a tua alma.
Depois de sete dias, ele ouviu a voz do Senhor nomeando-o como atalaia no meio do Seu povo. Um atalaia avisa o povo de algo por vir. Assim também era o dever do profeta. Essa era uma grande responsabilidade, porque o pecado de omissão da sua parte traria conseqüências ruins para todos, inclusive para ele mesmo.
22 A mão do Senhor veio sobre mim, e ele me disse: Levanta-te e sai para o vale, onde falarei contigo.
23 Levantei-me e saí para o vale, e eis que a glória do Senhor estava ali, como a glória que eu vira junto ao rio Quebar; e caí com o rosto em terra.
Ele foi para o vale e viu novamente a glória do Senhor e caiu com o rosto em terra.
24 Então, entrou em mim o Espírito, e me pôs em pé, e falou comigo, e me disse: Vai e encerra-te dentro da tua casa [NVI: Vá para casa e tranque-se].
25 Porque, ó filho do homem, eis que porão cordas sobre ti e te ligarão com elas; e não sairás ao meio deles [NVI: Pois você, filho do homem, será amarrado com cordas; você ficará preso e não conseguirá sair para o meio do povo].
26 Farei que a tua língua se pegue ao teu paladar, ficarás mudo e incapaz de os repreender; porque são casa rebelde.
27 Mas, quando eu falar contigo, darei que fale a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor Deus: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir deixe; porque são casa rebelde.
Deus lhe avisou sobre a resistência deles (“eis que porão cordas sobre ti”). A resistência do povo estreitava e travava o exercício livre da palavra. Quem não sentiu isso ainda? Nós sentimos quando alguém ouve a palavra de Deus com alegria ou quando há uma barreira invisível para que ela seja recebida.
Como profeta, ele teria que falar. E isso parece uma contradição com os que está escrito agora, pois Deus mesmo o impediria de falar, sem poder repreender o povo: “Farei que a tua língua se pegue ao teu paladar, ficarás mudo e incapaz de os repreender; porque são casa rebelde”.
Isso significa que ele não poderia falar suas próprias palavras, mas as palavras de Deus a eles. Não os poderia repreender por si mesmo; apenas quando o Senhor lhe dissesse o que falar: “Mas, quando eu falar contigo, darei que fale a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor Deus: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir deixe; porque são casa rebelde”.
O profeta não diz apenas o que Deus quer, mas também fala apenas quando Deus ordena. O isolamento do profeta em sua casa e seu silêncio, por si só, já eram uma mensagem a ser transmitida para o povo: “Vai e encerra-te dentro da tua casa” [NVI: Vá para casa e tranque-se]. Ela poderia significar a condenação de Deus e a sensação de impotência que viriam sobre Israel, sem uma palavra da parte do profeta, ilustrando Seu silêncio para com Seu povo, como aconteceu de novo nos 400 anos de silêncio do Período Intertestamentário, após a morte do profeta Malaquias. E a própria bíblia dá a resposta: “porque são casa rebelde”.
Já que Israel não tinha consideração pela Palavra de Deus, então eles ficariam sem ouvir mais nada, por isso o Senhor disse a Ezequiel para se calar. O comentário de certos estudiosos dizendo que o profeta passou sete a oito anos sem falar nada não é razoável. O episódio todo desse silêncio ‘total’ deve ter durado alguns dias, e depois Ezequiel falaria apenas o que o Senhor lhe mandasse e quando Ele mandasse, pois os ouvidos do Seu povo estavam endurecidos à repreensão, à correção e à compreensão das razões de Deus sobre o juízo que viria.
Quando Deus deixa de falar, de repreender, de ensinar é um mau sinal. É um dos símbolos mais severos do Seu desagrado. E isso não favorece o pecador; pelo contrário, é uma forma de entregá-lo à sua própria sorte, a condenação. O profeta Oséias escreveu algo muito parecido em relação a Efraim, que rejeitava a palavra de Deus tentando tirá-los dos ídolos: “Efraim está entregue aos ídolos; é deixá-lo” (Os 4: 17).
Essa experiência de Ezequiel é também um ensinamento para nós, quando o Senhor nos faz calar ao invés de continuarmos com a nossa tentativa de convencer uma pessoa do seu erro. Quando alguém rejeita a nossa palavra como servos de Cristo, ela não está rejeitando a nós e sim a Deus (“Quem vos der ouvidos ouve-me a mim; e quem vos rejeitar a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me enviou” – Lc 10: 16). Portanto, Ele mesmo se defenderá da afronta. Isso nos liberta e nos ensina a ser simplesmente semeadores da Sua palavra do que insistirmos em bater com nossa enxada em pedra. Nós lançamos a palavra de Deus e saímos voando como pombas deixando que a própria terra por si mesma frutifique, como Jesus nos ensinou (“A terra por si mesma frutifica: primeiro a erva, depois, a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga” – Mc 4: 28).
Por isso eu escrevi na introdução do livro: “Muitas vezes o silêncio do profeta é disciplina de Deus para quem precisa se voltar a Ele”.
O único pecado que não devemos cometer como atalaias é a omissão.
Esse vídeo é parte do curso bíblico (link dourado no alto das páginas).



Table about the prophets (PDF)
Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti
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