Explicação de Ezequiel capítulo 28: profecia e lamentação contra o rei de Tiro (Itobal III, 591–573 AC). Seu orgulho o levaria à sua queda, como aconteceu com Satanás (Lúcifer), o querubim ungido. Profecia contra Sidom.

1 Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
2 Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro [NVI: governante de Tiro]: Assim diz o Senhor Deus: Visto que se eleva o teu coração, e dizes: Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no coração dos mares, e não passas de homem e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus —
3 sim, és mais sábio que Daniel, não há segredo algum que se possa esconder de ti [NVI: “Você é mais sábio que Daniel? Não haverá segredo que lhe seja oculto?”];
4 pela tua sabedoria e pelo teu entendimento, alcançaste o teu poder e adquiriste ouro e prata nos teus tesouros;
5 pela extensão da tua sabedoria no teu comércio, aumentaste as tuas riquezas; e, por causa delas, se eleva o teu coração —,
Agora o enfoque da profecia está sobre o rei de Tiro. Ele se achava um deus.
Segundo Flávio Josefo e Filóstrato (Lúcio Flávio Filóstrato, filósofo grego séc. II-III), trata-se de Itobal III (em hebraico: Etbaal III, 591–573 AC), que reinou durante o cerco de Nabucodonosor a Tiro (586-573 AC). Itobaal III significa: ‘Com Baal’. Cogita-se que Itobaal III sobreviveu durante o cerco, mas foi morto ou removido do poder e Baal II foi colocado no trono como um monarca vassalo dos babilônios. Flávio Josefo escreveu que Baal II (573-564/563 AC) foi deposto quando a monarquia em Tiro foi temporariamente substituída por um governo oligárquico de juízes por algumas décadas, até o reinado de Ciro [Flávio Josefo, Contra Ápio, livro I, § 21].
Em Ez 28: 3 há uma referência a ele ser mais sábio do que Daniel. O profeta Daniel era um contemporâneo bem conhecido de Ezequiel na corte da Babilônia, por sua sabedoria. Muitos já tinham ouvido falar nele.
Apesar das versões bíblicas escreverem o v.3 de formas diferentes, como por exemplo na NVI, colocando um ponto de interrogação no final da frase, a frase é muito provavelmente, uma afirmação irônica da parte de Deus, em se tratando de um rei arrogante, que se achava sábio e um deus também, com um espírito semelhante ao da serpente no Éden, conversando com Eva.
O rei de Tiro se orgulhava da sua sabedoria e perspicácia no comércio. Na verdade, seu espírito de orgulho era igual ao de Lúcifer.
6 assim diz o Senhor Deus: Visto que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus,
7 eis que eu trarei sobre ti os mais terríveis estrangeiros dentre as nações, os quais desembainharão a espada contra a formosura da tua sabedoria e mancharão o teu resplendor.
8 Eles te farão descer à cova, e morrerás da morte dos traspassados no coração dos mares [NVI: Eles o farão descer à cova, e você terá morte violenta no coração dos mares].
9 Dirás ainda diante daquele que te matar: Eu sou Deus? Pois não passas de homem e não és Deus, no poder do que te traspassa.
10 Da morte de incircuncisos morrerás, por intermédio de estrangeiros, porque e o falei, diz o Senhor Deus [NVI: Você terá a morte dos incircuncisos nas mãos de estrangeiros. Eu falei. Palavra do Soberano, o SENHOR”].
Por isso, Deus não apenas repreendia a arrogância humana, mas lembrava Seu povo da rebelião espiritual dos anjos caídos contra Deus. Então, o Senhor volta a profetizar sobre sua destruição pela espada de um povo estrangeiro. Ele desceria à cova como qualquer mortal.
11 Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
12 Filho do homem, levanta uma lamentação contra o rei de Tiro e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura [NVI: Você era o modelo da perfeição, cheio de sabedoria e de perfeita beleza].
13 Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se te fizeram os engastes e os ornamentos [engaste é um aro ou guarnição de metal que segura a pedraria nas jóias]; no dia em que foste criado, foram eles preparados [NVI: Seus engastes e guarnições eram feitos de ouro; tudo foi preparado no dia em que você foi criado].
14 Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas [NVI: Você foi ungido como um querubim guardião, pois para isso eu o designei. Você estava no monte santo de Deus e caminhava entre as pedras fulgurantes].
15 Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti.
16 Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras [NVI: Por meio do seu amplo comércio, você encheu-se de violência e pecou. Por isso eu o lancei, humilhado, para longe do monte de Deus, e o expulsei, ó querubim guardião, do meio das pedras fulgurantes].
17 Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem.
18 Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio, profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu, e te reduzi a cinzas sobre a terra, aos olhos de todos os que te contemplam.
19 Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; vens a ser objeto de espanto e jamais subsistirás.
Ezequiel 28: 11-19 faz uma lamentação contra o rei de Tiro (ver Ez 31: 10,18; Is 14: 12-15).
Ele fala aqui da queda do próprio Satanás, antes conhecido como Lúcifer. E essa é uma comparação muito boa com o orgulho do rei de Tiro. Ou pode se tratar de uma palavra direta contra o Príncipe das trevas que estava governando espiritualmente o rei de Tiro.
Essa idéia de se dirigir a um Principado das Trevas por trás de um governante terreno é similar à que foi usada em Is 14: 12-14 em relação ao rei da Babilônia, onde a profecia vai além da repreensão a um simples governante terreno e descreve o próprio Satanás. Em Daniel 10:10-20, o anjo Miguel descreveu sua batalha com um oponente espiritual que ele chamou de príncipe da Pérsia.
• Ez 28: 12: O profeta começa dizendo que Lúcifer era o modelo da perfeição (“tu és o sinete da perfeição”), cheio de sabedoria e beleza. Ele estava no Jardim do Éden com Deus e se cobria de pedras preciosas, e elas estavam engastadas em ouro. Essa é a descrição de um ser superior a qualquer rei humano terreno; um ser de grande perfeição, sabedoria e beleza.
“Sinete de perfeição” se refere ao significado de um selo. Eles eram símbolos de autoridade e autenticidade. Possuir o selo de alguém superior era uma grande honra, pois essa pessoa era autorizada a assinar documentos em seu nome. Isso foi o que aconteceu com Assuero, Hamã e Mordecai.
• Ez 28: 13: “Estavas no Éden, jardim de Deus” – Essas palavras são obviamente dirigidas a Satanás, que no Jardim do Éden se manifestou na forma de serpente. O poder por trás do príncipe de Tiro – o verdadeiro rei de Tiro – era o próprio Satanás, o grande adversário de Deus e da humanidade. As pedras preciosas são símbolos de grande glória e esplendor, que ele tinha antes da sua queda.
• Ez 28: 14a: “Tu eras querubim da guarda ungido” ou “Você foi ungido como um querubim guardião” – antes de sua queda, Satanás era um dos seres angelicais que circundavam o trono de Deus (como os querubins mencionados em Ezequiel 1), protegendo Sua santidade, da mesma forma que os querubins mantinham suas asas estendidas sobre o propiciatório da Arca da Aliança. Ele foi ungido para ser um querubim guardião e estava no monte santo de Deus (a Sião celestial, Hb 12: 22: o monte de Deus, Sião, como uma representação do céu).
• Ez 28: 14b: “No brilho das pedras andavas” ou “caminhava entre as pedras fulgurantes” – isso significa que nesse lugar privilegiado, Satanás tinha grande liberdade de movimento, entre os outros querubins e serafins (Is 6: 2).
Os serafins (literalmente: “seres ardentes” ou “seres de fogo) lideram a adoração no céu e protegem a santidade de Deus. Os querubins são guardiões do Trono de Deus. São anjos que refletem a beleza do Criador, e com grande força de conhecimento, sabedoria e iluminação divina; são conhecedores dos mistérios divinos (“cheios de olhos”).
• Ez 28: 15: Ele era inculpável em seus caminhos até que se achou maldade nele. O orgulho de Lúcifer por causa de sua formosura, o espírito competitivo (‘comércio’) e seu desejo de ser exaltado acima dos outros anjos (Is 14: 13-14) corrompeu sua sabedoria, inflamou sua ganância e o levou a influenciar outros anjos (Ap 12: 4, 7-9; um ‘negócio desonesto’), corrompendo seu status privilegiado e à violência: a batalha no céu (Ap 12: 7) e a violência contra a humanidade feita à imagem de Deus (Jo 10: 10: roubo, morte, destruição).
Lúcifer negociou com outros anjos para alcançar o poder que queria. Isso mostra que Satanás está envolvido com o comércio (os negócios) e a violência (guerra). E qual foi seu lucro? Foi derrotado e expulso do monte de Deus: “Pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus”. Satanás caiu da glória à profanidade, deixou de ter acesso à presença de Deus, teve restrições de agir na terra (Lc 10: 17-18; Mt 12: 29; Jo 12: 31-32; Jo 16: 11; Ap 12: 9; Ap 20: 1-3) e seu destino será o lago de fogo (Ap 20: 10).
• Ez 28: 16-17: A ganância e a ambição tiraram dele essa posição. Pela multiplicação do seu comércio, ele se encheu de violência e pecou.
Por isso, foi lançado para a terra, longe do monte de Deus, pois seu coração se elevou e sua sabedoria se corrompeu. Deus o expulsou do meio dos outros querubins (“do meio das pedras fulgurantes” ou “em meio ao brilho das pedras”). Até aqui está clara a ação de orgulho daquele anjo pela sua beleza, o que o levou à sua rebelião, querendo o lugar de Deus e, obviamente, à sua queda.
• Ez 28: 18: As práticas comerciais desonestas dos líderes de Tiro eram um reflexo dos negócios desonestos e enganosos do poder espiritual por trás deles. Satanás é o pai da mentira (Jo 8: 44) e vem somente para roubar, matar e destruir (Jo 10: 10). Lúcifer negociou com outros anjos para alcançar o poder que queria. O rei de Tiro negociou para obter seu próprio poder.
Então, a bíblia descreve o orgulho do rei, como ser humano, que o levou ao materialismo, à violência e à iniqüidade nos negócios e na religião. Ele também se orgulhou de sua beleza.
Com o aumento de sua riqueza, seu orgulho também aumentou, pois ela o corrompeu completamente, ele se tornou desonesto.
Seus santuários foram profanados pela injustiça do comércio dele. “Os santuários” pode significar a seus palácios ou seus templos idólatras. “Profanados” porque seriam destruídos por inimigos. Tiro ostentava numerosos santuários e por isso era chamada de Ilha Sagrada na Antiguidade.
“Fiz sair do meio de ti um fogo” significa que o rei de Tiro causou ele mesmo o fogo do julgamento de Deus. Ele será consumido pelo fogo da ira de Deus e, reduzido a cinzas, será jogado na terra. Sua destruição deixaria os povos horrorizados pelo seu terrível fim, pois isso significará que eles também serão julgados.
Tiro tem um grande poder espiritual, semelhante ao da Grande Babilônia (Ez 27: 1-36; Ap 17: 1-18; Ap 18: 1-24).
20 Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
21 Filho do homem, volve o rosto contra Sidom, profetiza contra ela
22 e dize: Assim diz o Senhor Deus: Eis-me contra ti, ó Sidom, e serei glorificado no meio de ti; saberão que eu sou o Senhor, quando nela executar juízos e nela me santificar [NVI: e diga: Assim diz o Soberano, o SENHOR: “Estou contra você, Sidom, e manifestarei a minha glória dentro de você. Todos saberão que eu sou o SENHOR, quando eu castigá-la e mostrar-me santo em seu meio].
23 Pois enviarei contra ela a peste e o sangue nas suas ruas, e os traspassados cairão no meio dela, pela espada contra ela, por todos os lados; e saberão que eu sou o Senhor.
24 Para a casa de Israel já não haverá espinho que a pique, nem abrolho que cause dor, entre todos os vizinhos que a tratam com desprezo; e saberão que eu sou o Senhor Deus [NVI: Israel não terá mais vizinhos maldosos agindo como roseiras bravas dolorosas e espinhos pontudos. Pois eles saberão que eu sou o Soberano, o SENHOR].
25 Assim diz o Senhor Deus: Quando eu congregar a casa de Israel dentre os povos entre os quais estão espalhados e eu me santificar entre eles, perante as nações, então, habitarão na terra que dei a meu servo, a Jacó.
26 Habitarão nela seguros, edificarão casas e plantarão vinhas; sim, habitarão seguros, quando eu executar juízos contra todos os que os tratam com desprezo ao redor deles; e saberão que eu sou o Senhor, seu Deus.
Na seqüência vem uma profecia contra Sidom, cujos pecados eram parecidos com os de Tiro.
No tempo de Josué, Sidom era uma grande cidade (Js 11: 8; 19: 28). Foi construída por Sidom, filho de Canaã (Gn 10: 15; 1 Cr 1: 13). Era um famoso centro comercial. Mas nos dias de Ezequiel, Sidom não era tão importante como Tiro.
A causa do juízo aqui era o desprezo e a zombaria de Sidom por Israel, devido ao julgamento que Deus trouxe ao Seu povo (Ez 28: 24,26), enquanto Ele dá uma promessa de restauração, justiça e alívio para eles.
Deus silenciaria todas as essas nações, cujo escárnio e zombaria agiram como espinhos e cardos dolorosos.
Seu povo seria santificado, congregado de entre as nações e voltariam a morar na sua própria terra, de maneira segura e reconstruiriam suas vidas.
O plano de Deus para a morada definitiva de Israel em sua terra não terminou com a conclusão da conquista babilônica de Jerusalém, mas continua em andamento até a segunda vinda de Jesus.
Esse vídeo é parte do curso bíblico (link dourado no alto das páginas).


Table about the prophets (PDF)
Autora: Pastora Tânia Cristina Giachetti
PIX: msearaagape@gmail.com
E-mail: msearaagape@gmail.com